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Matemática

Estive a ver um documentário sobre os serviços secretos de Israel. Fiquei impressionado como os sucessivos chefes da organização, todos a favor da paz e do diálogo até mesmo com os mais inflexíveis inimigos, se tornam imediatamente calculistas quando estão vidas em jogo.

O líder de uma célula terrorista está num prédio com a sua família. Está um míssil a postos para destruir o edifício. Mas há vizinhança. É um bairro habitado. Há o risco de pessoas inocentes perderem a vida.

“Quantas?” É a pergunta que fazem estes homens. O que estão eles a tentar determinar? Se serão essas vítimas inocentes mais ou menos do que o número de inocentes que futuros atentados terroristas poderão matar. 

É um dado adquirido que morrerão inocentes – pais e mães, filhos e filhas, irmãos e irmãs. A questão é: morrerão mais se o gatilho for apertado, ou se não for?

É matemática.

Marketing Ético

A senhora da padaria ofereceu-me um pão-de-forma.

Não foi parte de nenhuma promoção. Ela não me cobrou, porque era pão de ontem. Disse que não podia vender pão de ontem. Mas como sabia que eu gostava daquele tipo específico de pão para fazer torradas, perguntou-me se eu não o queria levar, de graça.

A partir de agora, vou àquela padaria sempre que puder. 

Não porque recebi uma “borla”. Foi uma situação pontual e não há garantias de que volte a acontecer.

Vou, porque sei que não me vão tentar aldrabar, a vender pão de ontem.

As tuas acções comunicam a qualidade do teu produto, do teu trabalho, muito mais do que as tuas palavras.

Fotografia: Animus Mirabilis Flickr via Compfight cc

Aquele Que Traz a Luz – Apontamentos da Guerra Entre a Religião e a Ciência

Há uma guerra fria entre a comunidade religiosa e a comunidade científica. É verdade que quase toda a gente religiosa usufruí dos frutos da ciência. Também é verdade que uma fatia decente da comunidade científica se revê em preceitos religiosos. E ainda assim, volta e meia há um burburinho de descontentamento, uma fricção que parece dizer:

“Não dá para estas coisas co-existirem. Um mundo de conhecimento científico não admite o misticismo da religião.”

Já a perspective religiosa, especificamente a da tradição Abraâmica, afirma que a ciência é fonte de corrupção, que afasta os homens de Deus e os entrega nas mãos do Inimigo.

(Ironicamente, afirmarão isto na sua página de Facebook.)

O lado religioso do argumento devia ser mais “crescido” e introspectivo – como se deve esperar de uma corrente filosófica com uma tradição de milhares de anos. A ciência é um bebé comparada com a religião.

Falta humildade à comunidade científica. E falta maturidade à comunidade religiosa.

Será cânone, o desprezo da ciência por parte da religião? Nem pensar! O anjo com esse pelourinho, o anjo da razão, da ciência, da verdade – “Aquele que traz a luz”, “A Estrela da Madrugada” – era o braço-direito do Divino, antes de se rebelar e ser deposto por Miguel.

Pensemos nisso. Lúcifer é uma figura Prometeica. É “Aquele que traz a luz.” Se era o anjo mais alto da hierarquia divina, se era o braço direito do próprio Deus, a ideia que fica é que a razão, a racionalidade, a busca pela verdade – que são os conceitos que coalescem no nascimento da Ciência – eram as ferramentas preferidas para o Divino exercer influência sobre a Terra. É isso que “braço direito” significa. A Ciência caminhava com Deus.

Vamos transpor a metáfora para um conceito mais secular. A cada um dos anjos mais altos corresponde uma virtude. Tomemos a Razão como a virtude Luciferiana. A posição de Lúcifer faria da Razão a mais elevada das virtudes.

Lúcifer passou a ser o Inimigo quando se apaixonou por si próprio, pela sua razão – quando achou que não precisava de nada externo a si próprio para vingar na existência.

Miguel confronta Lúcifer.
O arcanjo Miguel a expelir Lúcifer do Céu. Notem que Miguel é o general dos exércitos de Deus, mas representa também a empatia, a confiança nos outros. A mensagem é de equilíbrio: poder sem empatia é tirania; bondade incapaz de se defender será corrompida.

A queda foi precipitada por arrogância, por uma idea de que “Eu tudo sei, e nada que exista que eu não saiba, vale a pena saber.” Não foi a busca pela verdade, a capacidade de raciocínio que precipitou a queda – foi o orgulho que surgiu de ter o domínio sobre ferramentas tão poderosas, o orgulho de achar que tudo no universo podia ser explicado e controlado pelo seu conhecimento. A partir desse momento, achou-se igual ao Divino.

(Um aparte: qualquer pessoa que possua um módico de inteligência, associada a um pouco de capacidade introspectiva, consegue rever-se neste “pecado.” Este conceito está codificado na nossa cultura numa miríade de formas e expressões: “Com grande poder, vem grande responsabilidade.” “O Poder absoluto corrompe absolutamente.” Etc.)

É isto que é o mais importante na história: Lúcifer não caiu por excesso de virtude (excesso de Razão). Lúcifer caiu porque se afastou das outras virtudes.

Em termos seculares: o perigo não é um “excesso” de ciência; não é um “domínio” de ciência.

(Porque não haveria de ser preponderante na nossa sociedade, a ferramenta utilizada pelo braço direito de Deus?)

O problema é a Razão, a racionalidade, quando afastada das restantes virtudes – Prudência, Temperança, Coragem, Justiça (e Fé, Esperança e Caridade/Amor, se quisermos ir por arcanjos).

A sequência dos eventos é importante! Não foi o Demónio que caiu. Foi a Queda que criou o demónio. A demonização da Razão, da Ciência, é função do quão afastada ela está do Divino, das outras Virtudes. Não daquilo que ela é.

É claro, há um conflito, há uma dicotomia entre o mundo espiritual da religião e o mundo objectivo da Razão. Mas elas estão intrinsecamente ligadas. Foi essa uma das bases que Nietzche usou para prever a decadência do Cristianismo: que a religião empunhava a espada da Verdade, e que sobre ela caíra e se tinha ferido mortalmente.

A busca pela Verdade (a Razão) pode ferir a componente espiritual da religião. Mas sem ela, está desarmada – não tem a sua espada, não tem o seu braço direito, a sua Estrela da Madrugada (que é, já agora, um sinal de esperança, de recomeço, do novo dia).

Portanto aqui fica a minha sugestão…

Aos Religiosos: Não subestimem o valor que a progressão científica tem para acrescentar à obra do Divino. É uma ferramenta por Ele criada; é a forma mais honesta de explorar a Criação. Não a afastem, isso é perpetuar a Queda. Tragam-na para junto das restantes virtudes.

Aos Científicos: Não se apaixonem pela vossa própria racionalidade. A ciência é mais pura, rica e recompensadora quando parte da premissa que está errada. Podemos almejar a querer saber tudo, mas temos que estar conscientes de que não sabemos quase nada. Há muito na experiência humana para além do que pode ser desvendado pela Razão – talvez um dia isto deixe de ser verdade, mas não estaremos nós vivos para ver esse dia.

O que faz o demónio não é sua capacidade de racionalizar, a sua intelectualidade. É a sua distância do Divino – das virtudes. Nós caímos quando nos apaixonamos pelas nossas próprias capacidades, em detrimento de tudo o resto.