Culpa e Responsabilidade

“Todos os teus problemas são tua responsabilidade, independentemente de quem os tenha causado.”

David Cain

É o perigo de distorcer as palavras, é o perigo das palavras mudarem com as eras. Há muitos conceitos que só conhecemos através das palavras. Mas às vezes palavras convergem, e perdemos um significado útil.

Responsabilidade costumava ser algo de valor, algo a confiar a pessoas de valor. Ter responsabilidade era ter poder – era ser reconhecido (ou auto-reconhecer-se) como competente, como em controlo do seu destino.

Mas com o passar dos anos, tornou-se uma palavra suja. Uma coisa para atirar aos outros. “Tu és responsável por [algo mau].” 

Responsabilidade não é o mesmo que culpa. Mas nós fizemos com que fosse. Usámos a palavra de forma errada, e vimos a palavra a ser usada de forma errada, e não corrigimos o erro, e agora uma geração inteira não conhece o verdadeiro significado da responsabilidade – e portanto foge dela.

E se ousamos dizer que uma vítima – de outra pessoa, ou de uma doença, ou de um acidente – é responsável pela situação em que se encontra? Que heresia! Não sofreram essas pessoas suficiente?

Mas são responsáveis. Somos todos. Ninguém pode consertar a nossa vida, as nossas mágoas, por nós. E mesmo as doenças incuráveis ou as mágoas irreparáveis – são da responsabilidade do doente e do magoado?

São. Não são sua culpa – nunca isso! – mas é da sua responsabilidade a forma como confrontam a situação.

Somos responsáveis pelos nossos problemas. Temos que ser. As outras pessoas? Têm os delas.

Pintura: “O Dilúvio” por Miguelangelo Buonarroti

Os Diamantes no Caminho

Não me considero um anti-materialista; nem sequer um minimalista. 

O meu texto anterior não se propunha a exaltar nenhuma destas posições.

Acho que o consumismo é um problema. Mas nem sequer por si próprio. Não há grande mal em “ter” coisas. O problema é quando estamos tão habituados a adquirir coisas como forma de preencher um vazio emocional, que nem sequer damos pela presença desse vazio. 

E nos tempos que correm, temo que todos estejamos nessa situação, em maior ou menor medida.

Comprar coisas sabe bem. Já houve alturas em que me deu mais gozo o acto de comprar uma coisa do que o acto de a ter, de usufruir dela. 

Quando a satisfação está a um clique de distância, e o custo é uma mera troca de dígitos num servidor bancário – longe da metáfora visual de ver notas a sair da carteira – carregar no botão de “comprar” é a atitude mais normal do mundo. Liberta os químicos necessários ao “sentir bem.”

Mas o buraco não fica preenchido. Os químicos desaparecem, e é preciso carregar no botão outra vez. E outra. E cada vez, o químico dura menos.

Há compras que preenchem o vazio. Não o nego. Mas não são as que fazemos com frequência.

É o album musical que nos enche de inspiração, que podemos estar a ouvir só por ouvir, sem ser como fundo de uma outra experiência.

É o quadro ou estátua ou obra de arte que nos chama para contemplar a sua beleza sempre que passamos por ele, que nos aproxima da experiência transcendente do divino.

É o anel que recebemos de alguém que nos ama ou amava. Ou o livro que re-lêmos todos os anos para ser transportados para outro mundo. Ou o filme de que conhecemos todas as deixas.

As coisas boas duram.

Os objectos não são o caminho, mas podem ajudar-nos a encontrar o caminho. Mas escolhe-os bem, porque a maioria são só pedras no caminho, pedras disfarçadas de diamantes.

O teu trabalho é prestar atenção; saber distinguí-los; e reconhecer que só aparece um diamante a cada mil pedras.

Se te limitares a apanhá-las todas, a única coisa que vai acontecer é que o caminho te vai pesar.

“Não te vai fazer feliz”

Se algum dia eu aprender a programar, a primeira coisa que vou fazer é uma extenção para Safari (e talvez para Firefox) que lança uma janela com o sopracitado, sempre que o utilizador navegar até um site de compras.

É possível que seja a maior contribuição que eu venha a fazer para o mundo.

Escritor. Marketer. Dentista. Gamer.