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Sem Modo “Fácil”

Nos últimos dias, tive que ler um livro que estava muito acima da minha capacidade. Era um livro que presumia muito conhecimento anterior da minha parte. Tive que parar várias vezes para pesquisar o significado de palavras que desconhecia, e para consultar livros referidos na bibliografia.

Na nossa sociedade facilitista, seria fácil dizer que o livro era pobre, que era muito exigente, que não era didático.

Mas não é razoável exigir que todos os livros sejam escritos para leigos. Como é que é possível alcançar profundidade de conhecimento, se perdemos tanto tempo a fazer o reconhecimento da superfície? Não; uma obra que queira contribuir de forma significante para o todo, tem que assumir que o leitor já passou pelas bases.

Acabei por fazer a entrevista, e acho que não fiz má figura. Domino o material? Não, nem um pouco. Consegui reter algumas ideias, alguns princípios, consigo ter uma discussão inteligente sobre o livro e o material que lá está, mas precisaria de mais algumas (muitas!) luas para saber implementar o material.

Mas o simples projecto, o esforço destes ultimos dias, obrigaram-me a ser um leitor mais focado, mais rigoroso, obrigaram-me a fazer notas e a construir muito bem as minhas questões. É um “subir de nível” que só foi possível porque me atrevi a atirar-me a um livro mais forte do que eu.

Atreve-te também.

Pintura: “A Forja de Vulcano” por Francesco Bassano

Citação II

Para ponderar no fim-de-semana, uma citação que sublinhei recentemente, e me tem estado na cabeça:

“Confia em Deus – mas primeiro, ata o teu camelo.”

— Ditados do Profeta,  “Caravana de Sonhos”, por Idries Shah

Não vale a pena viver uma vida de medo e ansiedade. A maioria dos infortúnios que nos atormentam – como dizia Mark Twain – nunca chegam a acontecer. Encarar a vida com confiança que tudo se resolverá pelo melhor podem nem sempre ser a atitude mais realista, mas a alternativa é sofrer por coisas que ainda não aconteceram.

E no entanto, é verdade que a sorte é algo que acontece àqueles que se colocam em posição para a receber. Nunca ninguém ganhou a lotaria sem jogar. O que parece um sucesso da noite para o dia a quem está de fora, levou na realidade uma vida de tentativas falhadas. E aqueles que dormem de porta destrancada serão assaltados mais facilmente do que os que trancam portas e janelas…

Todos nós estamos à mercê da fortuna. Mas podemos sempre escolher como jogamos as cartas que nos calharam.

Pintura: “A Caravana” por Alexandre Gabriel Decamps

Nos Ombros de Gigantes

Um dos perfis que mais gosto no antepenúltimo livro de Tim Ferriss, o “Tools of Titans” (onde ele compila as melhores partes de vários anos de entrevistas) é o do Kevin Costner. 

É um dos perfis mais curtos, não chega a ter duas páginas, mas acho que a edição é magistral; a primeira parte e a segunda demarcam eximiamente um arco da vida pessoal do actor e realizador.

Num dos primeiros parágrafos, ele conta como quase que morria num acidente de viação, mas deixou o carro espatifado no meio do nada, e pediu boleia até à audição para onde se dirigia. Não conseguiu o papel, mas disse ter sido aí que se apercebeu, finalmente, que era isto que queria, que não se ia importar como que o mundo e a família pensavam acerca das suas escolhas.

Num dos últimos parágrafos, o actor narra uma troca de palavras que teve com o seu pai, muitos anos depois, depois de já ter alcançado o sucesso do estrelato mundial. O seu pai lamenta-se, de forma sentida, de nunca ter tomado nenhum risco na vida. Que se manteve no mesmo emprego a vida toda porque queria que, acontecesse o que acontecesse, “houvesse sempre comida na mesa.”

A única coisa que o seu filho lhe conseguiu dizer foi: “E houve. E houve.”

Às vezes, não tomamos riscos não por sermos cobardes, mas para que os que se nos seguem tenham a oportunidade de os tomar.