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Sugestões da Semana (I)

Um breve apanhado do que tem tomado o meu tempo.

Livro: Tools of Titans (Tim Ferriss)

Um excelente apanhado do melhor conteúdo de um dos meus podcasts favoritos. Não é um manual para a vida, mas pode muito bem servir de almanaque.

Filme: Ghost in the Shell (2017)

Não é o melhor filme de ficção científica, mas nota-se que quem o fez tinha o filme de animação original (1995) no coração. Nem todos os filmes têm que ser um tour-de-force intelectual. Este consegue capturar o espírito da animação sem de desenrolar em palhaçada.

Podcast: Hardcore History – Blueprint for Armageddon

Já tinha falado dele há alguns dias, e estou cada vez mais impressionado. Com episódios de cerca de três horas cada um, é difícil encontrar espaço para outros!

Videojogo: Hearthstone

O lançamento de uma nova coleção de cartas combina-se com a aproximação dos feriados para cultivar a ambição de chegar ao topo do escalão. Já não se trata só de jogar o jogo, mas também de estudar as partidas dos melhores do mundo em busca de conhecimento. O facto do jogo ser em grande parte baseado na sorte exalta ainda mais a importância de se procurar jogar um jogo sem falhas nos momentos em que a sorte nos acompanha.

Música: Age of Rage (Shiryu)

Numa semana de muita confusão e entrevistas constantes, a cabeça não tem espaço para músicas com letra. O remix da lendária banda sonora de Streets of Rage pelo Shiryu assenta na perfeição: não é barulhento suficiente para incomodar a cabeça cançada, mas é mexido quanto baste para me manter desperto.

Sexta-Feira Negra

Não sendo contra o capitalismo, quem me conhece sabe que a minha opinião é que compramos mais coisas do que devíamos. Seria de esperar que escrevesse algo a criticar a “Sexta-Feira Negra”, esse ritual consumista que os Estados Unidos exportaram para o resto do mundo.

Mas até gosto bastante da Sexta-Feira Negra!

Claro, é mais uma forma que as companhias têm de fazer uma lavagem cerebral ao consumidor, de convencer as pessoas a comprar coisas que não precisam, que não vão usar, e que muitas vezes as tentam a gastar dinheiro que não têm.

Mas há um jogo que eu gosto de jogar ao longo do ano. Sempre que vejo algo caro, algo que tenho vontade de ter, penso para mim mesmo: “Só um idiota é que compraria isto agora. Em Novembro ou Dezembro vai estar a metade do preço ou menos!”

E assim, acontece que acabo por comprar muito menos coisas ao longo do ano, porque sei por experiência que é factuamente verdade – quase tudo baixa de preço no final do ano.

Isto acontece muito no caso do meu hobby, os video jogos. A industria dos video jogos inflaciona brutalmente os seus produtos, porque têm uma espantosa máquina de marketing que se concentra em fazer as pessoas pensar que a melhor altura para desfrutar de um jogo é no mês em que ele é lançado. Cria nas pessoas o desejo de fazer parte da comunidade, da “conversa” em torno do jogo.

É claro, há muito poucos jogos sobre os quais vale a pena conversar. Mas não interessa, é essa a idea que é vendida, e com muito sucesso. É uma venda baseada no medo – no medo de perder a “onda” de entusiasmo colectiva. No medo de “não estar a par.”

Eu não tenho esse medo. Gosto de coisas velhas, gosto de descobrir filmes e livros e bandas de antes de eu ter nascido. Portanto, espero, em vez de comprar imediatamente. E o que acontece é impressionante: quando chega a Sexta-Feira Negra (ou evento promocional equivalente), não só compro as coisas que queria a metade do preço (que é o que considero o valor real e justo) como acabo por comprar menos coisas. 

Como a minha psicologia não está afectada pelo desejo de gratificação imediata, sei decidir melhor quais são as coisas de que realmente vou gostar, e quais meramente me “hipnotizaram” na altura em que as encontrei pela primeira vez.

O marketing têm muitos truques para violar a nossa psicologia. (É possível fazer marketing ético mas isso eram mais uns milhares de palavras.) O medo de perder “a onda” é o truque favorito da industria dos video jogos, mas a “Sexta-Feira Negra” é outro, mais geral. Mas agora, conhecendo os truques, já podes evitá-los… Ou ainda melhor, usá-los em teu favor!

A Língua é um Membro Fantasma

Custou-me a decidir se havia de escrever em Português ou Inglês.

O inglês é a obvia lingua franca da internet, e é na internet que publico a maior parte do meu trabalho. Há maior competição por atenção, mas a audiência é muito maior.

Acabei por decidir que iria escrever em ambas as línguas. Sempre que possível, iria escrever a mesma coisa em ambas as línguas. Decidi assim porque escrever é o mesmo que pensar, e escrever as mesmas ideias em línguas diferentes força-me a pensar melhor, dá-me uma perspectiva diferente do mesmo objecto intelectual.

O video jogo “The Phantom Pain” foi o último jogo Metal Gear por Hideo Kojima, e embora não ache que tenha sido o melhor, foi o que mais impacto teve em mim. Foi este jogo que me expôs pela primeira vez à idea de que a língua modela a cultura e o pensamento à sua imagem. A língua Inglesa é mais do que um modo de expressão, é um veiculo de assimilação.

Reforcei ainda mais esta ideia ao ler traduções de autores da Europa do Leste, como Bulgakov e Dostoyevsky. As palavras estão em Português mas a maneira de expor o pensamento é quase alienígena, e digo isto no melhor sentido da palavra. Ponderar estas obras forçou-me a reorganizar a minha forma de pensar, a estrutura do meu pensamento.

Tenho muito respeito pela cultura Anglo-Saxônica, e portanto não me incomoda um bocadinho de assimilação. Mas o jogo de Kojima deixou-me a pensar que devia encarar a minha língua materna com a mesma seriedade com que encarava o Inglês. Não é tão prática ou lucrativa. Mas decidi concentrar-me nela como uma forma de preservar a minha cultura, e, mais importante ainda, afinar a minha forma de pensar.

Porque se toda a gente pensar na mesma língua, é muito menos provável que se produzam ideias interessantes.