Arquivo de etiquetas: Videojogos

O Que Ando a Ler / Ver / Jogar (I)

Jogo – Hollow Knight

Por detrás de um exterior fofinho está um jogo de acção e exploração que não dá tréguas. Os inimigos são muitos e desafiantes, e os calabouços estendem-se  pelas profundezas da terra com muito poucos pontos de descanso. 

Um jogo moderno (e belíssimo) que respeita o tempo limitado do jogador adulto, ao mesmo tempo que oferece um desafio que nos remete aos tempos dos jogos clássicos. Não consigo jogar outra coisa, e comprei um comando “profissional” porque os comandos base da Switch não lhe fazem justiça.

(Joga)

Série – Comedians In Cars Getting Coffee

Não gosto de filmes ou séries de comédia; isto é, à excepção daquelas produzidas por humoristas de stand-up. “Seinfeld” é uma das minhas séries favoritas, e ver o humorista a interagir com os seus ídolos e colegas é uma delícia. Como bônus, descobri vários humoristas que desconhecia e à conta disso, enchi a minha fila de Netflix.

(Vê)

Livro – “O Perfume”

Foi-me oferecido por uma amiga e é um livro tão descritivo que me custa um pouco a ler. Não que a descrição seja má ou aborrecida, mas pelo contrário: é tão visceral que sinto que me sobrecarrega os sentidos. Um livro sobre um assassino muito particular, é uma bela janela para um período histórico ao qual não tenho muita exposição.

(Ler)

A Primeira Lei de Marketing

Hoje estava a andar pela baía da terra onde vivo e dei por mim a ponderar a viabilidade dela em caso de aumento dos mares, face ao aquecimento global. (Como é normal.)

Visto que a baía é rodeada por montanhas relativamente altas, parece-me que uma barragem no estreito que a liga ao mar resolveria o assunto com alguma eficiência. É claro que as montanhas não se estendem para sempre. O mar, eventualmente, seria capaz de as contornar. Mas provavelmente não ao ponto de as conseguir rodear.

A consequência – na minha imaginação – seria que a vila ficaria rodeada de pântanos. 

E foi aí que reparei como é que eu visualizo pântanos. Pântanos, para mim, são os lodaçais cinzentos pixelizados do velho jogo Ishar II, um dos primeiros RPGs que joguei.

Sim, já vi pântanos ao vivo. Já joguei dúzias de videojogos com pântanos mais realistas, mais bem realizados, e já li muitas descrições de pântanos em livros e vi ainda mais em filmes.

Mas foram os pântanos de Ishar II que ficaram para sempre associados à palavra, na minha mente.

Num produto, a qualidade é importante. A inovação, é importante. 

Mas ser o primeiro? É impagável.

“Inside” Outro Mundo

“Inside” é um videojogo de proeza estilística invulgar. Uma paleta de cores reduzida dá vida -Vida cinzenta, escura e sóbria, ocasionalmente iluminada por luzes malignas, mas ainda assim vida! – a um mundo desconfortável, um mundo que pode ser ou não ser o nosso, que equilibra o familiar e o bizarro com a destreza de um malabarista veterano.

De facto, tanto o seu estilo visual com base num minimalismo estilizado, como a estranheza familiar do seu mundo, me deixaram ao longo de todo o jogo com a sensação de que estava a jogar o parente de um do meus jogos formadores, o “Another World.”

Uma das cenas mais memoráveis de Another World, logo no início do jogo.

Também neste jogo, conduzimos uma personagem relativamente vulnerável através de um mundo que, apesar de muito invulgar – no caso de Another World, mais claramente alienígena do que o de Inside – apresenta ecos suficientes do nosso para que possamos traçar algumas assumpções acerca do que se passa e da situação em que nos encontramos. Por outro lado, mantêm-nos inquietos e despertos pois nunca sabemos que criatura ou armadilha estranha estará à nossa espera no ecrã seguinte.

Em Inside, no entanto, a personagem não ganha uma arma em parte alguma do jogo, e isso não é mau. Se por um lado senti falta dos picos de acção que pontuavam Another World sob a forma de tiroteios, também reconheço que esses sempre foram a parte mais fraca do jogo.

Inside é todo acerca de resolver enigmas físicos, acerca de descobrir a melhor maneira de manipular o ambiente para poder avançar da esquerda para a direita, até ao desfecho final. Isto faz dele um jogo muito mais acessível que Another World. Inside por vezes exige um pouco de ritmo e sincronização, mas nunca grandes reflexos – os desafios podem ser de execução física, mas a dificuldade é puramente cerebral.

A tentativa e erro são companheiros constantes em Inside, mas o jogo nunca nos penaliza em mais que alguns segundos por uma morte.

O que não me agradou assim tanto em Inside foi a narrativa aberta, e mais uma vez, comparo e contrasto com o caso de Another World. Ambos os jogos contam a sua história sem uma única palavra. Cabe ao jogador compreendê-la com base nos acontecimentos e na observação do ambiente.

No entanto, em Another World, é óbvia a natureza geral do evento que despoletou a aventura, mesmo que não as especificidades. O final deixa a narrativa em aberto (pelo menos até à sequela) mas não deixa dúvidas acerca do que se está a passar.

Inside deixa muito mais à imaginação, um pouco demais para o meu gosto, e sim, aqui trata-se puramente de gosto. O inicio é completamente inexplicado, a motivação da personagem que controlamos, idem, e se no final se dão eventos com uma carga dramática acrescida, a natureza desses eventos mantém-se obscura. (Se bem que, admito, a cena final é relativamente satisfatória, como climax.)

A questão é que Another World deixa muita coisa aberta à interpretação do jogador, e isso agrada-me. Mas Inside não nos dá material suficiente para gerar uma interpretação, apenas especulação. Não há nada de mal nisso – ainda bem que há narrativas assim nos videojogos – mas não é algo que me agrade, e poderá também não agradar ao leitor.

Ainda assim, a experiência de jogar Inside foi agradável, e fez-me pensar que há realmente muito poucos jogos assim, jogos que continuem na linha desse clássico que foi o Another World. Espero que mais gente jogue Inside e, quem sabe, o sigam como inspiração.