Em Retrospectiva

Como pessoas, somos uma amálgama de biologia e experiências. 

A biologia é directamente determinista. As experiências não o são. 

A posse de um determinado conjunto de dados e a interação desse conjunto de dados com a biologia de uma pessoa é o que vai formar a sua personalidade, capacidade cognitiva, gostos, e tudo o que o define como um indivíduo. 

O que as experiências fazem é inserir dados no sistema que somos nós.

A pessoa que somos é uma consequência das experiências a que a nossa entidade biológica foi exposta.

Logo: a pessoa que somos depois de uma experiência (marcante? especial?) é uma pessoa diferente da que iniciou a acção, que deu início à experiência.

É por isso que não faz sentido sentir arrependimento pelos erros do passado. 

Aprender com eles, sim. Claro. É uma tragédia se não aprendermos com eles. Mas arrepender-nos do que foi feito?

Qual o sentido de nos arrependermos de algo que outra pessoa fez?

Fotografia: nimishgogri Flickr via Compfight cc

O Banho de Arquimedes

O que escrevi há dois dias sobre aprender, é igualmente verdade para a produção.

Trabalhar é admirável. Produzir é admirável. É o trabalho, o nosso trabalho – o trabalho que traz novos objectos, ideias ou sistemas ao mundo, ou que faz com que os objectos, ideias ou sistema existentes se mantenham devidamente funcionais – que acrescenta valor à existência de todos.

Mas se estivermos todos sempre a produzir, de onde surge o novo?

O problema da produtividade é que não deixa espaço para a criatividade.

Vou tentar passar a ser um pouco mais (produtivamente) preguiçoso.

Fotografia: Tabbymom Jen Flickr via Compfight cc

Falhar e Continuar

No outro dia estava a jantar fora e na televisão passavam os Jogos Europeus 2019 – especificamente as provas de ginástica. 

Não sigo muitos desportos mas gosto de ver quando calha, porque acho que as atitudes dos melhores desportistas profissionais são atitudes que vale a pena emular. Afinal de contas, são pessoas que trabalham arduamente meses a fio para poder provar os frutos desse trabalho apenas um par de vezes por ano. A disciplina e sangue frio necessários são qualidades que admiro.

Foi o caso numa das provas a que assisti. A rapariga estava a dançar e a fazer piruetas com um bastão, e a certa altura, atirou o bastão ao ar, deu um passo de dança, e quando tentou apanhar o bastão, este bateu-lhe na mão e caiu ao chão.

Ela ficou chocada e atrapalhada durante aproximadamente um quatro de segundo; depois, pegou no bastão e seguiu com o numero – uma conclusão, a meu ver, perfeita.

Pensem na intensidade emocional durante esse quatro de segundo: nesse momento, ela perdeu a prova. Não importa o quão bem executasse o resto, foi uma falha tão crassa que seria impossível ganhar, a menos que todas as outras concorrentes cometessem gafes similares. (E algumas já tinham actuado, e não as cometeram.) Nesse momento, meses de trabalho, de dedicação, de dias longos e privações… Evaporaram-se.

O que teria feito, caro leitor, no lugar desta pessoa?

O que fazemos nós, quando uma hora ou um dia ou duas semanas de esforço não resultam no que queremos? Quando falhamos, ou quando as coisas correm mal? 

Por quanto tempo choramos, matutamos, nos arrastamos pelos cantos, rogamos pragas ao universo? Por quanto tempo nos deixamos ficar em baixo, quanto tempo levamos a recomeçar? Quanto tempo fazemos de luto pelos nossos sonhos despedaçados, pelos nossos planos logrados?

(Uma adivinha, já agora: qual é a coisa de que tanto a Morte como a Vida se riem com igual folia? Isso mesmo: dos nossos planos.)

Um quarto de segundo, foi o que esta rapariga devotou ao luto. Depois – prosseguiu. Apesar do objectivo estar perdido. Apesar da esperança ter desaparecido. Não interessa. Ela treinou para isto. Treinou do principio ao fim. Mais tarde, terminada a prova, haveria tempo para lágrimas. Naquele momento, ela tinha começado a prova, e ia acabar.

É isso que os profissionais fazem.

Fotografia: Erin Costa Flickr via Compfight cc

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