O demónio de Laplace

“Ela é a Profeta!” Alessya levantou a voz. “Ela previu todos os nossos movimentos. Ela conhece os nossos pensamentos, ela consegue antecipar os nossos ataques. Como podemos derrotar tal inimigo?

O homem de cabelos brancos mexia no bigode com uma das mãos; com a outra, revirava uma ampulheta sobre a mesa de madeira, uma vez, e outra, e outra – nunca deixando os grãos assentar em nenhum dos lados.

“Como pode ela fazer isso, se o futuro está em fluxo constante?”  Perguntou ele.

“Ela pode, porque o futuro não está.” Interrompeu o homem-gato que estava encostado à parede, a sua forma muscular e armadurada a bloquear totalmente a porta que se tinha incumbido de proteger. “Tu assumes que está sempre a mudar, porque não sabes. Tu tomas uma decisão, e achas que poderias ter feito o contrário, sentes que isso é tão verdadeiro quanto qualquer outra coisa, mas não é  – é uma mentira perpetrada pelo universo sobre a tua mente.” Os seus bigodes tremelicaram. “Se retrocedêssemos no tempo tantas vezes quantas tu giraste essa ampulheta, tu tomarias a mesma decisão, uma vez, e outra, e outra. Se tu tivesses informação perfeita acerca de tudo o que existe – cada partícula de poeira, cada humor fluindo dentro do teu corpo – também tu serias capaz de o prever.”

“Então, Jagger,  tu queres dizer que a Profeta nos conhece melhor do que nós mesmos?” Perguntou Alessya, sacudindo a sua juba loira. “Isso é… Deprimente.”

“De certa forma, sim, conhece. E não é deprimente ”, acrescentou o homem-gato, examinando as garras estendidas na sua mão direita “simplesmente é.”

“Hum…” O homem de cabelos brancos deixou os grãos caírem até ao fundo. “Mas e se, quando atacarmos… Nós não formos nós mesmos? E se, de fato, formos alguém que nunca existiu neste mundo..?”

Jagger e Alessya trocaram olhares. Estavam juntos há tempo suficiente para ler os olhos um do outro. Viemos ter com um doido.

“Sou perfeitamente são, obrigado pelo voto de confiança.” Disse o homem. “Vocês não vieram até mim para ter respostas convencionais, não é? Não se contratam magos para isso. Querem ver a vossa Profeta cair?”

Ele virou a ampulheta novamente, atirando-a na direcção de Jagger com o mesmo movimento. O homem-gato agarrou-a com a habitual destreza.

Os grãos estavam a subir.

O mago sorriu. “Mesma ampulheta, grãos diferentes.”