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Filosofia

O Meu Exercício De Ano Novo

Todos os anos começo Janeiro com este exercício. Só me tem trazido coisas boas. Agora, partilho-o contigo.

Numa outra vida, fui antropólogo. Andava a estudar esse mais bizarro dos animais, o “life-coach.” Espantava-me como, qual vizir da Pérsia mitológica ou filósofo da Grécia antiga, um destes seres podia ganhar a vida fazendo aquilo que a maioria de nós faz de graça: dizer aos outros como resolver os seus problemas.

(Blá blá blá, “um bom coach não dá às pessoas as soluções, mas ajuda-as a encontrar soluções,” imagino-os já a dizer; outra das características comuns desta espécie é o seu abundante sentido de humor no que diz respeito aos outros, e completa falta dele em relação a si próprios.)

Enfim, um dos rituais favoritos destes seres é aquilo que eles chamam de “pizza da vida.” Fazem este ritual com frequência, por vezes até várias vezes por mês, mas juram que é muito importante fazê-lo pelo menos uma vez por ano! É algo como isto:

Uma "pizza da vida," como típicamente desenhada pela especie Lifus Coachus.
Uma “pizza da vida,” como típicamente desenhada pela especie Lifus Coachus.

O objectivo é dar a cada uma desses importantes áreas da nossa vida uma pontuação de 0 a 10, mas como números são uma coisa assustadora, o life-coach opta por uma representação visual, um preenchimento de cada fatia.

Experimentei a prática algumas vezes, e não gostei; soube-me demasiado àquela auto-avaliação do liceu, e se os meus estudos de filosofia e neurologia convergem em alguma coisa, é na certeza de que a auto-avaliação é uma das coisas que nós, seres humanos, fazemos pior.

A divisão, no entanto, interessou-me. O primeiro passo para resolver qualquer problema, é formulá-lo correctamente. O segundo passo é torná-lo específico, ou dividi-lo em partes especificas. Dividir a nossa vida em várias áreas de acção ajuda-nos de duas formas:

  1. A estar cientes do equilíbrio, em vez de forcarmos a nossa atenção de forma aleatória.
  2. A definir o que queremos de forma mais concreta.

Portanto, criei o hábito de, no inicio de cada ano, fazer uma “lista de desejos,”, com 1 a 3 itens por cada área. Nesta fase, foco-me no “o quê / o que é que eu quero” e não tanto no “como.” Não se tratam de “resoluções de ano novo,” mas sim de identificação de desejos e problemas. A distinção é subtil, mas importante. Uma resolução é um “vou fazer isto.” Mas um “vou fazer isto” sem um propósito por detrás está condenado ao fracasso. O propósito deste exercício é decidir o que quero ou tenho que mudar; os mecanismos através dos quais executar a mudança, esses são um outro exercício.

Eis algumas observações acerca das categorias que uso, e as perguntas que uso para gerar desejos e ambições:

  1. Saude — A pedra basilar; sem saúde, nada se conquista. Como gostarias de encontrar a tua no final deste ano?
  2. Carreira — Diferente de dinheiro; muita gente está satisfeita com o que faz, mas não consegue pagar as contas; outros têm tudo o que desejam mas odeiam o seu trabalho. O que te faria sentir concretizado, profissionalmente, este ano?
  3. Dinheiro — Não é apenas um número. Como vai evoluir a tua relação com o dinheiro? “Tornar-me bom a investir na bolsa” é uma ambição comum.
  4. Amor — O que falta na tua vida amorosa? Encontrar, construir, ou manter, uma relação com aquela pessoa especial? Como seria a sensação de o fazer?
  5. Familia e Amigos — O que queres das tuas relações com aqueles que te são mais próximos?
  6. Contribuição — O que poderias fazer para melhorar o teu bairro, a tua cidade, o teu país?
  7. Desenvolvimento Pessoal — O que gostarias de aprender a fazer este ano? Vais tornar-te um mestre em quê?
  8. Hobbies e Vida Social — Hora da diversão! O que é que te deixaria seguro de que aproveitaste o que é bom na vida ao máximo?
  9. Grupo de Pares — Que tipo de pessoas e grupos te desafiariam e apoiariam para maximizar o teu crescimento? Por quem te queres fazer rodear?
  10. Liderança Pessoal — O que teria que acontecer para te sentires mais independente e destemido?
  11. Propósito de Vida — O que é que estás aqui a fazer? Como é que podes fazer mais disso este ano?
  12. Espiritualidade — O que podes fazer para ficar mais próximo, mais integrado com mundo/universo? (Religião é opcional.)

Mais uma vez, não são resoluções. A pergunta é “o que?”, não “Como?”

O como vem depois.