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Podcasts

Podcasts são uma excelente forma de aprender coisas durante a rotina diária, e normalmente também são leves suficiente para entreter. São uma excelente companhia para corridas, caminhadas, lavar louça, e muito mais.

Um amigo pediu-me para lhe fazer umas recomendações, e eu pensei: “Porque não meter no blogue?” Aqui estão:

Só oiço podcasts em inglês. Não por ter algo contra os Portugueses, simplesmente ainda não encontrei nenhum que me cativasse. Aceitam-se sugestões. Entretanto, se quiserem mesmo ouvir algo em Português, e tiverem curiosidade acerca de videojogos, sugiro-vos que explorem o catálogo de episódios antigos do ene3cast, um projecto de que me orgulho.

Big Questions with Cal Fussman – Este podcast é extremamente divertido. O Fussman é um entrevistador exímio, e consegue sempre fazer as perguntas certas para extrair o máximo de sumo possível dos convidados. As entrevistas que me impressionaram mais foram aquelas em que os convidados me pareciam ser aborrecidos ou ter ideias estúpidas. O Cal consegue sempre fazer-me reconsiderar o meu julgamento precipitado.

Waking Up with Sam Harris – Ouvir isto faz-me sentir mais inteligente. O Sam consegue encontrar consistentemente pessoas que sabem falar com rigor e de forma fundamentada acerca de problemas sociais, culturais, espirituais, politicos e económicos. Em termos de qualidade de informação, este programa é imbatível. Muitos episódios de 2017 são excessivamente focados no clima político Norte-Americano ( efeito do trauma do Trump) mas mesmo assim, há aqui muita vitamina cerebral.

Quintus Curtius – É um programa divertido, e de episódios curtos. O anfitrião é um tipo inteligente que traduz tratados filosóficos em Latim como hobby (!!!), e em cada podcast partilha um pouco de filosofia prática que pessoas normais podem aplicar no seu dia-a-dia. É um programa muito acessível; o Quintus nunca tenta ostentar a sua inteligência. Pelo contrário, adopta uma postura muito simples e conversational. Por vezes é um bocado excêntrico, por exemplo no final de alguns episódios mete-se a ler do Twitter coisas que acha piada, e a rir-se do que está a ler. Não posso dizer que aprecio o seu sentido de humor – metade das vezes, não percebo a piada – mas perdoo-lhe isso pois o resto do conteúdo é excelente.

The Tim Ferriss Show – O que há a dizer acerca daquele que é provavelmente o podcast mais ouvido do mundo? O Tim não é um entrevistador tão fantástico como o Fussman, mas compensa pela qualidade das pessoas que encontra para entrevistar. Sejam qual forem os teus interesses – negócios, marketing, filosofia, desporto, fotografia, espiritualismo, ferragem japonesa – ele teve um ou mais dos melhores do mundo a falar sobre isso. Este programa é uma arca de tesouro de conhecimentos, e a única dificuldade é encontrar os pedaços de informação aplicável no meio de conversas que podem durar até duas ou três horas. Faz-te acompanhar de um bloco de notas.

 

Fotografia: slatka60 Flickr via Compfight cc

Sexta-Feira Negra

Não sendo contra o capitalismo, quem me conhece sabe que a minha opinião é que compramos mais coisas do que devíamos. Seria de esperar que escrevesse algo a criticar a “Sexta-Feira Negra”, esse ritual consumista que os Estados Unidos exportaram para o resto do mundo.

Mas até gosto bastante da Sexta-Feira Negra!

Claro, é mais uma forma que as companhias têm de fazer uma lavagem cerebral ao consumidor, de convencer as pessoas a comprar coisas que não precisam, que não vão usar, e que muitas vezes as tentam a gastar dinheiro que não têm.

Mas há um jogo que eu gosto de jogar ao longo do ano. Sempre que vejo algo caro, algo que tenho vontade de ter, penso para mim mesmo: “Só um idiota é que compraria isto agora. Em Novembro ou Dezembro vai estar a metade do preço ou menos!”

E assim, acontece que acabo por comprar muito menos coisas ao longo do ano, porque sei por experiência que é factuamente verdade – quase tudo baixa de preço no final do ano.

