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Dinheiro e Percepção

“Um dia, Yahya estava em viagem com o califa Harun Al-Rashid. Um homem apareceu diante do califa e disse-lhe: “A minha mula morreu”. Ao ouvir isso, o califa ordenou que o pobre homem recebesse quinhentos dirhams.

Mas Yahya sinalizou ao califa para desmontar e depois levou-o para o lado. 

“Pai!” Disse Harun. “Fez-me um sinal sobre algo que eu não entendo.” Yahya respondeu: “Um califa nunca deve se rebaixar a mencionar uma quantia tão pequena de dinheiro, até mesmo como presente. Quando é necessário dar, é melhor dar cinco mil ou dez mil. 

Harun perguntou-lhe: “Então, o que deveria eu ter feito nesta situação?” Yahya disse: “Ofereça-lhe simplesmente uma mula nova.”

 — A Sabedoria e Generosidade de Yahya Ibn Khalid (Inglês – Tradução original por Quintus Curtius)

O valor do dinheiro é diferente para cada um de nós. É por isso que um presente de dinheiro é ingrato: é raro a nossa percepção do valor corresponder à percepção da outra pessoa.

A generosidade monetária de um homem pode assemelhar-se à avarice de outro; e, mesmo que ambas as partes fiquem satisfeitas com a dádiva, o julgamento dos que a testemunhem é sempre uma incógnita.

Mais sensato, portanto, é descobrir o que é que a outra pessoa deseja, e, estando dentro da nossa possibilidade, oferecer isso.

Nem mais, nem menos; a arte da generosidade é uma arte que exige medidas certas.

Fotografia: stephenbarber Flickr via Compfight cc

Falhar e Continuar

No outro dia estava a jantar fora e na televisão passavam os Jogos Europeus 2019 – especificamente as provas de ginástica. 

Não sigo muitos desportos mas gosto de ver quando calha, porque acho que as atitudes dos melhores desportistas profissionais são atitudes que vale a pena emular. Afinal de contas, são pessoas que trabalham arduamente meses a fio para poder provar os frutos desse trabalho apenas um par de vezes por ano. A disciplina e sangue frio necessários são qualidades que admiro.

Foi o caso numa das provas a que assisti. A rapariga estava a dançar e a fazer piruetas com um bastão, e a certa altura, atirou o bastão ao ar, deu um passo de dança, e quando tentou apanhar o bastão, este bateu-lhe na mão e caiu ao chão.

Ela ficou chocada e atrapalhada durante aproximadamente um quatro de segundo; depois, pegou no bastão e seguiu com o numero – uma conclusão, a meu ver, perfeita.

Pensem na intensidade emocional durante esse quatro de segundo: nesse momento, ela perdeu a prova. Não importa o quão bem executasse o resto, foi uma falha tão crassa que seria impossível ganhar, a menos que todas as outras concorrentes cometessem gafes similares. (E algumas já tinham actuado, e não as cometeram.) Nesse momento, meses de trabalho, de dedicação, de dias longos e privações… Evaporaram-se.

O que teria feito, caro leitor, no lugar desta pessoa?

O que fazemos nós, quando uma hora ou um dia ou duas semanas de esforço não resultam no que queremos? Quando falhamos, ou quando as coisas correm mal? 

Por quanto tempo choramos, matutamos, nos arrastamos pelos cantos, rogamos pragas ao universo? Por quanto tempo nos deixamos ficar em baixo, quanto tempo levamos a recomeçar? Quanto tempo fazemos de luto pelos nossos sonhos despedaçados, pelos nossos planos logrados?

(Uma adivinha, já agora: qual é a coisa de que tanto a Morte como a Vida se riem com igual folia? Isso mesmo: dos nossos planos.)

Um quarto de segundo, foi o que esta rapariga devotou ao luto. Depois – prosseguiu. Apesar do objectivo estar perdido. Apesar da esperança ter desaparecido. Não interessa. Ela treinou para isto. Treinou do principio ao fim. Mais tarde, terminada a prova, haveria tempo para lágrimas. Naquele momento, ela tinha começado a prova, e ia acabar.

É isso que os profissionais fazem.

Fotografia: Erin Costa Flickr via Compfight cc

Citação IV

“Se estás arrependido de me ter beijado – retira o teu beijo.”

— Provérbio, “Caravan of Dreams” por Idries Shah

Todos mudamos. Se não mudássemos, era muito mau. Era sinal de que não aprendíamos nem crescíamos. 

A mudança – de gostos, de opiniões, de paixões – não é sinal de uma mente fraca. É sinal de uma mente adaptável, de um espirito que busca a compreensão e a verdade, que não se deixa prender no dogma da pessoa que era ontem.

Mas continuamos responsáveis pelas decisões e acções do nosso eu anterior, da pessoa que fomos no passado. As acções perduram, mesmo que nós já não sejamos a pessoa que éramos quando as tomámos.

As marcas que deixamos nos outros são mais difíceis de alterar do que as pessoas que somos. As nossas acções sobrevivem à morte das nossas personalidades.

Toma-as com devido respeito.