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Como Vender a Alma ao Diabo: Um Guia Práctico

Quando era um miúdo, sofria de um medo comum a muitas pessoas da minha idade que foram educadas num meio católico: o medo do diabo. Especificamente,  o dito tentador, aquele que na peça Fausto, de Goethe, pactua com o titular doutor, oferecendo-lhe tudo o que mais deseja, em troca da sua alma imortal.

Como vender a alma ao Diabo

Nessa altura, não tinha o conceito muito desenvolvido na minha cabeça. Nem tão-pouco conhecia a mitologia emprestada da obra do dramaturgo alemão e tão ardilosamente canonizada pela religião na sabedoria popular. O diabo, para mim, era um bicho que estava sempre à espreita, por um momento de fraqueza – um momento em que eu quisesse muito uma coisa. Por exemplo, um prémio na raspadinha; ou que um ataque acertasse criticamente no boss da batalha final de um videojogo. Lá estava o cornudo, pronto para se por a jeito para conceder aquela coisa manifestamente desimportante em troca de uma eternidade de sofrimento entre o fogo e o enxofre.

Com o passar dos anos, e uma educação nas ciências, passei a rir-me do misticismo que me tinha feito temer tanto. Que ideia ridícula, a existência de uma entidade sobrenatural capaz de nos conceder os desejos, em troca de uma eternidade de sofrimento!

Só que… Passaram ainda mais alguns anos. Fui vivendo a minha vida, e vendo os meus amigos viver a deles. E percebi que, se a existência do tal bicho vermelho cornudo ainda não me foi feita manifesta, não restam dúvidas de uma coisa: quase toda a gente lhe vende a alma.

O dia em que eu vendi a minha alma

Vejam se reconhecem esta história: uma rapariga – chamemos-lhe Júlia – tem o sonho de ser bailarina. Mas ser bailarina é muito difícil! É preciso praticar muitas horas, muitas mais do que são necessárias para fazer um trabalho convencional, como, por exemplo, servir à mesa, ou vender numa loja de roupas. 

E mesmo quando se alcança um nível elevado de proficiência artística, é preciso estabelecer um portfolio, participar em eventos para criar contactos e reputação no meio, antes que disso se possa fazer uma vida condigna. Em suma: “arrancar” demora muito tempo, e exige muito esforço.

(E não quero com isto dizer que não hajam pessoas que tenham investido muito tempo e atenção na arte de servir à mesa ou outros trabalhos, e assim se tenham tornado referências na área. Quero apenas mostrar que a barreira de entrada é menor.)

É claro, a Júlia bailarina tem que pagar as aulas. Tem que pagar os transportes para os eventos. Tem que pagar as roupas, as maquilhagens, e tudo o mais. São investimentos no seu sonho. Para ter dinheiro para estes, começa um part-time numa loja de roupa.

Só que… A Júlia quer outras coisas. Quer um carrinho catita, para ter mais independência. Quer um apartamento confortável, para poder sair de casa dos pais e estar mais à vontade com o namorado. Depois, o apartamento tem que ser mobilado, claro, e há-que ter duas televisões, uma no quarto, e outra na sala, para ver a novela ao jantar e continuar a ver na cama.

Assim de repente o part-time já não chega para isto tudo. O que a Júlia faz é pedir à patroa da loja de roupa para ficar a trabalhar a tempo inteiro. E a sua prática de bailado é empurrada para os fins-de-semana.

Agora a Júlia tem montes das coisas que queria. Tem privacidade e intimidade com o namorado, e já estão a falar no casamento e num filho. Tem a sua casa, com todos os confortos… Apesar de todos os meses se ver aflita para pagar as contas e a renda. E tem o seu bailado, aos fins-de-semana.

Só que… Ao fim-de-semana, a Júlia está cansada. Andou a semana toda a arrumar camisolas em prateleiras, de pé a atender clientes. Tem que se maquilhar todos os dias para fazer boa figura na caixa da loja, e ao fim-de-semana só lhe apetece estar de cara lavada e em pijama. Não se consegue concentrar nos treinos. As raparigas que estão mais disponíveis para eventos, e que praticam mais, são mais chamadas, fazem melhores contactos. Vão passando à frente da Júlia.

Agora, a vida da Júlia é um ciclo de casa, trabalho, trabalho, casa. Quando tem tempo livre, está a alimentar a relação com o namorado – agora, marido – na esperança de recuperar aquela atracção que havia no início. 

