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Sexta-Feira Negra

Não sendo contra o capitalismo, quem me conhece sabe que a minha opinião é que compramos mais coisas do que devíamos. Seria de esperar que escrevesse algo a criticar a “Sexta-Feira Negra”, esse ritual consumista que os Estados Unidos exportaram para o resto do mundo.

Mas até gosto bastante da Sexta-Feira Negra!

Claro, é mais uma forma que as companhias têm de fazer uma lavagem cerebral ao consumidor, de convencer as pessoas a comprar coisas que não precisam, que não vão usar, e que muitas vezes as tentam a gastar dinheiro que não têm.

Mas há um jogo que eu gosto de jogar ao longo do ano. Sempre que vejo algo caro, algo que tenho vontade de ter, penso para mim mesmo: “Só um idiota é que compraria isto agora. Em Novembro ou Dezembro vai estar a metade do preço ou menos!”

E assim, acontece que acabo por comprar muito menos coisas ao longo do ano, porque sei por experiência que é factuamente verdade – quase tudo baixa de preço no final do ano.

Isto acontece muito no caso do meu hobby, os video jogos. A industria dos video jogos inflaciona brutalmente os seus produtos, porque têm uma espantosa máquina de marketing que se concentra em fazer as pessoas pensar que a melhor altura para desfrutar de um jogo é no mês em que ele é lançado. Cria nas pessoas o desejo de fazer parte da comunidade, da “conversa” em torno do jogo.

É claro, há muito poucos jogos sobre os quais vale a pena conversar. Mas não interessa, é essa a idea que é vendida, e com muito sucesso. É uma venda baseada no medo – no medo de perder a “onda” de entusiasmo colectiva. No medo de “não estar a par.”

Eu não tenho esse medo. Gosto de coisas velhas, gosto de descobrir filmes e livros e bandas de antes de eu ter nascido. Portanto, espero, em vez de comprar imediatamente. E o que acontece é impressionante: quando chega a Sexta-Feira Negra (ou evento promocional equivalente), não só compro as coisas que queria a metade do preço (que é o que considero o valor real e justo) como acabo por comprar menos coisas. 

Como a minha psicologia não está afectada pelo desejo de gratificação imediata, sei decidir melhor quais são as coisas de que realmente vou gostar, e quais meramente me “hipnotizaram” na altura em que as encontrei pela primeira vez.

O marketing têm muitos truques para violar a nossa psicologia. (É possível fazer marketing ético mas isso eram mais uns milhares de palavras.) O medo de perder “a onda” é o truque favorito da industria dos video jogos, mas a “Sexta-Feira Negra” é outro, mais geral. Mas agora, conhecendo os truques, já podes evitá-los… Ou ainda melhor, usá-los em teu favor!

A Língua é um Membro Fantasma

Custou-me a decidir se havia de escrever em Português ou Inglês.

O inglês é a obvia lingua franca da internet, e é na internet que publico a maior parte do meu trabalho. Há maior competição por atenção, mas a audiência é muito maior.

Acabei por decidir que iria escrever em ambas as línguas. Sempre que possível, iria escrever a mesma coisa em ambas as línguas. Decidi assim porque escrever é o mesmo que pensar, e escrever as mesmas ideias em línguas diferentes força-me a pensar melhor, dá-me uma perspectiva diferente do mesmo objecto intelectual.

O video jogo “The Phantom Pain” foi o último jogo Metal Gear por Hideo Kojima, e embora não ache que tenha sido o melhor, foi o que mais impacto teve em mim. Foi este jogo que me expôs pela primeira vez à idea de que a língua modela a cultura e o pensamento à sua imagem. A língua Inglesa é mais do que um modo de expressão, é um veiculo de assimilação.

Reforcei ainda mais esta ideia ao ler traduções de autores da Europa do Leste, como Bulgakov e Dostoyevsky. As palavras estão em Português mas a maneira de expor o pensamento é quase alienígena, e digo isto no melhor sentido da palavra. Ponderar estas obras forçou-me a reorganizar a minha forma de pensar, a estrutura do meu pensamento.

Tenho muito respeito pela cultura Anglo-Saxônica, e portanto não me incomoda um bocadinho de assimilação. Mas o jogo de Kojima deixou-me a pensar que devia encarar a minha língua materna com a mesma seriedade com que encarava o Inglês. Não é tão prática ou lucrativa. Mas decidi concentrar-me nela como uma forma de preservar a minha cultura, e, mais importante ainda, afinar a minha forma de pensar.

Porque se toda a gente pensar na mesma língua, é muito menos provável que se produzam ideias interessantes.

Dezasseis anos de ene3

A ene3 foi um projecto fundado em 2002 pelo DJ_MiND, numa era em que a internet ainda era movida a telefone e os modems faziam barulhos diabólicos sempre que se ligavam. Juntando um punhado de amigos dos fóruns do Sapo, o DJ criou um site dedicado à divulgação dos jogos e consolas da Nintendo, em Portugal – e pouco depois, expandiu-o para abranger todas as plataformas.

A data altura da vida do site, encontrei-me como custódio do mesmo. Nem sempre fiz o melhor trabalho, e tentei, algumas vezes, com diferentes níveis de sucesso, passá-lo a pessoas com maior capacidade do que eu. Mas acaba sempre por voltar às minhas mãos.

Hoje a ene3 ( www.ene3.net ) faz 16 anos. Não foram 16 anos de actividade, porque às vezes a vida mete-se no caminho. 

Não sei ao certo o que fazer com ela, admito. A minha relação com os videojogos não é aquela que já foi; cada vez os acho menos dignos de qualquer tipo de análise para além da mais superfícial. Todas as semanas luto com essa ideia, tento aprender um pouco mais sobre videojogos, sobre o que representam, sobre o seu valor como forma de expressão artística, para criadores e para jogadores. 

Onde está a linha entre a arte que merece – que carece – de alguém que discurse sobre ela, e a mera monetização do desperdício de tempo, a alienação e zombificação de mentes suscetíveis sem qualquer contrapartida para a valorização individual?

Não sei. Sei que não se escreve quase nada de valor sobre videojogos. Não se fala quase nada de valor sobre videojogos. É lixo sobre lixo, e quem lê isto a pensar que é excepção, desengane-se. A lei das probabilidades coloca-te nos 99.9%, não nos 0.1%. Mas eu também não sei fazer melhor. Somos todos formigas a sonhar que são gigantes – e somos assim por ignorância, por arrogância, porque não conhecemos os gigantes. Porque não conhecemos suficiente filosofia, música, cinema, literatura. Porque nos foi vendido um sonho de consumismo e luxúria como arte.

E é por isso que a ene3, no seu 16º aniversário, não está a funcionar.

Porque não vale a pena fazer algo quando não se o vai fazer bem. Não vale a pena ser mais um a berrar num mundo de ruído. 

Foram 16 anos de ene3. Não sei dizer ao certo quantas das coisas boas na minha vida surgiram da ene3, mas acredito que tenha sido a maior parte. Não sei se teria o trabalho que tenho hoje sem os conhecimentos que adquiri na ene3. Não sei se seria escritor, não tivesse sido o acesso a essa plataforma, que me permitiu praticar e levou a minha escrita aos jornais, à televisão, à rádio – aos leitores.

Muito obrigado a todos os que apoiaram, como colaboradores ou leitores ou ouvintes, pontualmente ou consistentemente, a ene3 nestes últimos 16 anos. Se alguma vez a ene3 regressar ao activo, será pela inspiração, pelo respeito, e pelo sentido de responsabilidade que sinto para convosco.