A Geração de Procusto

Procusto era um dos vilões na história de Teseu. Era ele um bandido que estendia falsa hospitalidade a todos os viajantes que pelo seu território passavam.

Assim fazia: dava-lhes guarida em sua casa, onde tinha uma cama de ferro na qual os convidava a se deitarem. Mas então revelava a sua exigência: o hóspede tinha que caber perfeitamente na cama. Se os hóspedes fossem demasiados altos, ele amputava o excesso de comprimento; já os mais baixos eram esticados até atingirem o comprimento suficiente…

E nós hoje, quantas coisas na nossa vida não cortamos ou esticamos para corresponder às camas que são as nossas expectativas?

As nossas presenças nas redes sociais. As nossas histórias perante família e amigos. Os CVs que entregamos aos empregadores.

Queremos cortar as falhas dos nossos filhos, irmãos e irmãs, parceiros e parceiras; queremos esticar as suas qualidades.

O carro tem que ser melhor. A casa tem que ser maior. O telemóvel precisa de um ecrã mais brilhante. O ordenado maior; o tempo de trabalho, cortar.

Porque é que a medida das coisas nunca nos satisfaz?

Porque Procusto somos todos nós.

(E eis a revelação final: Procusto tinha duas camas, de tamanhos diferentes, que escolhia consoante o hóspede.)

Pintura: “Ariadne Abandonada por Teseu on Naxos” por Angelica Kauffmann