Arquivo de etiquetas: Objectivos

O Objetivo

“Se um homem não sabe para que porto navega, nenhum vento lhe é favorável.” — Seneca

Ter objetivos não significa que os vamos alcançar, nem tampouco basta para motivar. O propósito do objectivo não é a motivação, nem o místico “atrair a atenção do universo.”

O seu propósito é gerar foco.

Ter um fim em mente é ver uma imagem panorâmica — como dizem os ingleses, “ver a floresta em vez das árvores” — sem abdicar da capacidade de fazer zoom quando e onde seja necessário.

O Meu Exercício De Ano Novo

Numa outra vida, fui antropólogo. Andava a estudar esse mais bizarro dos animais, o “life-coach.” Espantava-me como, qual vizir da Pérsia mitológica ou filósofo da Grécia antiga, um destes seres podia ganhar a vida fazendo aquilo que a maioria de nós faz de graça: dizer aos outros como resolver os seus problemas.

(Blá blá blá, “um bom coach não dá às pessoas as soluções, mas ajuda-as a encontrar soluções,” imagino-os já a dizer; outra das características comuns desta espécie é o seu abundante sentido de humor no que diz respeito aos outros, e completa falta dele em relação a si próprios.)

Enfim, um dos rituais favoritos destes seres é aquilo que eles chamam de “pizza da vida.” Fazem este ritual com frequência, por vezes até várias vezes por mês, mas juram que é muito importante fazê-lo pelo menos uma vez por ano! É algo como isto:

Uma "pizza da vida," como típicamente desenhada pela especie Lifus Coachus.
Uma “pizza da vida,” como típicamente desenhada pela especie Lifus Coachus.

O objectivo é dar a cada uma desses importantes áreas da nossa vida uma pontuação de 0 a 10, mas como números são uma coisa assustadora, o life-coach opta por uma representação visual, um preenchimento de cada fatia.

Experimentei a prática algumas vezes, e não gostei; soube-me demasiado àquela auto-avaliação do liceu, e se os meus estudos de filosofia e neurologia convergem em alguma coisa, é na certeza de que a auto-avaliação é uma das coisas que nós, seres humanos, fazemos pior.

A divisão, no entanto, interessou-me. O primeiro passo para resolver qualquer problema, é formulá-lo correctamente. O segundo passo é torná-lo específico, ou dividi-lo em partes especificas. Dividir a nossa vida em várias áreas de acção ajuda-nos de duas formas:

  1. A estar cientes do equilíbrio, em vez de forcarmos a nossa atenção de forma aleatória.
  2. A definir o que queremos de forma mais concreta.

Portanto, criei o hábito de, no inicio de cada ano, fazer uma “lista de desejos,”, com 1 a 3 itens por cada área. Nesta fase, foco-me no “o quê / o que é que eu quero” e não tanto no “como.” Não se tratam de “resoluções de ano novo,” mas sim de identificação de desejos e problemas. A distinção é subtil, mas importante. Uma resolução é um “vou fazer isto.” Mas um “vou fazer isto” sem um propósito por detrás está condenado ao fracasso. O propósito deste exercício é decidir o que quero ou tenho que mudar; os mecanismos através dos quais executar a mudança, esses são um outro exercício.

Eis algumas observações acerca das categorias que uso, e as perguntas que uso para gerar desejos e ambições:

  1. Saude — A pedra basilar; sem saúde, nada se conquista. Como gostarias de encontrar a tua no final deste ano?
  2. Carreira — Diferente de dinheiro; muita gente está satisfeita com o que faz, mas não consegue pagar as contas; outros têm tudo o que desejam mas odeiam o seu trabalho. O que te faria sentir concretizado, profissionalmente, este ano?
  3. Dinheiro — Não é apenas um número. Como vai evoluir a tua relação com o dinheiro? “Tornar-me bom a investir na bolsa” é uma ambição comum.
  4. Amor — O que falta na tua vida amorosa? Encontrar, construir, ou manter, uma relação com aquela pessoa especial? Como seria a sensação de o fazer?
  5. Familia e Amigos — O que queres das tuas relações com aqueles que te são mais próximos?
  6. Contribuição — O que poderias fazer para melhorar o teu bairro, a tua cidade, o teu país?
  7. Desenvolvimento Pessoal — O que gostarias de aprender a fazer este ano? Vais tornar-te um mestre em quê?
  8. Hobbies e Vida Social — Hora da diversão! O que é que te deixaria seguro de que aproveitaste o que é bom na vida ao máximo?
  9. Grupo de Pares — Que tipo de pessoas e grupos te desafiariam e apoiariam para maximizar o teu crescimento? Por quem te queres fazer rodear?
  10. Liderança Pessoal — O que teria que acontecer para te sentires mais independente e destemido?
  11. Propósito de Vida — O que é que estás aqui a fazer? Como é que podes fazer mais disso este ano?
  12. Espiritualidade — O que podes fazer para ficar mais próximo, mais integrado com mundo/universo? (Religião é opcional.)

Mais uma vez, não são resoluções. A pergunta é “o que?”, não “Como?”

O como vem depois.

O Ano do Velho: Fracasso e Análise

No princípio de 2020, decidi que seria “o ano do velho.” O plano é que iria evitar coisas novas, para não me deixar levar pelas tendências atuais e, em vez disso, poder apreciar devidamente coisas que já não estavam sob as luzes da ribalta.

O projeto falhou redondamente, pelo menos no que concerne aos videojogos. Aqui fica um breve relato do fracasso, e uma análise do porquê.

Em livros, correu tudo bem. Passei o ano a ler vários livros que tinha à minha espera, alguns com décadas. (Os favoritos foram “Vida e Proezas de Alexis Zorbás” e “O Cristo Re-crucificado” por Nikos Kazantzakis.)

Em cinema, admito que me esqueci completamente da decisão, mas o estrago só aconteceu no último mês do ano, em que recebi um período de prova grátis para a Disney+, e vi a última temporada de “O Mandalorian” e o novo filme da Pixar, “Soul,” ambos com a minha mulher. De resto, passei o ano a explorar o arquivo da Netflix, sem grandes problemas.

Onde a vida realmente chocou com os meus planos foi no panorama dos videojogos. Acontece que os meus amigos (e o meu irmão) convenceram-me a reativar um projeto adormecido, o ene3cast; o ene3cast foi o primeiro podcast Português sobre videojogos.

O objectivo, desta feita, era finalmente tornar o passatempo num negócio. Montámos um sistema de subscrição, e trabalhámos com afinco para gerar conteúdo. Tornou-se claro para mim, muito depressa, que o mercado Português não é grande suficiente para suportar um programa focado no nicho de “jogos do passado.” Quer queiramos, quer não, vender um programa áudio — especialmente quando a concorrência é gratuita — exige que estejamos a par da atualidade.

Foi assim que 2020 acabou não só por não ser um ano em que eu joguei apenas jogos mais velhos, como se tornou um dos anos em que mais joguei jogos acabados de lançar.

No todo, foi uma boa decisão. Por vezes, projetos entram em conflito, e temos que escolher com qual prosseguir. Neste caso, o que eu ganhei — uma fonte de receita alternativa, muitas horas de diversão a gravar com amigos, e a experiência de montar um micro-negócio — superaram em muito a satisfação que me traria cumprir a minha decisão inicial.

Não tenham medo de mudar de rumo. Por vezes, surgem destinos mais atraentes.