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Sacrifício Humano no Século XXI

A vida tem preço.

Aceitamos isso todos os dias, e construímos a nossa sociedade e hábitos em torno desse valor.

Sabemos, por exemplo, que se deixássemos de fabricar carros que andam a mais de 30 km/h, salvaríamos um certo numero de pessoas por ano. Caso tomássemos essa medida, as fatalidades na estrada seriam muito reduzidas, quase eliminadas. No entanto, determinamos que o valor para a sociedade de nos podermos deslocar de um lado para o outro dentro de determinada quantidade de tempo, é maior que o valor agregado das vidas perdidas.

Parece, talvez, desumano transformar vidas em cifras; fazer matemática com a vida humana. Este texto não pretende ser uma defesa de tal prática — e sim expô-la como uma prática comum, algo que nós aceitamos sem pensar.

Um exemplo um pouco mais simples: as vacinas.

Uma das coisas que nós, enquanto sociedade — e principalmente as camadas mais educadas da sociedade — temos dificuldade em admitir é que as pessoas que são anti-vacinação não são completamente malucas.

Embora a posição oficial seja de que as vacinas são 100% seguras, qualquer pessoa com uma formação científica e que não seja um charlatão, sabe que os 100% não existem em ciência.

Digamos que as vacinas são 99,9% seguras. Apliquemo-las, então, aos 2,91 milhões de crianças que nasceram no Brasil em 2017. Não ficamos com menos do que 29 100 crianças com problemas resultantes da vacinação. Algumas com problemas menores, reações adversas traumáticas, mas passageiras; outras com problemas que os marcarão para o resto da vida. E para uma pequena percentagem — a morte.

É esta a tragédia das percentagens: uma mera décima, aplicada a uma população grande o suficiente, é um pesadelo.

As vacinas são, ainda assim, de um valor imprescindível para a sociedade.

Porquê? Porque é que nós vacinamos as crianças em massa, sabendo — no caso do Brasil — que estamos a condenar quase 30 000 crianças a um destino nefasto?

Porque aqui — ao contrário do caso dos automóveis — a matemática é muito mais simples, é uma matemática de vidas contra vidas. O facto incontornável é que, se não aplicássemos as vacinas, muito mais do que 30 000 crianças sofreriam danos irreparáveis ao serem atacadas por doenças graves.

Estamos a sacrificar uma minoria (no caso de um país muito populoso como o Brasil, uma minoria grande) em prol de todos os outros.

É por isso que eu me sinto um pouco mal quando vejo pessoas nas redes sociais a fazer troça dos que se opõe às vacinas. Não é que eles não estejam errados — as vacinas são de utilidade indiscutível — mas reconheço, mesmo que eles próprios não o reconheçam, que se estão a insurgir contra algo muito difícil de engolir: o sacrifício humano.

A nossa sociedade é uma sociedade movida a sacrifício humano. Tudo o que fazemos, todas as tecnologias que produzimos, têm um custo em vidas.

Por vezes — como no caso das vacinas — a matemática parece mais ética; estamos a sacrificar algumas vidas para salvar muitas mais. Outras vezes, como no exemplo dos automóveis, a matemática é mais obtusa; não há uma correlação direta entre maior velocidade de condução e vidas salvas, apenas vidas perdidas.

Tomando uma perspectiva mais elevada, talvez vejamos que se não possuíssemos a capacidade de mobilidade que possuímos atualmente, a sociedade humana poderia ter muito piores condições de vida do que tem hoje, e talvez isso se traduzisse em maior mortalidade. Não sei; é um estudo em aberto para alguém realizar, se for possível.

A nossa intuição colectiva é de que sim, ter acesso a automóveis que nos permitem viajar a determinadas velocidades vale o preço que pagamos em mortes anuais por acidente na estrada. É um sacrifício que aceitamos.

Mas não pensamos muito nisso, porque é desconfortável pensar em sacrifício humano no século XXI.

Eis o dilema: enquanto não conseguirmos aceitar e falar sobre isso, também não podemos abrir as portas a tornar a prática mais caridosa.

