Arquivo de etiquetas: Política

Loucos e Profetas

Estamos a perder os céticos, e isso não é bom.

Estamos a fazer pagar um preço muito elevado aqueles que não aceitam a hegemonia de pensamento. Isso é errado. Nós precisamos deles. Porque mesmo que eles estejam errados nove em dez vezes, a décima é crucial.

Não temos que seguir maluquinhos, nem que aceitar demagogia de pessoas com fraca fibra ética e moral. Mas temos que deixar a praça pública aberta a todas as pessoas.

Só ouvindo e prestando atenção é que conseguimos separar os maluquinhos dos profetas.

O Gigante Invisível

O momento político de hoje nos Estados Unidos é tão bizarro que dá a nós, europeus, motivo para troça. Isso acontece apenas porque os nossos mundos são separados por um oceano. É um erro. Eles estão muito mais próximos do que a maioria imagina.

Devemos tratar o momento atual com preocupação, não com gozo.

Se notei algo ao longo da minha vida, é que os EUA são o “paciente zero” de todas as modas e mazelas sócio-económicas. Tudo o que os afetou no passado, chegou ao velho continente em menos de meia dúzia de anos. Na era da disseminação super veloz da informação, certamente essa meia dúzia se encurtará.

O que nós vimos, foi um país profundamente dividido ao longo de uma linha ideológica, quase ao meio. O desempate foi forçado pela mão da besta, da estrutura semi-consciente formada pela tríade politica, mediática, e corporativa. É um animal semi-invisível, que gosta de trabalhar nos bastidores, com requintes maquiavélicos, mas que desta vez foi forçado a revelar-se mais do que nunca.

Não interessa se gostamos ou não do resultado. A diferença entre um ilusionista de renome e um charlatão é se conseguimos ou não ver os fios invisíveis.

Milhões viram-nos.

David e Golias

Hoje li um autor de que gosto, escrever algo nas linhas de:

“As pessoas que apoiam a monarquia fazem-nos pois querem abdicar da responsabilidade de ter uma participação democrática.”

Não sou fã da ideia de implantar a monarquia, mas acho que este comentário é muito pouco generoso, e pobre intelectualmente. Por duas razões.

Primeiro: Coloca automaticamente aqueles que detêm uma opinião diferente do autor num nível mais baixo. 

São “aqueles que querem abdicar da responsabilidade.” IE. Preguiçosos e/ou cobardes.  Cria logo uma equação subconsciente: se ser um cidadão responsável é uma coisa boa (acho que estamos todos de acordo até aqui), e se apoiar a monarquia é abdicar dessa responsabilidade, então quem Appia a monarquia é irresponsável. E nós não gostamos de pessoas irresponsáveis, pois não?

Segundo: Se vamos (por brevidade) reduzir uma posição politica complexa a uma única razão, que escolhamos então confrontar a melhor versão do nosso adversário. 

Não duvido que haja quem defenda a monarquia para não ter que pensar. Mas duvido seriamente que a maioria dos monárquicos se enquadre aí. Há coisas generosas a dizer acerca da monarquia, vantagens que tem sobre uma democracia pura. 

Por exemplo, podem-se fazer planos a longo prazo, sem se temer que o próximo governo mude tudo depois das próximas eleições. Isto é algo que é óbvio até para um leigo como eu, depois de pensar 5 minutos no assunto. Certamente que se estudasse um pouco, conseguiria encontrar muitos prós e contras em relação à monarquia.

Caímos na ilusão de que temos mais razão se fizermos burros dos nossos adversários intelectuais ou ideológicos. Não temos. 

Burros ficamos nós, se não tentarmos ver sempre o melhor nos nossos adversários. Não por empatia, ou por fair play, mas porque nos privamos de oportunidades para aprender.

E se o nosso intelecto é tão grande, e as nossas ideias tão sólidas, porque não testá-los contra um adversário à altura?