Melhor Com Amigos

Há coisas que são enfadonhas – ou até mesmo de fraca qualidade – a solo, mas que ganham brilho acrescentando amigos. A qualidade é situacional, contextual.

Quando tinha um programa sobre videojogos, debatia-me com o meu co-anfitrião Daniel Costa em relação ao jogo Mario Kart para Switch.

Para mim, o jogo representa o pior exemplo daquilo que um jogo de corridas deve ser. As pistas estão cheias de confusão visual, não é claro o efeito das características das várias peças na performance dos carros, e – o pior pecado dentro do género – às vezes é difícil perceber se o carro está a acelerar ou não. Como jogo de corridas, é uma nódoa.

Mas mesmo assim, é o meu jogo mais jogado na Switch. E porquê? Porque é o jogo que vai para a consola sempre que há visitas. Porque quando estamos a jogar com uns amigos, não interessa tanto se o jogo é bem elaborado – interessa que seja visualmente estimulante, e que dê para nos arreliarmos uns aos outros. 

O mais recente Mario Kart é um péssimo jogo de corridas, mas um excelente jogo para festas.

O contexto é mais importante que a qualidade.

Sossego (Quase) Forçado

Cada vez me distraio com mais facilidade. É possível que tu, também. 

Somos ciborgues imperfeitos; temos toneladas de tecnologia mal-coladas ao nosso corpo, e não temos largura de banda para absorver toda a informação ao nosso dispor a cada momento.

Pior, não temos uma boa forma de absorver informação de várias fontes ao mesmo tempo.

A mim, afectava-em especialmente a manhã. Quando acordava, o mais fácil era agarrar logo no telefone e começar a ver noticias, ou mensagens, ou emails, ou posts de Facebook e de Twitter… Enfim, tudo servia como desculpa para não me levantar e fazer as coisas que se podem classificar como realmente viver a vida.

Descobri quase por acaso (Será uma coisa nova? Não sei.) uma função chamada “Downtime” no iOS. Posso configurar um período (por exemplo, das 21:00 às 9:00 ) em que o telefone bloqueia aplicações, e só deixa receber chamadas e SMS. Não é um bloqueio muito forte – basta um toque para desbloquear uma aplicação se precisar MESMO de a usar – mas é o suficiente diminuir a disciplina necessária à manutenção do auto-controle.

Mais uma vez, prova-se que é mais eficiente reduzir opções e criar obstáculos face a comportamentos indesejados, do que confiar na disciplina e força de vontade.

Pintura: “O Sono Interrompido,” por François Boucher

Passo A Passo

Às vezes não dá nem para caminhar.  Mas imaginamo-nos a correr, e depois ficamos desmotivados quando vemos que correr nos deixa exaustos passados meros segundos. 

Às vezes, tudo o que estamos aptos para fazer é rastejar.

Um pé à frente do outro. Um livro escreve-se palavra a palavra. 

Não há gesto pequeno demais. Quando se tem um objectivo, e não há progresso – vê se não estás a tentar correr antes de teres prática em andar.

Vê se não podes dividir as coisas em passos muito pequenos, tão pequenos que te parece até parvo.

Às vezes tudo o que conseguimos fazer é uma palavra. A frase tem que ficar para o outro dia. Às vezes tudo o que conseguimos fazer é encontrar um numero de telefone. A chamada tem que ficar para o dia seguinte.

Não faz mal. Um passo todos os dias, sabe-se lá onde nos leva passado um mês, um ano.

“É um assunto perigoso, Frodo, sair pela porta fora. Pões um pé na estrada e, se não tiveres cuidado, não há como saber para onde podes ser levado.”

 — Bilbo Baggins,  em “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien


Ilustracção por Soni Alcorn-Hender

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