Arquivo de etiquetas: Virtudes

Citação IV

“Se estás arrependido de me ter beijado – retira o teu beijo.”

— Provérbio, “Caravan of Dreams” por Idries Shah

Todos mudamos. Se não mudássemos, era muito mau. Era sinal de que não aprendíamos nem crescíamos. 

A mudança – de gostos, de opiniões, de paixões – não é sinal de uma mente fraca. É sinal de uma mente adaptável, de um espirito que busca a compreensão e a verdade, que não se deixa prender no dogma da pessoa que era ontem.

Mas continuamos responsáveis pelas decisões e acções do nosso eu anterior, da pessoa que fomos no passado. As acções perduram, mesmo que nós já não sejamos a pessoa que éramos quando as tomámos.

As marcas que deixamos nos outros são mais difíceis de alterar do que as pessoas que somos. As nossas acções sobrevivem à morte das nossas personalidades.

Toma-as com devido respeito.

O Paradoxo Socrático

“Só sei que nada sei.”

Não é nenhum apelo à humildade. 

Não é nenhuma representação de humildade.

É uma descrição da realidade intelectual.

É um mito, dizer que a inteligência traz respostas às perguntas.

Bem, não é um mito, mas não é uma afirmação precisa.

A inteligência traz muito mais perguntas do que respostas.

Quanto maior a inteligência, maior a quantidade de perguntas.

Pintura: “Xantippe Molha Socrates” por Reyer van Blommendael

Culpa e Responsabilidade

“Todos os teus problemas são tua responsabilidade, independentemente de quem os tenha causado.”

David Cain

É o perigo de distorcer as palavras, é o perigo das palavras mudarem com as eras. Há muitos conceitos que só conhecemos através das palavras. Mas às vezes palavras convergem, e perdemos um significado útil.

Responsabilidade costumava ser algo de valor, algo a confiar a pessoas de valor. Ter responsabilidade era ter poder – era ser reconhecido (ou auto-reconhecer-se) como competente, como em controlo do seu destino.

Mas com o passar dos anos, tornou-se uma palavra suja. Uma coisa para atirar aos outros. “Tu és responsável por [algo mau].” 

Responsabilidade não é o mesmo que culpa. Mas nós fizemos com que fosse. Usámos a palavra de forma errada, e vimos a palavra a ser usada de forma errada, e não corrigimos o erro, e agora uma geração inteira não conhece o verdadeiro significado da responsabilidade – e portanto foge dela.

E se ousamos dizer que uma vítima – de outra pessoa, ou de uma doença, ou de um acidente – é responsável pela situação em que se encontra? Que heresia! Não sofreram essas pessoas suficiente?

Mas são responsáveis. Somos todos. Ninguém pode consertar a nossa vida, as nossas mágoas, por nós. E mesmo as doenças incuráveis ou as mágoas irreparáveis – são da responsabilidade do doente e do magoado?

São. Não são sua culpa – nunca isso! – mas é da sua responsabilidade a forma como confrontam a situação.

Somos responsáveis pelos nossos problemas. Temos que ser. As outras pessoas? Têm os delas.

Pintura: “O Dilúvio” por Miguelangelo Buonarroti