Começa Com Generosidade

Ontem escrevi acerca de como o caminho ético a ser tomado no caso dos serviços digitais é o de demonstrar utilidade com um modo experimental generoso. A partir daí, se realmente cumprirem a promessa, terão clientes a longo prazo.

No caso das pessoas, da prestação de serviços, é mais complicado. Mas mesmo neste caso, acho que é possível construir confiança antes de pedir dinheiro.

Eu costumava oferecer serviços de coaching (e parei de fazê-lo porque não queria me comprometer com mais pessoas que poderia servir com qualidade) e minha postura era:

“Se leres e aplicares o material que disponibilizo de graça na página, vais ter 90% dos resultados que procuras. Se depois disso ainda sentires que posso contribuir para ires mais longe, é com prazer que aceito o teu dinheiro!”

O efeito disso foi o seguinte: quando meus clientes estavam prontos para me pagar, eles já tinham tido resultados e sabiam que eu não era só garganta, que o meu método funcionava.

Por outro lado, para algumas pessoas o meu material gratuito não ajudou. Então, porque quereriam eles ser meus clientes? A chave aqui é a seguinte: os potenciais clientes tiveram a possibilidade de descobrir se eu era uma boa aposta para eles antes que o dinheiro mudasse de mãos.

É claro que nem todos os modelos de negócio se adaptam a uma abordagem semelhante – mas mais do que aqueles que supões.

Pintura: “O Hermita, ou o Distribuidor de Rosários” por Jean-Baptiste Greuze

Dinheiro à Vista

Incomoda-me como os programas que prometem uma melhoria de estilo de vida pedem logo um compromisso de pagamento.

Falo de “programas” num sentido em que há um plano, e no sentido de serem “aplicações.” É obvio que se queremos um personal trainer, essa pessoa tem que ser logo paga. Mas no caso de material educativo, ou de software que se propõe a nos ajudar a fazer uma mudança – desenvolvimento pessoal, hábitos meditação, dieta, exercício, etc – o pedido de dinheiro à cabeça cheira-me sempre a esturro.

São projectos de meses, afinal. Não se atinge um peso desejado, ou se encontra a cara-metade, ou se aprende uma nova valência de uma semana para a outra, nem sequer num mês.

O que se pode fazer num mês é progresso – progresso mensurável. Quando um destes programas me pede dinheiro logo ao início, a minha suposição é que não são bons suficiente para mostrar resultados num mês.

Quem é que, passado um mês e vendo progresso sério, motivante, não se comprometeria por mais três, seis, doze?

E se, passado um mês, um cliente não está satisfeito? Que negócio honesto quereria ter essa pessoa como cliente durante mais tempo?

Pintura: “O Pagamento das Dívidas” por Georges de la Tour

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.