Gratidão

Parte da graça de escrever estas notas diárias é encontrar a imagem para acompanhar a publicação. 

Num mundo de posts de Facebook e Twitter e Instagram, de canais de notícias 24 horas, é fácil esquecer que com uma simples pesquisa online, podemos ver centenas de pinturas clássicas. 

Há 30 anos, estas obras só eram acessíveis a uma mão-cheia de conhecedores com os meios para viajar em redor do mundo e visitar as galerias (por vezes, privadas) que as alojavam. Um livro com réplicas de uma fração destas obras seria muito caro – caro demais para um apreciador casual.

Hoje, somos afogados pela enchente de nova informação, de novas obras, de novos produtos. É, afinal de contas, o novo que vende. É muito difícil ter lucro mantendo uma galeria de arte gratuita online com milhares de obras. Não dá tantos “gostos” manter uma página de Facebook dedicada à beleza da arte clássica

Mas ainda assim, essas duas coisas existem, e muitas mais como elas.

Uma vida mais preenchida de beleza está ao alcance de qualquer pessoa com uma ligação à internet.

Vale a pena dar graças por isso.

Pintura: Minerva e as Nove Musas, por Hendrick van Balen.

Por Servir

Nunca verão o post que era para estar aqui hoje.

Ele foi escrito. E foi traduzido para outra língua. Mas nunca vai ser publicado.

No restaurante, podem pensar que o cozinheiro está a demorar demais. Mas o que não sabem é que ele fez o prato, e provou. E depois deitou para o lixo e começou outra vez. 

O cozinheiro não vai apresentar desculpas. Ele sabe que vão ficar desagradados por esperar pela refeição, por boa que ela venha a ser. Mas antes viver com esse desagrado, do que apresentar algo com que ele próprio não se sentisse satisfeito.

Há coisas que só depois de feitas, se percebe que não funcionam. Que não são dignas do tempo dos outros. Não é uma falha fazê-las! Esse foi um caminho que teve que ser percorrido. 

Mas depois da coragem de as fazer, há que ter a coragem de não as servir.

Pintura: “Cozinheira com Comida”, por Frans Snyders

Contexto e Emoção

É um clichê, a pessoa que vai fazer voluntariado para um país em desenvolvimento e quando volta, vive em gratidão pelo que tem. 

Viver e trabalhar com pessoas que não têm suficiente para comer, que muitas vezes não têm acesso a água potável – esse contexto dá outra perspectiva ao que é “dificuldade.”

Mas esse é o mesmo mecanismo que ativamos quando nos comparamos com alguém que ganha menos que nós, que sabe menos que nós, que tem menos capacidade que nós.

Ambas as comparações ativam o mesmo mecanismo; no entanto, uma é vista com admiração; a outra, como insalubre.

A diferença é a “gratidão.” No primeiro parágrafo, usei a palavra gratidão para descrever a sensação que a voluntária tem. No terceiro, não atribuí um estado emocional que a comparação com quem tem menos suscita. Foi o cérebro do leitor que preencheu esse vazio.

Que palavra escolheste?

Pintura: Divas e Lazarus, por Leandro Bassano.

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.