O Mundo Quebra-Nos A Todos

“O mundo quebra-nos a todos, e depois, muitos ficam mais fortes nos sítios quebrados. Mas aqueles que não quebra, mata.”, escreveu Hemingway. 

(Tradução minha, não oficial. Gosto do verbo “quebrar” mais do que “partir,” ou outras palavras mais apropriadas para o Português, mas menos tácteis.)

Vi muitas pessoas “quebradas” nos últimos anos. E sim, a maioria fica mais forte nos sítios quebrados. Não digo que o fortalecimento compensa o que se perdeu, isso é demasiado optimista e ingénuo. O saldo nem sempre é positivo. Mas não é completamente negativo.

Mais interessante para mim é a diferença entre as que se fortalecem, e as que não se fortalecem.

As que se fortalecem atribuem-no a uma decisão. A determinado ponto, decidiram que iam continuar com a sua vida, independentemente das coisas horríveis que lhes tivessem acontecido. 

Não decidiram que não ia doer, ou que ia deixar de fazer falta. Isso está fora do nosso alcance. Decidiram que iam avançar, na mesma, com a dor e a mágoa e a dificuldade que tivessem que levar com eles.

Os que não se fortalecem não o atribuem a uma decisão. Atribuem-no a uma característica. Dizem que gostariam, mas que não têm a força, a inteligência, ou os genes para o fazer.

Não sou uma pessoa optimista, por natureza. A minha educação é científica, e a ciência é determinista. Há, realmente, um nível base de talento, de inteligência, de capacidade com que cada um nasce. 

(Ninguém gosta de ouvir isto, muito menos os cientistas que o provaram e continuam a provar vezes sem conta, mas ainda assim, é isso que descobrimos.)

Mas a verdade é que a base é a base, e há sempre espaço de manobra. Uns podem ter mais espaço de manobra do que outros, mas no final de contas, os que vi ficarem mais fortes foram os que tomaram a decisão de seguir em frente com o que tinham – por quebrados que estivessem.

O mundo vai quebrar-te. Quebra-nos a todos. Vais ser o tipo de pessoa que toma uma decisão, ou que se desculpa com uma característica?

O Belo e o Monstruoso

Estou cansado de ter que justificar o trabalho. Não é arte a sério se é preciso fazer com que seja acerca de algo. Se é preciso fazê-lo sobre direitos humanos, ou direitos dos gatos, ou demonstrar uma preposição política.

“Toda a arte é política!” Gritam eles. Tretas. Claro, a arte pode ser política. Qualquer um que diga o contrário não ouviu os êxitos dos anos 60, não contemplou Guernica.

Mas estas obras não são meramente políticas. São belas. Não foi a mensagem política que as definiu como arte. Foi a componente estética. Foi o facto delas cantarem uma canção à alma de quem as contemplava. Estas obras permitem até a pessoas que desdenham da existência de Deus,  vislumbrar uma réstia do Divino.

Estou cansado de ver propaganda passar por arte. Um miúdo caga numa tela, diz que é a mensagem dele, que é arte. Não é. É merda numa tela. Que raio percebes tu de política, seja como fôr? De quantas almas tiveste o destino nas mãos, quantas decisões difíceis tiveste tu que fazer, decisões que tivessem influência sobre a vida de outros?

Deixa de ser arrogante. Tenta fazer qualquer coisa bela, antes de mais nada. Tenta tocar a alma de uma única pessoa. Tenta arranjar os pés de Mercury a cantar sobre Barcelona, segurar um pouco da luz de C. S. Lewis, de quando ele rabiscava fábulas sobre crianças-cavaleiro e realeza Leonina.

Auto-Estima Ou Auto-Ilusão?

Tenho uma amiga – chamemos-lhe Neuza – que se queixa de não conseguir encontrar um parceiro à altura. A Neuza tem muitas coisas a seu favor – beleza, inteligência, educação, saúde. Mas tem um grande inimigo, um conceito distorcido de auto-estima que lhe foi vendido pela industria do desenvolvimento pessoal, e por psicólogos de algibeira. 

O problema da Neuza é acreditar que “tem que se aceitar da maneira como é.” A Neuza exibe a sua solteirice com orgulho nas redes sociais, partilha posts e imagens que mostram como está bem e como é fantástica a sua vida de solteira.

Não teço nenhum julgamento valor contra quem prefere a vida de solteiro. Há benefícios legítimos e cabe a cada um decidir o que é bom para si. Mas quem está feliz solteiro, por definição não precisa de encontrar par.

É esse o grande problema da Neuza. Não querendo assumir a sua insatisfação – pois foi-lhe ensinado que é crucial estarmos felizes com a nossa situação actual – age de uma forma que cristaliza no seu subconsciente uma história, e essa história é contrária ao sítio onde quer chegar.

Este conceito de auto-estima é irresponsável e insustentável, porque funciona como travão. Se estamos satisfeitos com o que somos, com o que temos, então não há impulso para mudar. O desejo de mudança implica uma insatisfação com o estado actual.

O que devemos, isso sim, ser, é gentis connosco mesmos. Reconhecer que, não estando no sitio onde queremos estar, temos todavia a capacidade de chegar lá. Que o sitio onde estamos não é reflexo do nosso valor nem do nosso potencial, mas apenas do percurso que já caminhámos.

Internalizar este conceito não vos parece muito mais saudável do que ter uma guerra interna, perpétua, entre aquilo que desejamos e aquilo com que nos identificamos?

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.