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O Lobo Que Falava

aqui a primeira parte desta história curta.


Mas nada aconteceu. A dor que Eregar aguardava nunca surgiu. O escudeiro abriu os olhos e à sua frente continuava o focinho do lobo gigante, o bafo branco das suas narinas a ser expelido directamente para cima dele. 

“Ainda acordado, cria? Bom. Talvez ainda sirvas para algo.”

O lobo fala?

“Eu falo, sim, cria. E quero que me faças um serviço, em troca da tua vida. Antes, tenho que te largar, e ficas avisado de que se ergueres a tua espada contra mim, morrerás como o resto da tua alcateia.” Com estas palavras, a fera recuou alguns passos.

“O que és tu? És um demónio?” Perguntou o escudeiro, à medida que se levantava, livre do imenso peso do animal.

O lobo sacudiu a cabeça, com um ar irritado. 

“Não sei o que é isso. Eu sou Shak-Urai, a alcateia é Shak-Urai. Em tempos fomos grandes, hoje vocês estranham a nossa fala, estão habituados a… cães. Matilhas.” O lobo cuspiu as últimas palavras. “Não importa. Um serviço para mim, sim? E viverás, como a tua alcateia não viveu?”

Eregar sentia-se doente. Certamente era um demónio que habitava o corpo deste animal, e aceitar a barganha seria condenar a sua alma. Mas ao mesmo tempo, o guerreiro temia pela sua vida.

“Que serviço é esse?”

“A doença do sangue! A doença do sangue. Tudo fica como a lua vermelha e a carne mastigada e tenho que fugir da alcateia ou magoar, magoar e despedaçar, como fiz com a tua. O homem quente deu a doença do sangue. Feiticeiro, sim? Não consigo aproximar, encontrar cura, muito fogo, fogo que queima. Mas tu, homem como ele, sem medo de fogo, trazes a cura, sim?”

Talvez ele pudesse mentir? Fugir, e voltar com os seus irmãos para caçar a besta? Certamente mentir a um demónio não seria pecado.

“A tua face é fácil como um lago, cria-de-homem. Podes ir, e não-ajudar, mas quando a doença voltar, vou magoar, magoar e despedaçar, e depois a culpa é partilhada, por mim e pelo homem quente e por ti, sim? Culpado, culpado, culpado! E sangue a correr, de crias e homens!”

Eregar deu um par de passos para trás. O demónio conseguia ler a sua mente? Ou a sua face era assim tão transparente? Mas enfim, parecia que ele se tinha orientado por um caminho por onde só podia agora avançar. Talvez com tempo, a Deusa lhe revelasse outras opções.

“Onde encontro esse feiticeiro que te amaldiçoou?”   

“Nas montanhas a sul! Para o sul e para o oeste, pelo trilho das pedras-vermelhas. Tocas de coelho e árvores-espinho. O pio do mocho guia-te! Homem-de-pedra no topo, sim! O homem mau vive lá, dentro do homem-de-pedra. Vai! Vai, enquanto a lua vermelha e o sangue quente não voltam!”

E com um rugido, o lobo gigante deu meia volta e saltou para o meio da vegetação, desaparecendo tão rapidamente como apareceu, e Eregar ficou sozinho entre os cadáveres dos seus irmãos.

O Carreiro no Bosque Dentes-de-Navalha

O jovem guerreiro saiu da estalagem com a pressa de um homem a fugir de um edifício em chamas. Recebeu-o a noite fria e escura. Trazia um cobertor sobre os ombros, enrolado à volta do pescoço, numa tentativa de se resguardar do frio a que a falta do casaco o expunha. O suor congelava nas pontas dos seus cabelos negros curtos, criando pérolas que combinavam com os seus olhos cinzentos.

Nem o ar frio, nem a neve gelada que pisava o pareciam desalentar, da maneira como corria em direcção à floresta. Nem tão-pouco as vozes dos que o chamavam de volta, da porta da estalagem. O frio não era importante, mesmo este frio intenso no cerne da época do Gelo. As vozes também não interessavam. Pertenciam a pessoas afáveis, pessoas a quem o guerreiro devia a sua vida, mas não eram seus irmãos. Não eram aqueles que Eregar tinha abandonado no meio da floresta.

Chamavam-lhe a floresta dos Dentes de Navalha, por ombrear com os Montes-Navalha, e pela agressividade dos animais selvagens daquela região. Eregar não se cruzou com nenhum à medida que cambaleava por entre os arbustos e pinheiros até chegar ao trilho por onde ele e os seus irmãos tinham passado há horas atrás. 

As pegadas do grupo de cavaleiros ainda estavam frescas na neve. O peito doía-lhe em virtude do esforço súbito,  e à medida que o ar quente saía da sua boca sob a forma de névoa branca, também o frio entrava cada vez mais e começava a fazê-lo tremer. Mas o guerreiro ignorou a dor e o desconforto, e continuou a corrida pela floresta adentro. Até chegar à clareira.

