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Dezasseis anos de ene3

A ene3 foi um projecto fundado em 2002 pelo DJ_MiND, numa era em que a internet ainda era movida a telefone e os modems faziam barulhos diabólicos sempre que se ligavam. Juntando um punhado de amigos dos fóruns do Sapo, o DJ criou um site dedicado à divulgação dos jogos e consolas da Nintendo, em Portugal – e pouco depois, expandiu-o para abranger todas as plataformas.

A data altura da vida do site, encontrei-me como custódio do mesmo. Nem sempre fiz o melhor trabalho, e tentei, algumas vezes, com diferentes níveis de sucesso, passá-lo a pessoas com maior capacidade do que eu. Mas acaba sempre por voltar às minhas mãos.

Hoje a ene3 ( www.ene3.net ) faz 16 anos. Não foram 16 anos de actividade, porque às vezes a vida mete-se no caminho. 

Não sei ao certo o que fazer com ela, admito. A minha relação com os videojogos não é aquela que já foi; cada vez os acho menos dignos de qualquer tipo de análise para além da mais superfícial. Todas as semanas luto com essa ideia, tento aprender um pouco mais sobre videojogos, sobre o que representam, sobre o seu valor como forma de expressão artística, para criadores e para jogadores. 

Onde está a linha entre a arte que merece – que carece – de alguém que discurse sobre ela, e a mera monetização do desperdício de tempo, a alienação e zombificação de mentes suscetíveis sem qualquer contrapartida para a valorização individual?

Não sei. Sei que não se escreve quase nada de valor sobre videojogos. Não se fala quase nada de valor sobre videojogos. É lixo sobre lixo, e quem lê isto a pensar que é excepção, desengane-se. A lei das probabilidades coloca-te nos 99.9%, não nos 0.1%. Mas eu também não sei fazer melhor. Somos todos formigas a sonhar que são gigantes – e somos assim por ignorância, por arrogância, porque não conhecemos os gigantes. Porque não conhecemos suficiente filosofia, música, cinema, literatura. Porque nos foi vendido um sonho de consumismo e luxúria como arte.

E é por isso que a ene3, no seu 16º aniversário, não está a funcionar.

Porque não vale a pena fazer algo quando não se o vai fazer bem. Não vale a pena ser mais um a berrar num mundo de ruído. 

Foram 16 anos de ene3. Não sei dizer ao certo quantas das coisas boas na minha vida surgiram da ene3, mas acredito que tenha sido a maior parte. Não sei se teria o trabalho que tenho hoje sem os conhecimentos que adquiri na ene3. Não sei se seria escritor, não tivesse sido o acesso a essa plataforma, que me permitiu praticar e levou a minha escrita aos jornais, à televisão, à rádio – aos leitores.

Muito obrigado a todos os que apoiaram, como colaboradores ou leitores ou ouvintes, pontualmente ou consistentemente, a ene3 nestes últimos 16 anos. Se alguma vez a ene3 regressar ao activo, será pela inspiração, pelo respeito, e pelo sentido de responsabilidade que sinto para convosco.

Vida, Sorte, e Hearthstone

Os últimos escritos foram um pouco pesados, por isso hoje vamos tentar algo mais relaxante. Eis o que me tem entretido recentemente:  Hearthstone.

Para quem não conhece: Hearthstone é um jogo onde se constrói um baralho a partir de um conjunto de cartas ( o jogo dá acesso gratuito ao conjunto inicial, e permite expandir esse à medida que se joga e/ou se compram cartas), usando-o para combater contra outros jogadores online.

É um jogo estratégico onde se fazem crescer exércitos ( e se dizimam os mesmos com um feitiço bem lançado), mas o que me deixa agarrado é mesmo a aleatoriedade inerente a um jogo de cartas.

Gosto de jogos que dependam de um equilíbrio entre preparação e sorte. Gosto da maneira como espelham o que se passa na vida. De certa forma, vejo-os como treino essencial para a vida: uma forma de praticar evitar ressentimento  por coisas fora do meu controlo, e de fazer o melhor possível com aquilo que tenho.

Claro, é preferível ganhar do que perder. Mas há um certo tipo de satisfação madura em saber que fomos capazes de levar uma má mão de cartas tão longe quanto possível.

É certo: quem começar a jogar hoje, e se encontrar face-a-face com alguém que anda a colecionar (ou comprar) cartas à meses, de muito pouco a sorte ou a preparação lhe valerão.  Isso também é a vida. Há pessoas que saem do berço com tudo o que é preciso para vencer. Mas a maioria das pessoas precisa de levar o seu tempo, e de construir um plafond de recursos e talento até chegar a um nível em que tenha a possibilidade de executar algo de valor.

Chegar a Hearthstone como um novo jogador é, então, um exercício de humildade. Posto isto, o jogo nunca foi tão generoso como é actualmente: dá aos novos jogadores ampla oportunidade para ganhar cartas, e oferece vários modos de um jogador que são uma grande ajuda para praticar e aprender as regras do jogo.

O seu exterior alegre e efusivo foi claramente engendrado para apelar aos mais novos, e eu aprovo. Pode ser que ajude as novas gerações a desenvolver um bocado de “calo”, e sentir-se um pouco menos apaparicadas.

