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Os Macacos Dentistas do Futuro

Uma vez estive num curso em que o professor disse que, na posse do equipamento correcto, conseguia ensinar um macaco a fazer uma desvitalização.

Na altura, nós, os alunos, rimos e brincamos. Era um exagero, claro, para promover o material da empresa que patrocina o curso. Mas a ideia ficou. E hoje, acho mais razoável. O ato em si é mecânico. É preciso uma certa sensibilidade, é preciso o conhecimento de como tratar cada canal com base na forma e espessura, mas, definido o caminho, é trabalho manual.

Não conheço as capacidades dos macacos, confesso. Mas não vejo porque é que daqui a 10 anos não podemos ter um robô a fazer o trabalho de um dentista – melhor do que a maioria dos dentistas!

Isto significa que os dentistas enfrentariam o desemprego? Não; pelo menos, não imediatamente. Acho que seriam precisas mais algumas décadas até os robôs serem capazes de discernir o que fazer, em cada caso. 

O robô seria melhor que o humano em saber a pressão a aplicar, como manusear o instrumento, até que profundidade ir com segurança, a quantidade exacta de irrigação no canal, etc. Mas teria que ser o dentista a:

  1. Determinar qual seria o tratamento a executar.
  2. Especificar os parâmetros da operação (I.E.: escolher o programa adequado ao tipo de canal)

Ou seja, a profissão seria menos acerca do trabalho manual, e mais acerca do diagnóstico e da identificação do processo de tratamento adequado. O que libertaria os dentistas para trabalho mais intelectual, e lhes daria uma maior capacidade de atendimento.

É claro que isto tem um senão: em alguns países (é o caso em Portugal) já temos mais dentistas do que trabalho para eles. Então, o que aconteceria quando os dentistas com mais possibilidades de adquirir tecnologia se tornassem centenas de vezes mais produtivos, libertos da necessidade de trabalho manual?

E sendo este um problema que afecta uma classe profissional extremamente especializada, o que dizer em relação a trabalhos mais simples, como conduzir camiões ou recolher o lixo? Os robôs continuarão a precisar de um supervisor humano, mas substituirão muitos mais… Afinal, são mais eficientes, e não precisam de dormir.

A mecanização está às nossas portas. Temos que pensar seriamente numa forma de desassociar os rendimentos necessários a uma vida condigna, das horas de trabalho. Porque no nosso futuro, estão muitos robôs, e, consequentemente, muito menos trabalho para quase todos.

Fotografia: DocChewbacca Flickr via Compfight cc

Como Encontrar Um Bom Médico

Aqui está algo que ninguém quer ouvir: a maioria dos médicos são medíocres. Gostamos de colocar os profissionais de saúde num pedestal porque são eles os responsáveis pelo nosso bem-estar e longevidade, e queremos muito pensar que essas coisas estão nas mãos dos melhores, mas os melhores são poucos e é improvável que nos seja atribuído até mesmo um bom médico de forma meramente aleatória.

Tal como em todas as outras profissões, a qualidade dos médicos seque uma distribuição matemática normal. Um punhado é extremamente incompetente. Alguns são meramente maus. A maioria é média, mediocre. Uma modesta percentagem é boa. E outros poucos são excelentes.

Curva de Bell
Representação de uma distribuição normal, “Curva de Bell” ou “Curva em Campânula”

 

Ao chegar a uma clínica ou hospital, a lei da probabilidade encarregar-se-à de nos atribuir um médico de qualidade média. Pensar outra coisa é auto-ilusão para combater ansiedade. E na realidade, na maioria das situações, um médico de qualidade média basta. Não é preciso o Dr. House para passar medicamentos para o sarampo ou para encastrar um braço partido.

Mas se estás numa situação em que é difícil identificar o que se passa, se te sentes mal e não sabes muito bem porquê, então nesse caso um médico medíocre ou não te vai saber ajudar, ou vai estabelecer por defeito o diagnóstico mais estatisticamente provável – não necessariamente o mais correcto.  Isto protege-o, mas  não é necessariamente útil para o paciente.

Podes identificar um bom médico através de um par de características:

  1. Tempo Investido Na Consulta. Especialmente relevante na primeira consulta, mas também importante quando é relevado um sintoma novo. Consultas de menos de 30 minutos não são aceitáveis. Consultas de 15 minutos são uma piada à custa do paciente. Um bom médico passa regularmente uma hora com cada paciente. Fazem exames completos e muitas perguntas.
  2. Capacidade de responder a perguntas e explicar sistemas. Um bom médico explica porque é que as coisas estão mal, o que tem que mudar, e o porquê.  Explica quais os mecanismos da doença e os mecanismos da cura. Se um médico não sabe explicar porque é que um antibiótico não funcionou e é preciso experimentar outro, ou porque é que é importante normalizar um valor especifico nas análises, isso é sinal de que ele não entende o que está a fazer, está meramente a guiar-se por uma “cábula” de valores médios. A maioria dos médicos sabem dizer-te para baixar o colesterol, mas bloqueiam se lhes perguntares para que serve o colesterol, afinal de contas.

O Diagnóstico Correcto Está Na Terceira Opinião

Parte do problema do nosso hábito de ver os médicos como seres sobre-humanos e infalíveis é que não temos o hábito de pedir uma segunda opinião.

Dependendo da severidade da situação (o quão mal te sentes é um barómetro decente para a determinar) ou do nível de violência do tratamento proposto (cirurgias complicadas, grandes mudanças no estilo de vida, etc) vale muito a pena ir falar com outro médico para ter uma segunda opinião.

Se o segundo médico concorda com o primeiro, é decente. Dá para avançar com alguma segurança.

Se não, é preciso desempatar. Sim, é preciso ir consultar um terceiro médico. Não há outra maneira de decidir qual dos outros dois tem razão.

Eu compreendo que ninguém gosta de ouvir isto. É muito desagradável. Ir ao médico é caro e demorado. Nem toda a gente tem a possibilidade de ir a uma instituição de saúde privada. Não tenho boas respostas para esses problemas. Exponho a informação porque acho que é melhor que as pessoas a tenham, do que não. Pode não ser fácil agir em conformidade, mas espero que consigam.

Boa sorte!