Português

Qual é o problema em usar o termo “Português de Portugal?” 

Não consigo apontar um problema obvio e concreto. No entanto, tenho a intuição de que é um pouco errado. 

Há uma voz pequena no fundo da cabeça que diz: soa um bocado nacionalista. Essa voz diz-me: usa “Português Europeu.” 

Mas é assim tão problemático declarar uma variante da lingua como pertencendo a um país? 

Talvez seja uma sensibilidade mais própria de mim, mas associo o termo “Europeu” a uma certa pretenciosidade. Afinal, ninguém chama ao Português que se fala no Brasil “Português Sul-Americano.” Na Europa, só há um país em que Português é a lingua oficial – e é Portugal!

Não me sinto incomodado por dizer “Português do Brasil.” Aliás, incomoda-me mais dizer que uma pessoa fala ou escreve em “Brasileiro.” 

Brasileiro/a é uma pessoa do Brasil. 

“Fala Brasileiro” é forma de dizer que “fala como um Brasileiro.” 

Essa maneira de dizer implica uma comparação, e uma comparação, um juízo de valor.

A lingua é uma coisa mutável. O original é original; a originalidade é um valor. Gostamos de coisas originais porque lhes reconhecemos um certo mérito, uma qualidade inalienável. Um acto de criação “do nada” é um acto divino.

É claro, a lingua Portuguesa não saiu “do nada.” Evoluiu de uma rica linhagem de dialectos que se foram cruzando e descruzando desde a meio mundo de distância. Mas tem um sabor próprio.

Por outro lado, a variante também tem mérito, tem outras qualidades. O Português do Brasil é mais experimental, com a sua incorporação de palavras indígenas e inglesas. 

É uma lingua que recuperou um pouco da paixão e da musicalidade que o Português de Portugal perdeu ao divergir dos seus parentes Ibéricos.

“Amo-te” dá ênfase ao verbo amar. 

“Te amo” dá ênfase ao sujeito. 

É um dialecto mais pessoal, menos formal.

E talvez a distinção se vá tornando cada vez mais irrelevante. Quando tinha vinte anos, nunca tinha conhecido uma pessoa do Brasil. Só ouvia o Português do Brasil nas telenovelas. 

Quinze anos mais tarde, já tinha trabalhado com muitos brasileiros e brasileiras.O dialecto tornou-se de tal forma parte do meu dia-a-dia que dei por mim a misturar os dois tipos de Português com alguma frequência.

Não gosto do acordo ortográfico, nunca gostei. Tenho uma aversão natural à idea de que instituições me podem dizer como devo falar ou escrever. Já pelo desenvolvimento natural e orgânico da língua, tenho o maior respeito e admiração. 

Com o passar dos anos, e enriquecimento de todos, temos maior facilidade em viajar. Por outro lado, o mundo pende cada vez mais para o digital. O resultado é que as várias variantes da língua se vão consolidando.

Talvez um dia, este ensaio seja desnecessário.

Talvez esteja próximo esse dia, dia de um único Português

Novidades

Em Novembro de 2018, decidi que ia escrever e publicar algo todos os dias. Fiz isso durante um ano, com uma quebra aqui e ali, mas no geral, acho que me safei decentemente. Em Novembro de 2019, parei. 

Não parei por desapontamento; não estava à espera de nada concreto. Mas também não senti que fazê-lo tivesse contribuído de forma especial para a minha vida, ou para a minha arte enquanto escritor.

Por um lado, senti a vontade de voltar a trabalhos mais elaborados. Livros e outros projectos.

Por outro lado, é bom ter a disciplina de fazer algo todos os dias.

Então, aqui fica a nova intenção: de voltar a colocar aqui algumas notas.

Vão ser diferentes do ano de conteúdo que aqui exibi anteriormente.

Em algumas ocasiões, vão ser meras apresentações de artigos que faz mais sentido publicar noutros lugares.

Noutras, vão ser notas e rascunhos de pensamentos que acabei por não incluir em lado nenhum.

Considerem isto o meu pequeno bloco de notas publico.

Sejam bem vindos. 2020 Começou tarde para este blogue, mas vai valer a pena segui-lo.

Fado de Perdição

“Então, se nos encontramos um contra o outro [ numa partida multi-jogador de Doom 2016] e todo o jogo depender, numa perspectiva de design, de  apontar e disparar bem, haverão pessoas que apontarão e dispararão melhor do que tu e eu e há muito pouco que possamos fazer acerca disso. Isso faz da morte uma experiência frustrante, porque significava que tu serias simplesmente melhor que eu.

– Hugo Martin, da id Software (entrevista a Gameindustry.biz )

Pouco que possamos fazer? E que tal… Praticar?

Certamente parte do prazer de jogar um jogo é… Tornar-nos melhores a jogar?

Há poucas coisas que eu odeie. Mas odeio – com todas as minhas forças e toda a minha alma – esta cultura de facilitismo, de imunização contra o fracasso, de protecionismo obsessivo e de redes de segurança.

Como é que estas pessoas encaram uma partida de ténis? Um jogo de xadrez? Um combate de Jiu-Jitsu?!

Nem tudo tem que ser competição. Há lugar no mundo dos videojogos para experiências mais sedadas, mais narrativas. Mas mesmo essas experiências, devem-nos desafiar ; se não a destreza manual, então intelectual. Se não a capacidade estratégica, então a capacidade filosófica. Se não nos desafiam os dedos, que desafiem as nossas crenças e valores!

Jogos são arte, dizem vós?! Arte verdadeira, desafia!
Jogos são desporto, dizem vós?! O desporto, desafia!

Mas aqui não se trata disto. Trata-se de limar as arestas a um jogo que ousava – ousava! – colocar um jogador contra o outro, numa prova de capacidade, de talento. Uma prova que recompensaria o jogador que mais tempo dedicou a dominar o princípios do jogo, e quiçá poderia inspirar o derrotado, por lhe dar um vislumbre do nível que poderia vir a alcançar, desde que investisse do seu tempo e esforço.

Mas não, não podemos arriscar ferir os frágeis egos dos homens e mulheres de 2019. Que a sua vida poderia ser irreversivelmente danificada, a sua alma traumatizada, por se depararem com alguém que joga melhor que eles num modo competitivo de um videojogo!

Está tudo errado. 

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.