(Nota, por transparência: se aderirem ao jogo através do link que deixei acima, e jogarem até chegar a nível 20, eu ganho uma meia-dúzia de cartas.)

O Monge Que Vendeu A Sua Colecção de Videojogos

Costumava eu deliciar-me em ir a uma loja onde vendessem videojogos. Desde miúdo que os adoro – desde que o meu tio me sentou em frente a um ZX Spectrum e lá meteu uma cassete a fazer aqueles barulhos estridentes e riscas coloridas no ecrã, que depois por magia se transformavam num Batman baixo e gordo que tinha que escapar de um labirinto, ou numa nave espacial a disparar contra exércitos de fénix.

Mas gostava não só de os jogar mas de lhes tocar, de procurar por eles entre as prateleiras. Era quase como a experiência religiosa de ir a uma biblioteca – estar rodeado por possibilidades infinitas, pelas palavras e histórias de pessoas desfasados no tempo e no espaço. Cada jogo, como cada livro, era um universo de possibilidades.

Era um gosto especial passar os dedos por entre as caixas, à procura de alguma pérola desconhecida que pudesse estar perdida por entre os caixotes de promoção da FNAC, ou de um jogo antigo que tivesse escapado aos colecionadores que pareciam viver dentro das Cash Converters de Lisboa. 

Mas não era só uma questão de descoberta. Era giro mexer nas coisas, bolas! As caixas tinham uma personalidade, sim, mas o conteúdo também tinha. Dava a sensação de que vivia qualquer coisa lá dentro, que dentro daquele cartucho ou CD ou DVD vivia uma obra tangível, traduzida por 0s e 1s, correcto, mas de certa forma tão presente como as palavras dentro de um livro.

Fui há uns dias à FNAC e lancei-me durante alguns minutos na exploração das prateleiras de videojogos. Mas já não é a mesma coisa. Já é tudo conhecido, já nada chama a atenção. O conteúdo sente-se estéril. Em meros segundos, senti um enjoo profundo por estar a passar os dedos pelas caixas de videojogos. 

Este não interessa. Aquele é uma reedição. Tenho este em casa para jogar à anos. Quando decidir jogar este, posso comprá-lo online; escuso de gastar o dinheiro agora e arriscar-me a deixá-lo numa prateleira a ganhar pó.

O meu amigo Daniel gosta de dizer – e com razão, porque é um gajo inteligente e ao contrário da maioria das pessoas, lê os contratos de licença de utilização até ao fim, mesmo a letra miúda – que os jogos que compramos em formato digital, que pagamos e fazemos download, não nos pertencem a sério, nos podem ser retirados a qualquer momento. Ele tem toda a razão, mas é uma verdade técnica. Na prática, podemos até ser mais donos de um jogo que compramos na FNAC ou na Amazon, mas somos donos do quê? De um pedaço de plástico. 

Colecção de Videojogos
O Sonho.

Um livro é uma coisa diferente. Não preciso de tecnologia mais complexa do que um par de óculos para poder desfrutar dele. Nem se trata de uma questão de ser “dono” ou não. O que é ser dono de um livro? Sou dono das palavras que lá estão escritas? Sou dono das palavras de Jane Austen, Dostoevsky, Nietzche? Que conceito ridículo! Tenho acesso aos pensamentos, ao imaginários dessas pessoas, sou dono desse (limitado) acesso. No entanto, as palavras estão lá, posso folhear o livro, posso sentir o cheiro, posso criar marginalia. 

O que é um videojogo, em formato físico? É o mesmo que um download, que foi gravado num disco numa fábrica algures na china, guarnecido numa caixa de plástico com uma folha colorida impressa, e me é vendido sobre o pretexto de que sou “dono” dele. 

Sou dono de uma coisa incompleta, pois o jogo de hoje vai ser actualizado através da internet várias vezes ao longo da sua vida. Sou dono de uma coisa perenemente desactualizada, pois quando for lançada a nova consola, vão relançar o jogo – ou um jogo quase idêntico – com melhores efeitos visuais, som, e sistema de controlo. Sou dono de uma coisa que dentro de dez anos, entre encontrar a consola em que foi lançada, ligá-la a um televisor, ter a sorte de que funciona, ter a sorte de que não seja precisa uma actualização pela internet, que o jogo procura em servidores há muito desactivados… Esqueçam! Mais vale comprá-lo outra vez, descarregá-lo por 10 euros através da internet, e jogá-lo sem chatices.

Há videojogos que valem a pena jogar. São muito poucos, quase nenhuns, mas tudo bem, isso não é nenhuma desonra. Também a maior parte dos livros são maus, a maior parte dos filmes são péssimos, a maior parte da música é barulho. É difícil fazer arte, é difícil contar histórias. 

No caso dos videojogos, não vale a pena ser dono deles. É uma luta perdida. Mais vale a apreciar as obras en passant, de visita, como se aprecia uma pintura num museu, como se aprecia um filme no cinema, como se aprecia uma banda num concerto. Ser colecionador de livros é ter uma biblioteca. Ser colecionador de pinturas é ter uma galeria. Ser colecionador de videojogos é ter uma pilha de plástico.