O Acto de Matar

Como nos sentiríamos se na Alemanha, o partido no poder fosse ainda o partido Nazi? Se as pessoas que cometeram as atrocidades na guerra não só tivessem iludido a justiça internacional, mas também se vangloriassem dessas atrocidades como se tivessem sido actos de heroísmo?

Há um lugar assim, hoje. Na Indonésia, o regime que torturou e massacrou milhões de inocentes que se lhe oponham, ainda está no poder. E os assassinos celebram as suas acções perante os filhos daqueles que mataram.

No filme “The Act of Killing” (2012), o realizador “enganou” os criminosos de forma a que estes simulassem os seus actos passados, na idea de que o documentário serviria para os glorificar. Assim, vemos como estas pessoas interrogavam os seus inimigos, como desmembravam as crianças em frente às suas mães.

Ocasionalmente, um pouco de excesso criativo faz com o filme ganhe uma qualidade alucinatória, quase como se fosse um sonho. Mas nem isso é capaz de nos poupar do verdadeiro terror do filme: estas são pessoas como nós.

A Máscara da Lua Eterna – 1 – A Senhora e o Mercenário

Sahal pousou a pena amarelada no tinteiro que estava à sua frente, e levantou o seu olhar do contracto que estava a rever. Os seus olhos negros dirigiram-se à fonte do barulho que lhe tinha chamado a atenção, a abertura das portas de madeira que conduziam aos seus aposentos.

A mulher tinha a pele branca, pálida como a lua, e o seu vestido negro como a noite escorria em cascata até ao chão. No centro deste contraste, o lenço vermelho-vivo que trazia enrolado ao pescoço brilhava como o maior farol do maior porto de Eléssia.

Os guardas estavam mortos, claro, pensou o comandante do maior exército mercenário a leste do Reino Sagrado. Nunca teria alguém chegado até ele sem ser anunciada, não fosse esse o caso.

Sem dizer palavra, a mulher deu um passo em frente, flanqueada pelo corredor de prateleiras onde estavam depositados troféus e espólios de dezenas de campanhas – armas de príncipes e reis, obras de arte vindas dos mais belos palácios, livros raros provenientes das mais ricas bibliotecas reais. O caminho até Sahal era longo, mas ela não parecia ter pressa.

Sahal deixou-se repousar, encostando-se às costas do seu cadeirão. A maioria dos homens teria começado a termer ao ver que, sempre que o passo lento da mulher a fazia passar por um dos castiçais presos às prateleiras, as velas apagavam-se. Quanto mais ela se aproximava, mais escura ficava a sala. Mas Sahal não era como a maioria dos homens, e em vez disso, esboçou um sorriso branco na sua cara bronzeada pelos raios de dezenas de sóis. Ele sabia com quem estava a lidar.

Memphalarissala. Uma criatura de lenda, talvez a última vampira superior em todo o mundo. Vampiros eram bestas mitológicas, claro, quase esquecidos no folclore de Eléssia. Todos tinham sido exterminados ou para sempre selados, há muitas gerações. Mas quando os exércitos da Filha do Gelo surgiram das planícies geladas para conquistar as cidades-estado do norte, alguma alma incauta quebrara o selo que aprisionava Memphala no sono eterno. E agora, talvez pela primeira vez em milénios, uma vampira superior caminhava por entre os mortais.

Quase ninguém no mundo o sabia, claro. Para o comum mortal, o sobrenatural só existia em histórias. Mas para Sahal, saber aquilo que mais ninguém sabia era elemento fundamental para a sua sobrevivência. E assim, ele sorria perante o avanço da lenda, mas a sua mão direita repousava sobre o punhal de uma adaga de prata.

A vampira parou em frente à secretária onde se sentava o comandante dos Corvos das Areias. A chama da vela que nela repousava tremeu, ameaçou apagar, mas não apagou. Era agora a única luz na sala, e iluminava a irresistível silhueta da mulher de negro.

Sem dizer palavra, movendo o braço com a mesma rapidez com que ataca uma víbora, Memphala atirou um saco de pano para cima dos papeis que estavam em frente a Sahal. Ao repousar na secretária, o saco abriu-se, e dele surgiu uma maré de dobrões de ouro, que escorreram para o colo de Sahal e para o chão.

Sahal olhou para a vampira, erguendo uma sobrancelha. E o seu sorriso dobrou de tamanho.

Falhar em Público

Muita gente não quer mostrar o seu trabalho. Dizem que não é bom suficiente para ser visto por outros. Isto é falsa humildade – o que eles têm não é respeito pelo tempo do consumidor. É medo.

Medo de ser criticados (e com razão). Medo de expôr as suas imperfeições. Medo de ser tomados pelos aprendizes que são, e não pelos mestres que almejam ser.

A questão é que falhar em público dá-nos boa formação. Porque o trabalho nunca vai ser perfeito. Porque mesmo o trabalho com que estamos satisfeitos vai ter críticos. Porque o mundo vai-se encarregar de nos mostrar falhas que não imaginámos.

E porque quando vemos que o mundo não acabou e a nossa reputação não foi destruída por mostrarmos uma obra imperfeita, talvez consigamos relaxar um pouco mais e ter um pouco menos medo quando for altura de mostrar ao mundo “a tal.”

Já agora, não o vais fazer. Trazer “a tal” ao mundo.

Um corpo de trabalho não é “a tal”. É o acumular de anos de falhas públicas; cada uma ligeiramente menos defeituosa que a anterior.

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.