O Som do Silêncio

Custa-me trabalhar com audio, porque é preciso silêncio. Quando estou à procura de diferenças de volume entre faixas, ou de artefactos para cortar, não me posso dar ao luxo de estar a ouvir música, ou o som da chuva.

Antes do trabalho como Podcaster me forçar a silenciar os barulhos de fundo, não me tinha apercebido de como eles me eram essenciais. Sempre me julguei um amante do silêncio – é completamente impossível trabalhar com pessoas a falar, mesmo que não estejam a falar comigo. 

Não é que o silêncio me perturbe. Mas também não inspira. Já sons ambientes (chuva, pássaros) ou musica (especialmente instrumental) ajudam a lubrificar a mente. Acho que comecei a colocar auscultadores ou música alta como uma forma de “fechar a porta”, de não ter que ouvir os outros. Mas a certo ponto, o som tornou-se parte do processo.

Todos mudamos. Mas raramente mudamos de acordo com um plano. Mudamos, isso sim, como consequência das nossas acções – e muitas vezes, sem nos apercebermos da mudança.

Fotografia: Visavis.. Flickr via Compfight cc

Dezasseis anos de ene3

A ene3 foi um projecto fundado em 2002 pelo DJ_MiND, numa era em que a internet ainda era movida a telefone e os modems faziam barulhos diabólicos sempre que se ligavam. Juntando um punhado de amigos dos fóruns do Sapo, o DJ criou um site dedicado à divulgação dos jogos e consolas da Nintendo, em Portugal – e pouco depois, expandiu-o para abranger todas as plataformas.

A data altura da vida do site, encontrei-me como custódio do mesmo. Nem sempre fiz o melhor trabalho, e tentei, algumas vezes, com diferentes níveis de sucesso, passá-lo a pessoas com maior capacidade do que eu. Mas acaba sempre por voltar às minhas mãos.

Hoje a ene3 ( www.ene3.net ) faz 16 anos. Não foram 16 anos de actividade, porque às vezes a vida mete-se no caminho. 

Não sei ao certo o que fazer com ela, admito. A minha relação com os videojogos não é aquela que já foi; cada vez os acho menos dignos de qualquer tipo de análise para além da mais superfícial. Todas as semanas luto com essa ideia, tento aprender um pouco mais sobre videojogos, sobre o que representam, sobre o seu valor como forma de expressão artística, para criadores e para jogadores. 

Onde está a linha entre a arte que merece – que carece – de alguém que discurse sobre ela, e a mera monetização do desperdício de tempo, a alienação e zombificação de mentes suscetíveis sem qualquer contrapartida para a valorização individual?

Não sei. Sei que não se escreve quase nada de valor sobre videojogos. Não se fala quase nada de valor sobre videojogos. É lixo sobre lixo, e quem lê isto a pensar que é excepção, desengane-se. A lei das probabilidades coloca-te nos 99.9%, não nos 0.1%. Mas eu também não sei fazer melhor. Somos todos formigas a sonhar que são gigantes – e somos assim por ignorância, por arrogância, porque não conhecemos os gigantes. Porque não conhecemos suficiente filosofia, música, cinema, literatura. Porque nos foi vendido um sonho de consumismo e luxúria como arte.

E é por isso que a ene3, no seu 16º aniversário, não está a funcionar.

Porque não vale a pena fazer algo quando não se o vai fazer bem. Não vale a pena ser mais um a berrar num mundo de ruído. 

Foram 16 anos de ene3. Não sei dizer ao certo quantas das coisas boas na minha vida surgiram da ene3, mas acredito que tenha sido a maior parte. Não sei se teria o trabalho que tenho hoje sem os conhecimentos que adquiri na ene3. Não sei se seria escritor, não tivesse sido o acesso a essa plataforma, que me permitiu praticar e levou a minha escrita aos jornais, à televisão, à rádio – aos leitores.

Muito obrigado a todos os que apoiaram, como colaboradores ou leitores ou ouvintes, pontualmente ou consistentemente, a ene3 nestes últimos 16 anos. Se alguma vez a ene3 regressar ao activo, será pela inspiração, pelo respeito, e pelo sentido de responsabilidade que sinto para convosco.

Espaço

É difícil ir para o espaço. O maior problema é a quantidade enorme de energia (leia-se: combustível) que é necessária para contrariar a força da gravidade. Quanto mais combustível é preciso, maior o peso, e portanto, ainda mais difícil é contrariar a gravidade. É um ciclo vicioso.

A resposta é, claro, desenvolver combustíveis mais eficientes – com maior produção de energia por unidade de massa.

Porque é que é importante ir para o espaço? Afinal de contas, não nos faltam problemas para resolver neste planeta.

Algumas razões:

  1. O nosso planeta tem recursos limitados. A situação não é tão negra como os média e os activistas de algibeira nos querem fazer parecer. Até nem estamos nada mal, por enquanto. Mas a tendência é piorar, não melhorar – e se esperarmos até ter falta de recursos, ir para o espaço vai-se tornar cada vez mais difícil.
  2. Face à conclusão de que o que precisamos para ir para o espaço são fontes de energia mais eficientes, desenvolvê-las resolveria muitos outros problemas. Energia mais eficiente é mais barata e pode beneficiar mais pessoas, com menos custos para o planeta. Melhora condições económicas e ambientais.
  3. A espécie humana está cada vez mais conflituosa. Não acredito que isto se deva só a problemas económicos e políticos. A nossa história é de exploração e conquista. Agora que já exploramos e conquistamos (quase) tudo, o nosso excesso de energia leva-nos a criar conflitos internos. A exploração espacial pode vir a servir como uma válvula de escape para toda esta energia latente da humanidade.

Há muita gente a trabalhar para nos levar ao espaço. Mas não tanta quanto deveria haver.

Fotografia: miikajom Flickr via Compfight cc

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