A Viagem e o Final

A maior parte dos livros tem uma moral (ou sugestão de acção) passível de explicar em duas páginas ou menos.

Então, porque é que se escrevem livros?

Porque aplicar uma solução sem compreender como se chegou a ela é o que fazem os robôs. E às vezes, isso é suficiente; às vezes, só precisamos de saber que peça usar, que linha de código escrever, e que ingrediente escolher.

Mas a maior parte das vezes, não; o raciocínio é precioso, porque nos ajuda  a tomar uma decisão em condições que são semelhantes mas não exactamente iguais às descritas no cenário original. Conhecer o caminho ajuda-nos a criar adaptações.

Mesmo que raciocínio não seja necessário para assimilar a solução, o contexto pode ser. Um excelente exemplo disto é “O Alquimista,” de Paulo Coelho. Tudo o que o livro tem a dizer, é dito na última página. No entanto, se pularmos para a ultima página sem ler o resto do livro, vamos achar que é um lugar comum; sabedoria de algibeira.

Ás vezes, é preciso viver os desafios para integrar a solução.

Os livros dão-nos a oportunidade de os viver sem os sofrer.

Fotografia: Pamela P. Stroud Flickr via Compfight cc

Dinheiro e Percepção

“Um dia, Yahya estava em viagem com o califa Harun Al-Rashid. Um homem apareceu diante do califa e disse-lhe: “A minha mula morreu”. Ao ouvir isso, o califa ordenou que o pobre homem recebesse quinhentos dirhams.

Mas Yahya sinalizou ao califa para desmontar e depois levou-o para o lado. 

“Pai!” Disse Harun. “Fez-me um sinal sobre algo que eu não entendo.” Yahya respondeu: “Um califa nunca deve se rebaixar a mencionar uma quantia tão pequena de dinheiro, até mesmo como presente. Quando é necessário dar, é melhor dar cinco mil ou dez mil. 

Harun perguntou-lhe: “Então, o que deveria eu ter feito nesta situação?” Yahya disse: “Ofereça-lhe simplesmente uma mula nova.”

 — A Sabedoria e Generosidade de Yahya Ibn Khalid (Inglês – Tradução original por Quintus Curtius)

O valor do dinheiro é diferente para cada um de nós. É por isso que um presente de dinheiro é ingrato: é raro a nossa percepção do valor corresponder à percepção da outra pessoa.

A generosidade monetária de um homem pode assemelhar-se à avarice de outro; e, mesmo que ambas as partes fiquem satisfeitas com a dádiva, o julgamento dos que a testemunhem é sempre uma incógnita.

Mais sensato, portanto, é descobrir o que é que a outra pessoa deseja, e, estando dentro da nossa possibilidade, oferecer isso.

Nem mais, nem menos; a arte da generosidade é uma arte que exige medidas certas.

Fotografia: stephenbarber Flickr via Compfight cc

Em Retrospectiva

Como pessoas, somos uma amálgama de biologia e experiências. 

A biologia é directamente determinista. As experiências não o são. 

A posse de um determinado conjunto de dados e a interação desse conjunto de dados com a biologia de uma pessoa é o que vai formar a sua personalidade, capacidade cognitiva, gostos, e tudo o que o define como um indivíduo. 

O que as experiências fazem é inserir dados no sistema que somos nós.

A pessoa que somos é uma consequência das experiências a que a nossa entidade biológica foi exposta.

Logo: a pessoa que somos depois de uma experiência (marcante? especial?) é uma pessoa diferente da que iniciou a acção, que deu início à experiência.

É por isso que não faz sentido sentir arrependimento pelos erros do passado. 

Aprender com eles, sim. Claro. É uma tragédia se não aprendermos com eles. Mas arrepender-nos do que foi feito?

Qual o sentido de nos arrependermos de algo que outra pessoa fez?

Fotografia: nimishgogri Flickr via Compfight cc

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.