Os Diamantes no Caminho

Não me considero um anti-materialista; nem sequer um minimalista. 

O meu texto anterior não se propunha a exaltar nenhuma destas posições.

Acho que o consumismo é um problema. Mas nem sequer por si próprio. Não há grande mal em “ter” coisas. O problema é quando estamos tão habituados a adquirir coisas como forma de preencher um vazio emocional, que nem sequer damos pela presença desse vazio. 

E nos tempos que correm, temo que todos estejamos nessa situação, em maior ou menor medida.

Comprar coisas sabe bem. Já houve alturas em que me deu mais gozo o acto de comprar uma coisa do que o acto de a ter, de usufruir dela. 

Quando a satisfação está a um clique de distância, e o custo é uma mera troca de dígitos num servidor bancário – longe da metáfora visual de ver notas a sair da carteira – carregar no botão de “comprar” é a atitude mais normal do mundo. Liberta os químicos necessários ao “sentir bem.”

Mas o buraco não fica preenchido. Os químicos desaparecem, e é preciso carregar no botão outra vez. E outra. E cada vez, o químico dura menos.

Há compras que preenchem o vazio. Não o nego. Mas não são as que fazemos com frequência.

É o album musical que nos enche de inspiração, que podemos estar a ouvir só por ouvir, sem ser como fundo de uma outra experiência.

É o quadro ou estátua ou obra de arte que nos chama para contemplar a sua beleza sempre que passamos por ele, que nos aproxima da experiência transcendente do divino.

É o anel que recebemos de alguém que nos ama ou amava. Ou o livro que re-lêmos todos os anos para ser transportados para outro mundo. Ou o filme de que conhecemos todas as deixas.

As coisas boas duram.

Os objectos não são o caminho, mas podem ajudar-nos a encontrar o caminho. Mas escolhe-os bem, porque a maioria são só pedras no caminho, pedras disfarçadas de diamantes.

O teu trabalho é prestar atenção; saber distinguí-los; e reconhecer que só aparece um diamante a cada mil pedras.

Se te limitares a apanhá-las todas, a única coisa que vai acontecer é que o caminho te vai pesar.

“Não te vai fazer feliz”

Se algum dia eu aprender a programar, a primeira coisa que vou fazer é uma extenção para Safari (e talvez para Firefox) que lança uma janela com o sopracitado, sempre que o utilizador navegar até um site de compras.

É possível que seja a maior contribuição que eu venha a fazer para o mundo.

Vai primeiro

  • Sorri primeiro.
  • Faz o trabalho primeiro.
  • Diz olá primeiro.
  • Pesquisa primeiro.
  • Cuida de sua saúde primeiro.
  • Convida primeiro.
  • Oferece a mão primeiro.
  • Coloca o cliente em primeiro (lugar).
  • Demonstra valor primeiro.

Baseado nesta citação:

Eu digo que vou sempre primeiro. Isso significa que, quando estou na caixa da loja, digo olá primeiro. Se eu me cruzar com alguém e fizer contato visual, vou sorrir primeiro. Se as pessoas quiserem experimentar “ir primeiro”  um pouco na vida delas – nem sempre, mas na maioria das vezes isso joga a favor delas. (…) tens que ir primeiro porque no mundo actual, estamos a ser treinados para nunca avançar em primeiro lugar.

— Gabrielle Reece “Podcast Tim Ferriss”, Episódio 87 (tradução minha)


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