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A Viagem e o Final

A maior parte dos livros tem uma moral (ou sugestão de acção) passível de explicar em duas páginas ou menos.

Então, porque é que se escrevem livros?

Porque aplicar uma solução sem compreender como se chegou a ela é o que fazem os robôs. E às vezes, isso é suficiente; às vezes, só precisamos de saber que peça usar, que linha de código escrever, e que ingrediente escolher.

Mas a maior parte das vezes, não; o raciocínio é precioso, porque nos ajuda  a tomar uma decisão em condições que são semelhantes mas não exactamente iguais às descritas no cenário original. Conhecer o caminho ajuda-nos a criar adaptações.

Mesmo que raciocínio não seja necessário para assimilar a solução, o contexto pode ser. Um excelente exemplo disto é “O Alquimista,” de Paulo Coelho. Tudo o que o livro tem a dizer, é dito na última página. No entanto, se pularmos para a ultima página sem ler o resto do livro, vamos achar que é um lugar comum; sabedoria de algibeira.

Ás vezes, é preciso viver os desafios para integrar a solução.

Os livros dão-nos a oportunidade de os viver sem os sofrer.

Fotografia: Pamela P. Stroud Flickr via Compfight cc

Sem Modo “Fácil”

Nos últimos dias, tive que ler um livro que estava muito acima da minha capacidade. Era um livro que presumia muito conhecimento anterior da minha parte. Tive que parar várias vezes para pesquisar o significado de palavras que desconhecia, e para consultar livros referidos na bibliografia.

Na nossa sociedade facilitista, seria fácil dizer que o livro era pobre, que era muito exigente, que não era didático.

Mas não é razoável exigir que todos os livros sejam escritos para leigos. Como é que é possível alcançar profundidade de conhecimento, se perdemos tanto tempo a fazer o reconhecimento da superfície? Não; uma obra que queira contribuir de forma significante para o todo, tem que assumir que o leitor já passou pelas bases.

Acabei por fazer a entrevista, e acho que não fiz má figura. Domino o material? Não, nem um pouco. Consegui reter algumas ideias, alguns princípios, consigo ter uma discussão inteligente sobre o livro e o material que lá está, mas precisaria de mais algumas (muitas!) luas para saber implementar o material.

Mas o simples projecto, o esforço destes ultimos dias, obrigaram-me a ser um leitor mais focado, mais rigoroso, obrigaram-me a fazer notas e a construir muito bem as minhas questões. É um “subir de nível” que só foi possível porque me atrevi a atirar-me a um livro mais forte do que eu.

Atreve-te também.

Pintura: “A Forja de Vulcano” por Francesco Bassano

Citação II

Para ponderar no fim-de-semana, uma citação que sublinhei recentemente, e me tem estado na cabeça:

“Confia em Deus – mas primeiro, ata o teu camelo.”

— Ditados do Profeta,  “Caravana de Sonhos”, por Idries Shah

Não vale a pena viver uma vida de medo e ansiedade. A maioria dos infortúnios que nos atormentam – como dizia Mark Twain – nunca chegam a acontecer. Encarar a vida com confiança que tudo se resolverá pelo melhor podem nem sempre ser a atitude mais realista, mas a alternativa é sofrer por coisas que ainda não aconteceram.

E no entanto, é verdade que a sorte é algo que acontece àqueles que se colocam em posição para a receber. Nunca ninguém ganhou a lotaria sem jogar. O que parece um sucesso da noite para o dia a quem está de fora, levou na realidade uma vida de tentativas falhadas. E aqueles que dormem de porta destrancada serão assaltados mais facilmente do que os que trancam portas e janelas…

Todos nós estamos à mercê da fortuna. Mas podemos sempre escolher como jogamos as cartas que nos calharam.

Pintura: “A Caravana” por Alexandre Gabriel Decamps