Terapia Estrelar

Um lembrete que tenho no meu calendário electrónico: a cada 4º Domingo do mês, sair à rua depois de cair a noite, e olhar para as estrelas durante um quarto de hora.

A vida pode correr bem, ou pode correr mal; mas as estrelas estão sempre lá. Há muitas coisas bonitas e inspiradoras no mundo, mas poucas são tão acessíveis como o céu estrelado. 

E hoje… (Bem, tecnicamente, ontem. Porque me atrasei. Desculpem.) Vimos uma coisa nova: a primeira fotografia de um buraco negro.

Que mais haverá lá por cima? É interessante pensar nisso. Os nossos antepassados não sonhavam com as coisas que viríamos a saber acerca do universo.

Mas olhavam para as mesmas estrelas.

Separados por gerações, por eras, ou meramente por mares e montanhas; estamos todos sob o mesmo céu.

Sem Modo “Fácil”

Nos últimos dias, tive que ler um livro que estava muito acima da minha capacidade. Era um livro que presumia muito conhecimento anterior da minha parte. Tive que parar várias vezes para pesquisar o significado de palavras que desconhecia, e para consultar livros referidos na bibliografia.

Na nossa sociedade facilitista, seria fácil dizer que o livro era pobre, que era muito exigente, que não era didático.

Mas não é razoável exigir que todos os livros sejam escritos para leigos. Como é que é possível alcançar profundidade de conhecimento, se perdemos tanto tempo a fazer o reconhecimento da superfície? Não; uma obra que queira contribuir de forma significante para o todo, tem que assumir que o leitor já passou pelas bases.

Acabei por fazer a entrevista, e acho que não fiz má figura. Domino o material? Não, nem um pouco. Consegui reter algumas ideias, alguns princípios, consigo ter uma discussão inteligente sobre o livro e o material que lá está, mas precisaria de mais algumas (muitas!) luas para saber implementar o material.

Mas o simples projecto, o esforço destes ultimos dias, obrigaram-me a ser um leitor mais focado, mais rigoroso, obrigaram-me a fazer notas e a construir muito bem as minhas questões. É um “subir de nível” que só foi possível porque me atrevi a atirar-me a um livro mais forte do que eu.

Atreve-te também.

Pintura: “A Forja de Vulcano” por Francesco Bassano

Analógico

Ontem foi um dia feliz: o meu tio trouxe-me o gira-discos que me tinha avariado, consertado.

Claro que fiquei feliz por poder voltar a ouvir os meus vinis. Não tenho uma coleção muito grande (são caros!) mas há qualquer coisa mágica na experiência, nesta coisa de ter uma caixa que faz música a partir de um prato e uma agulha. Um trio de observações:

  1. Muito mais do que no caso de um CD ou DVD, há toda uma sensação de que é uma peça, um objecto artístico que se segura nas mãos. A dimensão do envelope de cartão, com a arte fotográfica ou pintada; o próprio peso e textura do vinil; tirá-lo do envelope de protecção. Que diferença entre isto, e tirar um disco metálico de uma caixa de plástico manhoso, ou pior ainda – carregar num botão na app da Spotify.
  2. A selecção é importante. É preciso pensar: o que me apetece ouvir? Afinal de contas, não posso mudar de ideias com um simples gesto no ecrã, ou pressionando um par de teclas no teclado. Não; mudar de ideias significa repetir o ritual mais duas vezes, uma para arrumar o disco que toca, e outra para colocar o novo.
  3. E, já agora, para alguém que trabalha ao computador e que corre o sério risco de passar um dia inteiro sentado, com breves interlúdios para fazer o almoço ou ir à casa de banho… Que bem que faz a música parar, e exigir alguns passos, a cada 20-30 minutos!

Conveniência é uma coisa fantástica, e gosto muito de ter as minhas músicas no telemóvel, de as poder levar para qualquer lado e ouvir como quiser, quando quiser. 

Mas não vale a pena fingir que não se perde nada neste mundo digital. A conveniência paga-se, e nem sempre em dinheiro.

Fotografia: artnoose Flickr via Compfight cc

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