Vida, Sorte, e Hearthstone

Os últimos escritos foram um pouco pesados, por isso hoje vamos tentar algo mais relaxante. Eis o que me tem entretido recentemente:  Hearthstone.

Para quem não conhece: Hearthstone é um jogo onde se constrói um baralho a partir de um conjunto de cartas ( o jogo dá acesso gratuito ao conjunto inicial, e permite expandir esse à medida que se joga e/ou se compram cartas), usando-o para combater contra outros jogadores online.

É um jogo estratégico onde se fazem crescer exércitos ( e se dizimam os mesmos com um feitiço bem lançado), mas o que me deixa agarrado é mesmo a aleatoriedade inerente a um jogo de cartas.

Gosto de jogos que dependam de um equilíbrio entre preparação e sorte. Gosto da maneira como espelham o que se passa na vida. De certa forma, vejo-os como treino essencial para a vida: uma forma de praticar evitar ressentimento  por coisas fora do meu controlo, e de fazer o melhor possível com aquilo que tenho.

Claro, é preferível ganhar do que perder. Mas há um certo tipo de satisfação madura em saber que fomos capazes de levar uma má mão de cartas tão longe quanto possível.

É certo: quem começar a jogar hoje, e se encontrar face-a-face com alguém que anda a colecionar (ou comprar) cartas à meses, de muito pouco a sorte ou a preparação lhe valerão.  Isso também é a vida. Há pessoas que saem do berço com tudo o que é preciso para vencer. Mas a maioria das pessoas precisa de levar o seu tempo, e de construir um plafond de recursos e talento até chegar a um nível em que tenha a possibilidade de executar algo de valor.

Chegar a Hearthstone como um novo jogador é, então, um exercício de humildade. Posto isto, o jogo nunca foi tão generoso como é actualmente: dá aos novos jogadores ampla oportunidade para ganhar cartas, e oferece vários modos de um jogador que são uma grande ajuda para praticar e aprender as regras do jogo.

O seu exterior alegre e efusivo foi claramente engendrado para apelar aos mais novos, e eu aprovo. Pode ser que ajude as novas gerações a desenvolver um bocado de “calo”, e sentir-se um pouco menos apaparicadas.

(Nota, por transparência: se aderirem ao jogo através do link que deixei acima, e jogarem até chegar a nível 20, eu ganho uma meia-dúzia de cartas.)

O Mundo Quebra-Nos A Todos

“O mundo quebra-nos a todos, e depois, muitos ficam mais fortes nos sítios quebrados. Mas aqueles que não quebra, mata.”, escreveu Hemingway. 

(Tradução minha, não oficial. Gosto do verbo “quebrar” mais do que “partir,” ou outras palavras mais apropriadas para o Português, mas menos tácteis.)

Vi muitas pessoas “quebradas” nos últimos anos. E sim, a maioria fica mais forte nos sítios quebrados. Não digo que o fortalecimento compensa o que se perdeu, isso é demasiado optimista e ingénuo. O saldo nem sempre é positivo. Mas não é completamente negativo.

Mais interessante para mim é a diferença entre as que se fortalecem, e as que não se fortalecem.

As que se fortalecem atribuem-no a uma decisão. A determinado ponto, decidiram que iam continuar com a sua vida, independentemente das coisas horríveis que lhes tivessem acontecido. 

Não decidiram que não ia doer, ou que ia deixar de fazer falta. Isso está fora do nosso alcance. Decidiram que iam avançar, na mesma, com a dor e a mágoa e a dificuldade que tivessem que levar com eles.

Os que não se fortalecem não o atribuem a uma decisão. Atribuem-no a uma característica. Dizem que gostariam, mas que não têm a força, a inteligência, ou os genes para o fazer.

Não sou uma pessoa optimista, por natureza. A minha educação é científica, e a ciência é determinista. Há, realmente, um nível base de talento, de inteligência, de capacidade com que cada um nasce. 

(Ninguém gosta de ouvir isto, muito menos os cientistas que o provaram e continuam a provar vezes sem conta, mas ainda assim, é isso que descobrimos.)

Mas a verdade é que a base é a base, e há sempre espaço de manobra. Uns podem ter mais espaço de manobra do que outros, mas no final de contas, os que vi ficarem mais fortes foram os que tomaram a decisão de seguir em frente com o que tinham – por quebrados que estivessem.

O mundo vai quebrar-te. Quebra-nos a todos. Vais ser o tipo de pessoa que toma uma decisão, ou que se desculpa com uma característica?

O Belo e o Monstruoso

Estou cansado de ter que justificar o trabalho. Não é arte a sério se é preciso fazer com que seja acerca de algo. Se é preciso fazê-lo sobre direitos humanos, ou direitos dos gatos, ou demonstrar uma preposição política.

“Toda a arte é política!” Gritam eles. Tretas. Claro, a arte pode ser política. Qualquer um que diga o contrário não ouviu os êxitos dos anos 60, não contemplou Guernica.

Mas estas obras não são meramente políticas. São belas. Não foi a mensagem política que as definiu como arte. Foi a componente estética. Foi o facto delas cantarem uma canção à alma de quem as contemplava. Estas obras permitem até a pessoas que desdenham da existência de Deus,  vislumbrar uma réstia do Divino.

Estou cansado de ver propaganda passar por arte. Um miúdo caga numa tela, diz que é a mensagem dele, que é arte. Não é. É merda numa tela. Que raio percebes tu de política, seja como fôr? De quantas almas tiveste o destino nas mãos, quantas decisões difíceis tiveste tu que fazer, decisões que tivessem influência sobre a vida de outros?

Deixa de ser arrogante. Tenta fazer qualquer coisa bela, antes de mais nada. Tenta tocar a alma de uma única pessoa. Tenta arranjar os pés de Mercury a cantar sobre Barcelona, segurar um pouco da luz de C. S. Lewis, de quando ele rabiscava fábulas sobre crianças-cavaleiro e realeza Leonina.

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.