(Ironicamente, a Júlia nunca chega a saber, porque o marido também não o consegue articular devidamente, que o que o atraiu inicialmente foi o brilho que ela tinha nos olhos quando se aplicava em direcção ao seu sonho.)

O sonho de Júlia é uma coisa do passado. Está condenado ao esquecimento. 

Júlia sabe disso, mesmo que não o consiga dizer. 

E o diabo está no canto, a esfregar as mãos. Porque a Júlia vendeu a sua alma – o seu ideal mais alto – em troca de conforto.

Mas vamos rebobinar. Vamos ver outro rumo que a história da Júlia podia ter levado…

Como vender a alma ao Diabo
Tu, pessoa racional, com boas intenções! Quem arrastarás contigo para o fogo eterno?

Durante um espectáculo de dança, a jovem Júlia conhece um rapaz promissor. Um informático. Metem conversa, ficam com o Facebook um do outro, trocam mensagens na semana seguinte, acabam por combinar um encontro.

Depois de um par de semanas, a Júlia sabe que encontrou uma boa pessoa, um homem de quem gosta e respeita, e um homem que a poderia suportar, enquanto persegue o seu sonho. Está certo, ela não sente aquele calor na alma, aquela paixão por ele… Mas será que isso existe mesmo?! Se calhar é só coisa de filmes e novelas. Certamente que com o tempo, o amor surgirá. Afinal de contas, são ambos boas pessoas, têm ambos objectivos, e podem nem ter muito em comum, mas simpatizam um com o outro! Já é uma boa base para uma relação.

E assim, Júlia namora, e depois muda-se para casa do rapaz, e até o vai ajudando nas despesas com o pouco que vai conseguindo fazer enquanto lança a sua carreira. E realmente a sua carreira progride, e Júlia dança profissionalmente cada vez mais!

Só que…

O que começou por ser morno não aqueceu, só arrefeceu. Sim, Júlia está a viver o seu sonho. E depois chega a casa. O namorado está no computador, a fazer as suas coisas. A Júlia não tem interesse pelo que ele faz, nem ele pelas coisas dela. Vivem mais ou menos como estranhos, como companheiros de quarto com benefícios, porque apesar de tudo encontram alguma atracção física. Mas para além disso, e de partilharem algumas refeições, não há ligação.

Mas a Júlia não quer, não consegue acabar. Por um lado, sente um peso na consciência. Ele suportou-a e ajudou-a, e agora, que a carreira dela começa a desabrochar, ela vai descartá-lo? Que tipo de pessoa seria ela, se o fizesse?! E por outro lado, há um medo miudinho no seu coração… E se as coisas mudam? E se ela parte uma perna, ou tem um acidente de carro, ou se deixa de ter trabalho? Uma pessoa sozinha tem muito menos segurança. E ia voltar para casa dos pais? Perder a sua independência?

Não julgues nem desdenhes da Júlia, caro leitor. Ela não foi interesseira nem desonesta. Como muitos de nós, foi racional. Convenceu-se de que o caminho mais conveniente era o certo, calculou e racionalizou aquilo que o coração não queria aceitar.

Agora a Júlia está a viver o seu sonho, sim; mas a sua alegria, a sua satisfação é envenenada sempre que chega a casa, sempre que coloca a mão na maçaneta da porta e sente a sua alma a definhar mais um pouco, sempre que sente – embora não admita – que aquilo que alcançou e que tanto ama está assente num alicerce apodrecido.

Nesta versão da história, a alma de Júlia foi mais uma vez vendida ao diabo, desta vez não em troca de conforto, mas de um atalho para o seu sonho. Um sonho que recebeu… distorcido pelo caminho que foi tomado para o alcançar.

Todos nós somos confrontados com tais barganhas faustianas ao longo da nossa vida. E raramente pensamos suficiente nas consequências que podem ter, para nós e para o outros. Pois, no exemplo acima, não é só Júlia que vive no inferno. O seu companheiro – que certamente entrou na barganha pelos seus próprios motivos, para satisfazer os seus próprios desejos – também o vive, e também o sabe, e também terá a sua própria racionalização para não sair dela.

Quando vendemos a nossa alma, facilmente arrastamos quem nos rodeia para as chamas.

