Sobre Escrever

Escrever não é só para escritores. Não é só para entregar trabalhos na escola. Escrever é uma ferramenta para “ajudar” a pensar. Uso aspas porque na realidade, é mais fácil pensar no papel do que na cabeça. O pensamento é demasiado volátil se não for capturado de forma sólida.

Não controlamos os nossos pensamentos. Eles surgem de uma combinação estranha: uma mistura de experiências passadas e conhecimento internalizado a interagir com o ambiente. Não consegues “planear em pensar.” Quando pensas em pensar em algo, já o pensaste. Sim, é confuso. O nosso cérebro é uma barafunda. E tudo isto mesmo sem tocar no facto da frequência com que uma idea é completamente “chutada” para fora – e para sempre – no instante em que aterra outra, quase do nada.

Escrever é o acto de colocar pensamentos no papel (ou ecrã, mas sou adepto do papel). Uma vez lá contidos, os pensamentos já não podem fugir ou ser removidos com facilidade. E ainda melhor, dá para começar a mexer neles, mudar-lhes a forma e refiná-los.

Dá para resolver uma quantidade surpreendente de problemas através do simples acto de os escrever, de escrever sobre eles, de os trabalhar no papel. No papel, eles não têm como fugir (e tu também não).

Experimenta.

Fotografia: rawpixel.com Flickr via Compfight cc

Realidade Virtual

Não me chegam as lágrimas aos olhos com facilidade. Acontece por vezes, ao chegar ao final de um filme especialmente emocionante, ou ao epílogo de um livro particularmente tocante. Mas é raro. Já os jogos em realidade virtual, esses emocionaram-me com regularidade ao longo dos últimos dois anos.

E tenho problemas como utilizador de Realidade Virtual. O estigmatismo do meu olho direito não se dá bem com os capacetes de RV, e mais de metade do campo de visão da minha vista direita fica baço. Sempre que ponho o capacete, tenho que jogar com essa impressão durante alguns minutos, até ao meu cérebro começar a corrigir automaticamente, filtrando a visão quase exclusivamente para o olho esquerdo. Essencialmente, sou zarolho a jogar em RV.

Mas não é isso que me faz lacrimejar! Nesse aspecto, tenho sorte . Consigo estar em Realidade Virtual uma ou duas horas sem cansar os olhos, e nunca enjoo. Excepto em jogos de condução (também enjoo em carros na vida real, por isso faz sentido).

O que me emociona é a beleza do meio. Que fantástico, que belo que é, poder colocar um capacete e ser transportado para um sítio diferente. Não da forma habitual, através da imaginação aliada a um bom sistema de som e a um ecrã gigante. De uma forma que me deixa olhar em volta, e ver que sim, estou mesmo num sitio diferente – não ha uma réstia de realidade presente. Um sítio diferente, com regras diferentes. É como sonhar acordado.

É belo. É mágico. Toda a gente devia experimentar, pelo menos uma vez.

Fotografia: Philicious Photos Flickr via Compfight cc

A Língua é um Membro Fantasma

Custou-me a decidir se havia de escrever em Português ou Inglês.

O inglês é a obvia lingua franca da internet, e é na internet que publico a maior parte do meu trabalho. Há maior competição por atenção, mas a audiência é muito maior.

Acabei por decidir que iria escrever em ambas as línguas. Sempre que possível, iria escrever a mesma coisa em ambas as línguas. Decidi assim porque escrever é o mesmo que pensar, e escrever as mesmas ideias em línguas diferentes força-me a pensar melhor, dá-me uma perspectiva diferente do mesmo objecto intelectual.

O video jogo “The Phantom Pain” foi o último jogo Metal Gear por Hideo Kojima, e embora não ache que tenha sido o melhor, foi o que mais impacto teve em mim. Foi este jogo que me expôs pela primeira vez à idea de que a língua modela a cultura e o pensamento à sua imagem. A língua Inglesa é mais do que um modo de expressão, é um veiculo de assimilação.

Reforcei ainda mais esta ideia ao ler traduções de autores da Europa do Leste, como Bulgakov e Dostoyevsky. As palavras estão em Português mas a maneira de expor o pensamento é quase alienígena, e digo isto no melhor sentido da palavra. Ponderar estas obras forçou-me a reorganizar a minha forma de pensar, a estrutura do meu pensamento.

Tenho muito respeito pela cultura Anglo-Saxônica, e portanto não me incomoda um bocadinho de assimilação. Mas o jogo de Kojima deixou-me a pensar que devia encarar a minha língua materna com a mesma seriedade com que encarava o Inglês. Não é tão prática ou lucrativa. Mas decidi concentrar-me nela como uma forma de preservar a minha cultura, e, mais importante ainda, afinar a minha forma de pensar.

Porque se toda a gente pensar na mesma língua, é muito menos provável que se produzam ideias interessantes.

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.