Isto acontece muito no caso do meu hobby, os video jogos. A industria dos video jogos inflaciona brutalmente os seus produtos, porque têm uma espantosa máquina de marketing que se concentra em fazer as pessoas pensar que a melhor altura para desfrutar de um jogo é no mês em que ele é lançado. Cria nas pessoas o desejo de fazer parte da comunidade, da “conversa” em torno do jogo.

É claro, há muito poucos jogos sobre os quais vale a pena conversar. Mas não interessa, é essa a idea que é vendida, e com muito sucesso. É uma venda baseada no medo – no medo de perder a “onda” de entusiasmo colectiva. No medo de “não estar a par.”

Eu não tenho esse medo. Gosto de coisas velhas, gosto de descobrir filmes e livros e bandas de antes de eu ter nascido. Portanto, espero, em vez de comprar imediatamente. E o que acontece é impressionante: quando chega a Sexta-Feira Negra (ou evento promocional equivalente), não só compro as coisas que queria a metade do preço (que é o que considero o valor real e justo) como acabo por comprar menos coisas. 

Como a minha psicologia não está afectada pelo desejo de gratificação imediata, sei decidir melhor quais são as coisas de que realmente vou gostar, e quais meramente me “hipnotizaram” na altura em que as encontrei pela primeira vez.

O marketing têm muitos truques para violar a nossa psicologia. (É possível fazer marketing ético mas isso eram mais uns milhares de palavras.) O medo de perder “a onda” é o truque favorito da industria dos video jogos, mas a “Sexta-Feira Negra” é outro, mais geral. Mas agora, conhecendo os truques, já podes evitá-los… Ou ainda melhor, usá-los em teu favor!

É Importante Montar O Prato

“Porque é que andas sempre a montar os rabanetes assim no prato? A comida não está já pronta?” Perguntou Frida.

“Ouve, não demora assim tanto tempo. É um instante! Não te tinha dito para ires enchendo os cops de vinho?” Respondeu Silas. O rapaz abriu os braços e encolheu os ombros ao voltar-se para Frida, respingando vinagre no chão da cozinha.

“Só me queres embebedar!” Respondeu a ruiva. “Ao menos podias vir beber comigo.”

“Eu só te quero é fora da minha cozinha, mulher!”

“As pessoas normais COMEM na cozinha! Que raio és tu, um duque?!”

Silas fechou os olhos. Lá estava ela a fazer o mesmo. Ele não ia morder o isco, não ia responder à provocação. Desta vez, não. Inspirou fundo, e respondeu:

“Ouve, enerva-me muito ter-te à minha beira enquanto cozinho.”

“Porquê?!”

“Por causa de perguntas como essa!”

“Estás-me a expulsar da cozinha porque te perguntei porque estavas montar os rabanetes no prato?!”

“Sim!” 

“Pelos deuses, és sensível!” Disse Frida, voltando-se em direcção à sala, com as mãos levantadas acima da cabeça, viradas para o tecto.

“Espera.” Chamou Silas.

Frida parou à porta, ainda de costas para o seu companheiro entroncado, de cabelos negros e barba mal-feita.

“É que… Importa. É importante montar o prato. Quer dizer, se estiveres esfomeada, se estiveres a passar fome, claro que não, não vais ligar a estas coisas. Mas não estamos a navegar, não estamos em nenhuma expedição! Estamos só… A viver tranquilamente. Pelo menos… Por enquanto. A beleza importa. O aspecto da comida tem influência no gosto. Não… Não me perguntes porquê, ou, ou como. Mas tem influência. Tu sabes que tem, se parares para pensar. Toda a gente repara. Só que depois… Esquecem-se, sei lá.”

Frida voltou-se novamente para o seu companheiro. Os seus caracóis encarnados esvoaçaram, tão repentino foi o movimento, antes de repousar sobre os ombros do seu vestido simples, beje. “Foi assim tão difícil?!”

“Entendeste?”

“O que é que isso interessa? Não me parece que tu próprio entendas aquilo que dizes, pelo menos não completamente. Mas ao menos agora sei porque tu o fazes. Acho eu.”

“E isso basta?”

Frida voltou a encolher os ombros. “Vou servir o vinho.”