É exagero usar tal linguagem para descrever as consequências de escolhas mal-pensadas? Pois bem, consideremos:

Um dia tu acordas e percebes que a tua vida é levantar-te, escovar os dentes, dizer olá a uma pessoa com que vives mas que já nem sabes se conheces – ou se conheces, já não achas particularmente interessante – comer uma taça de cereais insípidos porque leste numa revista que é saudável, e sair para um trabalho que não te aquece nem arrefece, mas que dá para pagar as contas. Pelo caminho, apercebes-te de que os teus sonhos ficaram algures no passado. Estão num canto da tua vida, cobertos de teias de aranha, a dar os últimos suspiros. E percebes que foram as tuas decisões que te conduziram a esse estado.

Estás no inferno.

Não há fogo e enxofre e diabretes a espetar-te com forquilhas e vermes a comer a carne que se vai desprendendo dos teus ossos?

Tenta viver assim cinco anos. Tenta viver assim dez anos. Quinze anos! Acredita em mim, vais preferir os vermes. É por isso que as pessoas se suicidam.

E as mais revoltadas de entre elas não assumem só a sua responsabilidade, mas culpam o universo – o governo, a educação, o capitalismo, os ricos, os comunistas, o patrão, os pais, etc. – pela sua amargura, e tentam levar com eles quantas mais pessoas conseguem. São essas as pessoas que, antes de se matarem, vão fazer tiroteios na vizinhança, ou em discotecas.

É de citação frequente a passagem da bíblia em que Jesus diz que “O reino de Deus está dentro de vós.” O que deveria ter sido acrescentado (talvez com um asterisco, em nota de rodapé, para não estragar a prosa) é que o poço ardente de Lúcifer, também ele está dentro de nós. Como o pai da psicanálise Carl Jung notou, a batalha entre o bem e o mal não se trava no mundo exterior. Trava-se dentro de cada um de nós. E também é aí que as consequências se fazem sentir primeiro.

Uma Pequena Palavra Em Defesa Do Compromisso

Pedi há vários parágrafos atrás que não julgássemos a Júlia pelas suas escolhas. É fácil apontar falhas quando estamos de fora, erros aos quais seríamos cegos na nossa própria vida.

De igual modo, não quero fazer pensar que devemos ser inflexíveis na busca pelos nossos sonhos e objectivos. É legítimo e honrado trabalhar de graça para aprender uma arte; trabalhar num emprego que não nos diz nada para ter os recursos para aplicar nos nossos sonhos (como, aliás, Júlia começou por fazer); até pôr o nosso sonho de parte em prol de uma causa nobre e solidária – como tratar de um pai um uma mãe doentes.

Como saber a diferença entre aquilo que é razoável, e aquilo que nos vai fazer habitar o inferno?

Em primeiro lugar, há uma componente intuitiva. Às vezes, as coisas não nos cheiram bem. Foi o que aconteceu com a Júlia no segundo exemplo – ela hesitou, teve dúvidas em relação a começar o relacionamento com o tal informático. Mas racionalizou as suas dúvidas para debaixo do tapete. Nós somos muito bons a mentir a nós próprios – a racionalidade é apenas uma das nossas ferramentas para navegar a vida, e pode muito bem ser a mais nobre de todas, mas ninguém consegue construir uma casa inteira só com um martelo. Exercitemos, então, o uso das outras ferramentas. Procuremos pensar e sentir, não só um, não só o outro.

Em segundo lugar, devemos considerar a ecologia, isto é, as consequências a longo-prazo, a par com uma avaliação honesta das nossas capacidades. Na primeira versão da história, a Júlia deixou-se levar pela busca de conforto, e não considerou o impacto que manter esse estilo de vida teria no seu sonho. Imaginou que teria energia ilimitada, e não considerou que o tempo que investia no seu sonho era tão importante, ou mais, como os recursos monetários de que dispunha para o fazer.

Quando tomamos uma decisão, devemos considerar as consequências não só para a semana que vem, mas para o ano que vem, e para os três anos seguintes. E já agora, como irá afetar-nos não só a nós, mas os que nos rodeiam. Porque, indirectamente, afectamos sempre alguém.

A verdade é que a maioria de nós comete o mesmos erros que a Júlia cometeu, embora seja duro de admitir. Eu já o cometi várias vezes, e o resultado foram sonhos adiados em prol de relacionamentos tépidos e empregos sem satisfação. Também eu, já vendi a minha alma ao diabo. E se, ao contrário do que se diz na literatura, é possível trepar para fora do poço ardente, é uma escalada que nos deixa feridos, e exaustos, e não é garantido que o consigamos fazer mais que um par de vezes na nossa vida. 

Daí ter pensado muito nisto, e deixar o presente texto para quem o quiser ler, na esperança de que vos salve de tal sorte.