Déraciné

Acima de tudo, Déraciné é uma história contada em formato interactivo. Portanto a primeira pergunta a que é preciso dar resposta é: “Seria esta história melhor contada noutro formato?”

Porque normalmente é esse o caso. A maioria dos jogos de aventura funcionaria melhor como livro do que como videojogo. A maioria jogos de acção funcionaria melhor como filme do que videojogo. Quando se faz um videojogo em que o foco é a história, é necessário ter a certeza que o meio interactivo beneficia a história. Ou ainda melhor – que essa história não funcionaria noutro meio.

Fico feliz por declarar que Déraciné se encaixa na primeira categoria. Isto é: a história que o jogo quer contar poderia ser contada através de prosa ou cinema, mas seria mais fraca em qualquer um desses casos. Só isto, já é um triunfo para o jogo, tão rara é a situação.

Déraciné usa viagens no tempo e o sobrenatural com mecanismos para examinar dois temas: a mortalidade e a fatalidade do destino. Mas a linha com que tece a sua teia narrativa é de intimidade, intimidade que o jogo constrói pedindo aos jogadores que examinem o seu mundo, deixando-os descobrir e fazer ligações entre pedaços de informação sobre cada personagem e eventos passados, quais arqueólogos digitais.

É certo, poder-se-ia replicar este mecanismo noutros meios – por exemplo, escrevendo uma novela em que alguns parágrafos estariam em código, cabendo ao leitor decifrar-los. Mas funciona muito melhor assim, através de interação com um mundo tridimensional.

Ser um jogo em realidade virtual dá mais potência a este conceito. O processo de abrir gavetas, de espreitar por baixo da frincha de uma porta fechada, de olhar em torno de esquinas… Tudo isto dá azo a uma sensação de presença física que estaria ausente fosse este um jogo de aventura na primeira pessoa ou em duas dimensões. Também ajuda a dar mais vida aos personagens, mesmo estando estes, por motivos técnicos e narrativos, quase sempre estáticos.

Portanto Déraciné é um sucesso em três dimensões: é competente na exploração dos temas que se propõe a explorar; é uma história que beneficia do meio interactivo; e é uma melhor composição interativa em virtude da utilização de realidade virtual.

Não é nada mau.

Podcasts

Podcasts são uma excelente forma de aprender coisas durante a rotina diária, e normalmente também são leves suficiente para entreter. São uma excelente companhia para corridas, caminhadas, lavar louça, e muito mais.

Um amigo pediu-me para lhe fazer umas recomendações, e eu pensei: “Porque não meter no blogue?” Aqui estão:

Só oiço podcasts em inglês. Não por ter algo contra os Portugueses, simplesmente ainda não encontrei nenhum que me cativasse. Aceitam-se sugestões. Entretanto, se quiserem mesmo ouvir algo em Português, e tiverem curiosidade acerca de videojogos, sugiro-vos que explorem o catálogo de episódios antigos do ene3cast, um projecto de que me orgulho.

Big Questions with Cal Fussman – Este podcast é extremamente divertido. O Fussman é um entrevistador exímio, e consegue sempre fazer as perguntas certas para extrair o máximo de sumo possível dos convidados. As entrevistas que me impressionaram mais foram aquelas em que os convidados me pareciam ser aborrecidos ou ter ideias estúpidas. O Cal consegue sempre fazer-me reconsiderar o meu julgamento precipitado.

Waking Up with Sam Harris – Ouvir isto faz-me sentir mais inteligente. O Sam consegue encontrar consistentemente pessoas que sabem falar com rigor e de forma fundamentada acerca de problemas sociais, culturais, espirituais, politicos e económicos. Em termos de qualidade de informação, este programa é imbatível. Muitos episódios de 2017 são excessivamente focados no clima político Norte-Americano ( efeito do trauma do Trump) mas mesmo assim, há aqui muita vitamina cerebral.

Quintus Curtius – É um programa divertido, e de episódios curtos. O anfitrião é um tipo inteligente que traduz tratados filosóficos em Latim como hobby (!!!), e em cada podcast partilha um pouco de filosofia prática que pessoas normais podem aplicar no seu dia-a-dia. É um programa muito acessível; o Quintus nunca tenta ostentar a sua inteligência. Pelo contrário, adopta uma postura muito simples e conversational. Por vezes é um bocado excêntrico, por exemplo no final de alguns episódios mete-se a ler do Twitter coisas que acha piada, e a rir-se do que está a ler. Não posso dizer que aprecio o seu sentido de humor – metade das vezes, não percebo a piada – mas perdoo-lhe isso pois o resto do conteúdo é excelente.

The Tim Ferriss Show – O que há a dizer acerca daquele que é provavelmente o podcast mais ouvido do mundo? O Tim não é um entrevistador tão fantástico como o Fussman, mas compensa pela qualidade das pessoas que encontra para entrevistar. Sejam qual forem os teus interesses – negócios, marketing, filosofia, desporto, fotografia, espiritualismo, ferragem japonesa – ele teve um ou mais dos melhores do mundo a falar sobre isso. Este programa é uma arca de tesouro de conhecimentos, e a única dificuldade é encontrar os pedaços de informação aplicável no meio de conversas que podem durar até duas ou três horas. Faz-te acompanhar de um bloco de notas.

 

Fotografia: slatka60 Flickr via Compfight cc

Marketing Ético

A senhora da padaria ofereceu-me um pão-de-forma.

Não foi parte de nenhuma promoção. Ela não me cobrou, porque era pão de ontem. Disse que não podia vender pão de ontem. Mas como sabia que eu gostava daquele tipo específico de pão para fazer torradas, perguntou-me se eu não o queria levar, de graça.

A partir de agora, vou àquela padaria sempre que puder. 

Não porque recebi uma “borla”. Foi uma situação pontual e não há garantias de que volte a acontecer.

Vou, porque sei que não me vão tentar aldrabar, a vender pão de ontem.

As tuas acções comunicam a qualidade do teu produto, do teu trabalho, muito mais do que as tuas palavras.

Fotografia: Animus Mirabilis Flickr via Compfight cc

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.