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Sem o Esforço

Fui aceder ao Evernote, coisa que não faço com frequência. Na verdade, só lá fui porque não sabia o que havia de escrever hoje e pensei que ver notas antigas me podia inspirar.

Não precisei de ir muito longe, porque vi o novo slogan deles: “Sente-te organizado, sem o esforço.”

Vou ignorar o facto de que alguém se sentir organizado não gera os mesmos benefícios do que efectivamente ser organizado (é um ganho a curto prazo versus a longo prazo).

“Sem o esforço.” É uma promessa matreira.

Phantasy Star é um antigo jogo de aventura. É relativamente pouco sofisticado, afinal de contas, tem quase a minha idade. Mas jogando-o hoje, cativa-me mais do que muitos jogos modernos. 

É que, ao contrário da maioria dos jogos modernos, o jogo não faz um registo do mapa quando a personagem avança. Tenho que ser eu, com uma caneta e papel quadriculado, a desenhar o mapa passo-a-passo, para não me perder.

É trabalho demais para jogar um jogo? Talvez. Depende da disposição. Mas é inegável que a experiência fica enriquecida, transcende o meio electrónico, e faz da aventura mais “minha.”

Se o objectivo é satisfação, o esforço é parte disso. 

A Obrigação do Consumidor

“Isto é digno do teu tempo e dinheiro, da tua atenção?”

É um tipo de crítica artística que se pode procurar. É valiosa – tanto o tempo como o dinheiro são recursos limitados.

Mas a resposta é diferente para cada leitor, para cada espectador, pois pessoas diferentes procuram coisas diferentes. 

Procuras auto-conhecimento? Procuras lazer? Procuras estatuto? Procuras desafio? Procuras estimulação intelectual? Ou validação das tuas crenças?

O crítico não tem como ler o pensamento da audiência.  A validação de crenças de uma pessoa é a estimulação intelectual da outra. Por isso, a obrigação do bom crítico é expor o que é que a obra faz, e o que é que não faz.

A obrigação do consumidor é saber o que procura. Não que obra procura, mas o que procura numa obra.

Forma e Conteúdo

Animé e banda desenhada são mercados vastos, mas também são nichos. Ver animé (animação japonesa, para quem não conhece) é coisa de fãs de animé. Ler banda desenhada é coisa para fãs de banda desenhada. 

Mas seria absurdo dizer o mesmo em relação a ver filmes. Quando alguém vai ao cinema, não o assumimos como uma pessoa que tem especial apreço por filmes. E nem temos uma palavra para “fã de livros” – reconhecemos que algumas pessoas têm um hábito de leitura em maior ou menor grau, ou lêem ocasionalmente, ou não lêem de todo.

Porque é que há uma diferença de percepção entre filme e animé? Entre livro e banda desenhada? A minha tese é que a maioria das pessoas não tem a certeza do que está à procura, e portanto confunde a forma com o conteúdo.

Eu sou agnóstico em relação à forma. O que eu busco são histórias. Não me interessa se essa história é transmitida através da magia do cinema, da melodia de uma opera rock, ou das mecânicas de um videojogo (artigo em inglês).

O que me interessa – se bem que não é o mais importante – é que o conteúdo aproveite a forma. Se a história beneficia do meio utilizado para a contar.

O mundo dos videojogos está pejado de histórias que seriam mais bem contadas num livro, filme ou banda desenhada, e que em nada beneficiam por ser videojogos; pelo contrário, a história, o seu ritmo, a sua cadência, ficam prejudicadas. 

Um videojogo é um meio único porque não tem necessariamente que contar uma história, pelo menos não no sentido tradicional da coisa. Tetris é um excelente videojogo, mas se conta uma história, é uma completamente engendrada na nossa cabeça – narrativamente, não é mais que um veiculo para a imaginação. 

Mas quando um jogo se foca em contar uma história, quando essa é a sua premissa central, ou uma das suas premissas centrais, então ou aproveita as características únicas do meio para o fazer, ou é uma mula digital, um bicho híbrido e defeituoso.

É muito fácil de identificar esta dicotomia nos videojogos, por serem tão diferentes dos meios artísticos habituais – e porque a maioria de quem os produz ainda falha tão espectacularmente em usar a ferramenta para propósitos narrativos, ou até mesmo em determinar qual o seu objectivo artístico. 

É preciso muito mais atenção e educação cultural nas outras formas artísticas para perceber, por exemplo, quando um filme teria sido uma melhor banda desenhada, ou uma opera teria sido um melhor animé.

Mas é uma peça a considerar, quando queremos falar acerca do valor de uma obra.