Brechas – 1 – O Despertar de Alison

São dez da manhã. Os Rolling Stones começam a tocar. Passados quarenta e cinco segundos, uma mão envia os comprimidos que estavam na mesa de cabeceira a voar para o chão, antes de finalmente encontrar o botão de silêncio do despertador, e travar a “Paint it, Black” a meio.

Alison espreguiça-se na cama, nua sob os lençóis. A pequena morena olha de lado para a sua Carole, loira oxigenada, branca como uma boneca chinesa. A sua amante dorme em paz, indiferente ao rock matinal. Alison torce o nariz. O quarto cheira a sexo. O desconforto momentâneo fá-la suspirar, e a rapariga percebe que já não está apaixonada pela sua parceira. 

A jovem sai da cama e cambaleia em direcção à casa de banho. A caminho, pára durante um momento em frente ao espelho, para apreciar o seu corpo nú. O bronze ligeiro que complementa perfeitamente os seus cabelos e olhos negros traz-lhe um sorriso ao rosto.

O sorriso esvai-se, e Alison salta para trás, como se tivesse pisado num prego. Aqueles olhos não eram os dela. Mas eram. Agora já são, é o reflexo dela. Antes não eram… não pareciam. 

Com um calafrio fininho, segue para a casa-de-banho. 

“Tenho que me livrar do cheiro dela.”, murmura ao abrir a torneira do duche. 

Fotografia: PeterThoeny Flickr via Compfight cc

Qual o valor de um momento?

O que é útil é um conceito subjectivo. É possível justificar quase tudo como útil, de alguma forma. 

Há acções que são úteis porque criam valor. Para nós, ou para outros. São que resultam numa obra tangível.

Há acções que não resultam em nada tangível. Li sobre um homem que todos os dias, saía de casa, dava um passeio, e fazia questão de fotografar uma flor. Uma flor diferente todos os dias. A idea é que essa era uma forma de se lembrar de apreciar as pequenas cosias.

Mas e se esse homem, em vez de tirar a foto, só a cheirasse? Onde é que está o valor da experiência? Está na originação de uma fotografia? Na apresentação de trabalho?

O acto de cheirar uma flor não bastará? Não terá um valor intrínseco, ainda que momentâneo?  

Quem disse que o valor só é valor quando não é perecível?

Fotografia: mclcbooks Flickr via Compfight cc

“Audiobooks”

Sempre me ensinaram que era com livros que se aprendia. A escola cimentava isso: a coisa mais importante da escola eram os livros, ou os apontamentos, ou os “acetatos” que os professores passavam.

Mas vale sempre a pena reavaliar as nossas crenças. É possível que o livro tenha surgido como o principal mecanismo de aprendizagem por motivos meramente tecnológicos. A fala é uma capacidade muito mais antiga do que a escrita; faz sentido que os nossos cérebros estejam mais aptos a captar informação através da oração do que da leitura.

Na antiguidade não havia maneira de preservar o som. A tradição oral era muito forte, mas sofria da limitação inerente à memória, e a informação que se conseguia transmitir por esse meio era corrompida ao passar de geração para geração.

Sempre fui de ler, e de escrever: de riscar, de elaborar marginalia. Não o fazer é quase uma heresia. Custa-me a acreditar que posso aprender mais (ou reter o conhecimento melhor) simplesmente ouvindo. Afinal, ler e anotar foi uma arte na aprimoração da qual investi muito tempo.

No entanto, não posso negar que alguns /podcasts/, algumas entrevistas, algumas secções de audiobook se fincaram mais na memória do que a maioria das notas que fiz das últimas décadas.

É altura de explorar isto.

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.