O Inimigo Invisível

A única forma de combater um inimigo invisível e silencioso é assumir que ele está em todo o lado.

Num mundo em que esse inimigo existe, os sábios passam por paranóicos, e os racionais e moderados vivem muito pouco.

O inimigo invisível não tem face; por isso, é difícil odiá-lo apaixonadamente.

É difícil encontrar a motivação para combater todos os dias uma coisa sem braços e pernas, sem garras e presas.

Estamos habituados a travar as nossas guerras com armas e punhos, com gritos e palavras. Mas nada disso vale face ao inimigo sem braços nem pernas, sem garras e presas.

Um inimigo destes combate-se por privação. 

Combate-se salgando os campos para ele não ter que comer. 

Combate-se queimando as florestas, para ele não poder respirar.

A comida que este inimigo consome, e o ar que ele respira, somos nós.

A forma de o combater? Através da disciplina.

As vitórias são diárias, mas não satisfazem. A prevenção, o dia sem perder a batalha, não dá sensação de conquista.

Acerca de ganhar, nós percebemos. Um jogo em que o objectivo é não perder, isso é menos familiar.

A disciplina é a de saber que este é um jogo em que a única forma de ganhar…

É aguentar até ao final do jogo, sem perder.

Pintura: “A intercessão do Beato Bernardo Tolomeo pelo fim da praga em Siena” por Giuseppe Maria Crespi

Um Movimento Importante

A razão pela qual abandonei a minha carreira médica foi para poder ajudar o maior número possível de empresas a adotar o teletrabalho.

Se alguém pode fazer todo o seu trabalho a partir de um computador, é criminoso fazer essa pessoa trabalhar num escritório.

Faz mal ao meio ambiente, faz mal à saúde física e mental, faz mal à família e, por fim, é mais caro para as empresas.

Precisamos de matar este meme de que as pessoas precisam estar sob supervisão (por norma pouco eficiente) num lugar físico para que sejam produtivas.

Os americanos chama-lhe “a corrida de ratos,” e é uma metáfora tão própria, tão exacta, que só nos faltam as caudas. Foi esta a vida com que sonhámos, para que estudámos? Uma vida em que passamos metade do nosso tempo a correr, e a outra metade a tentar desesperadamente recuperar energia, para recomeçar no dia a seguir?!

À data da escrita, espalha-se uma pandemia pelo nosso continente, mas mesmo antes disso, trabalhar num escritório (aberto ou fechado, com ou sem espaços de lazer, cozinhas, mesas de pingue-pongue, etc.) 8 horas por dia, 5 dias por semana também matava uma pessoa. A única diferença é que levava anos a matar, não dias.

Patrões e donos de empresas: parem de ser um facilitador desta maneira disfuncional de trabalhar. Façam com que o vosso pessoal trabalhem a partir de casa, sempre que possível.

Pintura: Cena em Porto Italiano, por Thomas Wijck

2020, o Ano do Velho

Já comentei várias vezes – habitualmente quando escrevo sobre videojogos – que a nossa cultura tem um fetiche pelo novo.

Acho cada vez mais que é um condicionamento cultural e capitalista – somos incentivados a falar e a ficar excitados pelas coisas novas, porque as coisas novas são, por norma, mais caras.

E atenção, eu sou um fã de capitalismo. Não gosto é de me sentir manipulado.

Este ano, decidi fazer uma experiência: nada de videojogos novos, nem de livros novos. 

Se comprar livros ou videojogos novos em 2020, serão alguns que foram publicados em anos anteriores. (Ou, no caso dos videojogos, de remakes de clássicos que já sei serem importantes para mim.

A minha teoria sempre foi de que a melhor arte é intemporal. Que o jogo ou livro com 5 anos, se é mesmo bom, será bom hoje também. Afinal de contas, para mim será novo.

Serei capaz de manter esta estratégia, fã de livros e videojogos que sou? Não sei. Vamos descobrir! 

Pintura: “O Banquete de Sífax” por Alessandro Allori

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.