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Sim Por Defeito

Quando alguém me pede para participar num projecto, a resposta é quase sempre “sim.” Com um asterisco: quem me pediu tem que arrancar. Eu entro depois, como suporte.

A maioria dos projetos nunca vão a lado nenhum. Toda a gente tem uma ideia para um livro, um podcast, um filme, um negócio. Mas quase ninguém tem a capacidade de arrancar, de gerar força suficiente para vencer a entropia e dar os primeiros passos. 

Nesse caso, fui o tipo que disse que “sim.” Uma palavra que não me custou mais do que uns centímetros cúbicos de ar , criou uma ligação de confiança entre mim e outra pessoa, ajudou a construir uma reputação de generosidade. Não tive que fazer mais nada.

E se a pessoa conseguir arrancar? E se o projeto for para a frente?

Então, estou a trabalhar com uma pessoa que sabe fazer coisas arrancar.

Não é uma má posição.

Ferramentas do Ofício

Quando tens mesmo que fazer o trabalho, quando não consegues viver sem fazer o trabalho, então as ferramentas não são tão importantes. Escrevi vários capítulos do meu primeiro livro numa aplicação de bloco de notas, no telefone. Boas ferramentas dão-te alento na caminhada, mas não te empurram porta fora.

Mas alguns de vós pediram-me que partilhasse as ferramentas que uso para escrever, portanto aqui estão as principais ferramentas:

Scrivener ( OSX / iOS / Windows) – É isto que uso para escrever os meus livros de ficção. É uma aplicação magistral para escrever livros, desde que este não exijam grandes composições visuais, como por exemplo ilustrações eximiamente formatadas, ou caixas de texto suplementares. É infinitamente personalizável e tem ferramentas para ajudar a qualquer tipo de escrita, desde tratados científicos a ficção histórica. Mas com o pressionar de um botão, passas a ser só tu, um contador de palavras, e uma página em branco. Os produtores disponibilizam uma versão de demonstração generosa – escrevi um livro inteiro utilizando apenas isso.

Pages (OSX, iOS, Web) – Uso isto para textos maiores, ou para qualquer tipo de livro que necessite de uma composição visual mais cuidada (por exemplo PDFs para marketing). Tem duas grandes vantagens em relação à concorrência (Google Docs e Microsoft Word). Em primeiro lugar, é muito mais fluido, especialmente no que diz respeito à manipulação e formatação de imagens. Em segundo lugar, usa etiquetas para categorizar documentos. Não me vou alongar acerca das etiquetas porque é uma questão organizacional e aqui escrevo sobre escrita. Quando queres que a tua escrita seja apresentada de uma forma bela mas não queres andar frustrado(a) às cabeçadas no teclado? A tua melhor amiga é uma aplicação fluída e com menus de formatação e estilo intuitivos. É o que o Pages oferece. A versão web é muito pior, mas funciona.

Bear App (OSX, iOS) – Para escritos breves. 99% dos textos neste blog são escritos no Bear. Tem uma interface belíssima e minimalista, formatação robusta com base em chaves de cardinal, e facílima exportação para uma larga variedade de formatos. É um Evernote sem banhas, afinado para escritores. Eu uso a versão paga para sincronizar entre dispositivos, mas se isso não te interessa, a versão gratuita tem tudo o resto. A equipa de desenvolvimento prometeu trabalhar numa versão web, mas sem data definida.

Fotografia por Leah Kelley (Pexels)

O Som do Silêncio

Custa-me trabalhar com audio, porque é preciso silêncio. Quando estou à procura de diferenças de volume entre faixas, ou de artefactos para cortar, não me posso dar ao luxo de estar a ouvir música, ou o som da chuva.

Antes do trabalho como Podcaster me forçar a silenciar os barulhos de fundo, não me tinha apercebido de como eles me eram essenciais. Sempre me julguei um amante do silêncio – é completamente impossível trabalhar com pessoas a falar, mesmo que não estejam a falar comigo. 

Não é que o silêncio me perturbe. Mas também não inspira. Já sons ambientes (chuva, pássaros) ou musica (especialmente instrumental) ajudam a lubrificar a mente. Acho que comecei a colocar auscultadores ou música alta como uma forma de “fechar a porta”, de não ter que ouvir os outros. Mas a certo ponto, o som tornou-se parte do processo.

Todos mudamos. Mas raramente mudamos de acordo com um plano. Mudamos, isso sim, como consequência das nossas acções – e muitas vezes, sem nos apercebermos da mudança.

Fotografia: Visavis.. Flickr via Compfight cc