Temos que aceitar que praticamos estes sacrifícios para poder começar a falar acerca de como compensar as vítimas e as famílias das vítimas sobre as quais recaem os custos das nossas decisões enquanto sociedade.

Admitir e aceitar os sacrifícios colectivos de vidas sobre os quais assenta a nossa sociedade não é frio nem desumano; pelo contrário, é o que nos vai conduzir a um futuro mais ético e humanos.

13, Número da Sorte

Os sistemas de protecção contra pirataria não protegem ninguém. A experiência do consumidor é degradada, e os piratas, ou arranjam uma forma de contornar a protecção, ou não consomem. Nunca nenhum pirata foi comprar um filme ou um jogo ou um livro ou um album porque não o conseguiu piratear. 

Já o contrário é verdade. Alguns piratas, depois de consumirem, podem tornar-se clientes. Podem evangelizar a arte. Vi isso acontecer com o meu primeiro livro. Quando o vi num site de pirataria, a minha atitude não foi a de ir dizer às pessoas que não o pirateassem. 

Deixei um comentário a explicar que vendas do livro contribuíam muito para a minha qualidade de vida. Pedi que, caso gostassem do livro, para considerarem a compra, ou pelo menos para recomendarem a alguém.

Fiz algumas vendas assim. Ganhei alguns fãs. Não foi nada mau.

Mas as leis de direitos de autor não são a mesma coisa que protecção contra pirataria. Os direitos de autor protegem uma idea, não um objecto. 

É um caso mais sensível, porque as ideas não têm barreiras. Nós não controlamos o que se apodera da nossa mente. Quando ouvimos uma musica, não sabemos que efeito vai ter em nós antes de a ouvir; até podemos ouvi-la sem nunca ter intenção de o fazer. Mas uma vez cá dentro, ela pode apoderar-se de nós, inspirar-nos.

Quem é que tem o direito de nos dizer o que fazer com uma coisa que foi lançada no mundo, e se agarrou à nossa cabeça como um molusco particularmente teimoso, talvez até à nossa revelia?

O reverso da medalha, é claro, é que os artistas merecem ter controlo sob as suas obras, não só sobre os objectos, físicos ou virtuais, através dos quais os fazem chegar ao consumidor. Nenhum artista gosta de ver a sua obra esventrada, prostituída, plagiada. 

É fácil ceder ao cinismo e assumir que a questão dos direitos de autor surge apenas por dinheiro, por ganância. E é bem provável que seja este o caso para muitos dos defensores desses direitos. Mas nunca para todos. Arte, a arte verdadeira, que perdura através das modas, é de parto difícil. O artista sacrifica algo ao criar, pedaço do seu ser divino que nunca irá recuperar.

Até que ponto é que é do nosso direito canibalizar isso? 

Quando empurramos uma criança para o mundo, não podemos esperar que todos a tratem como nós gostaríamos. Algumas pessoas vão aproveitar-se dos nossos filhos. Vão maltratá-los. E vão roubá-los de nós da melhor maneira possível – cativando-os, conquistando o seu amor e amizade. Temos que aceitar isso. É parte do contrato social de colocar um ser humano neste mundo.

Mas isso não quer dizer que toda a gente lá fora tenha o direito de fazer gato e sapato desse ser humano.

Três Coisas

Três coisas não podem ser recuperadas:

A flecha, uma vez disparada

A palavra dita com pressa

A oportunidade perdida.

— Idries Shah, “Caravan of Dreams”, citando Ali o Leão, Califa do Islão

Não faças ameaças que não estás pronto a cumprir. E pensa bem no que vais dizer, antes do o fazer; apenas os tolos pensam que quem demora a responder é lerdo.

Quanto às oportunidades, acho que nem é assim tão mau falhar algumas. Aparecem novas todos os dias.


A citação acima é uma tradução feita por mim, de uma passagem do livro “Caravan of Dreams” por Idries Shah, que traz ao ocidente alguns excertos de filosofia Arábica. Tanto quanto sei, não existe uma tradução oficial Portuguesa.

Como é habitual, não ganho nada se seguirem o link e comprarem o livro.