Ali estavam – o que restava deles. Os seus irmãos tinham sido trucidados enquanto ele escapara. Eregar caíu de joelhos no gelo, e a vergonha era a única coisa que o impedia de chorar. Yingmir, Orbus, Luut e os outros, nem um sequer dos seus irmãos havia sobrevivido. Estava ali, à sua frente, naqueles metros de terra batida por entre a floresta, o cenário da maior chacina que Eregar tinha visto na sua curta carreira como Escudeiro da Torre. Aqui e ali jazia uma perna, um braço, por vezes uma cabeça. O guerreiro aproximou-se de um dos corpos mais intactos, tentando averiguar a sua identidade, mas as feridas tornavam-no irreconhecível. 

Eregar não sabia que tipo de criatura poderia ter causado aquilo. Antes, foram sombras e rugidos e gritos que o fizeram perder a cabeça, correr pela floresta adentro até tropeçar e perder consciência. Não tinha visto o atacante, mas sentira no seu âmago que não era algo da natureza. 

E agora, pensou pela primeira vez o jovem, o que quer que tenha sido, está por perto. Perto de mim, e estou sozinho.

O guerreiro sacou da sua espada. Não tinha nenhum alvo em vista, mas o brilho do aço na sua mão ajudava-o a acalmar-se. Na sua outra mão, o seu novo escudo, brilhante com os três flocos de neve da sua ordem, cruzados por um sabre, também o fazia sentir protegido. E foi precisamente quando o seu coração se começava a acalmar que ouviu o que lhe pareceu ser um riso seco e gutural – atrás de si!

Quando se virou, já era tarde demais para se desviar, e o impacto no seu escudo prendeu-lhe o braço contra o peito, ao mesmo tempo que o atirou ao chão. 

Em cima dele estava agora um enorme lobo, maior do que um boi, com uma das patas a prender-lhe o braço de escudo, e a outra, o braço de espada. O seu focinho pairava directamente acima da cara de Eregar, e o escudeiro conseguia cheirar o sangue fresco no hálito do monstro. 

Deusa, pensou ele, perdoa a minha fraqueza. Assim me vou.

O Gato Que Via

O  bazar era um turbilhão de cheiros e sons, mas Jamaal já estava habituado. Anos a viver com humanos tinham-no habituado a focar os seus sentidos apurados e bloquear aquilo que não era importante. O cheiro doce de pêssegos maduros. O ligeiro espremer da faca que cortava uma fatia de melancia molhada. Os guinchos de macacos enjaulados, e o cheiro alcoólico de licor de morangos fermentados. Tudo isto e muito mais era pano de fundo para aquilo que lhe interessava, o cheiro que ele procurava desde o dia anterior, aquela marca individual que cada ser tinha. 

Teria sido mais fácil no Reino Sagrado de Lohan, onde os únicos felinos era os gatos caseiros. Aqui, os cheiros eram muito mais difíceis de  distinguir, e o homem-tigre deu por si a perder o rasto várias vezes.

O caçador fechou os olhos, e inspirou. Era como beber uma caneca de sopa e tentar  adivinhar os ingredientes pelo sabor final. Um traço disto, um pingo daquilo, um pózinho daqueloutro. E finalmente… ali!

O caçador meteu-se por entre um balcão cheio de abóboras da cor do por-do-sol, e uma bancada com figos secos expostos para inspecção das massas de compradores. Espremeu-se por entre tigres, panteras e leões em túnica e turbante, e entrou num espaço escuro entre dois prédios, tão estreito que tinha que se deslocar de lado. 

Era quase sufocante, o aperto. Estava a aquecer, e as paredes estavam cada vez mais próximas. O calor distorcia o ar, e parecia impossível tanto Sol bater num espaço tão estreito entre edifícios. Talvez fosse uma boa altura para parar, encostar-se à parede, descansar…

Jamaal cerrou os dentes. Estava perto. Tinha que continuar. Pela Aurora.

As paredes continuavam a estreitar, eram os maxilares de um jacaré a tentar prendê-lo. O homem-tigre não parou de avançar, colocou um braço contra cada parede – o tijolo que devia ser fresco estava a ferver! Jamaal sentia os braços a queimar, sentia o cheiro a pêlo esturricado.

Não, pensou. É impossível. Só mais um pouco.

Com um rugido, o caçador empurrou as paredes para os lados, e avançou a largas passadas em direcção ao fim do corredor. Quanto mais avançava, mais distante parecia a saída, esticando-se até ao horizonte. 

“Basta de brincadeiras!” Rugiu. “Revela-te!”

À sua frente apareceu uma parede onde não tinha havido nenhuma, os seus tijolos vivos com um movimento viscoso e sons sibilantes. Serpentes do tamanho do seu braço deslizavam por cima dela, voltando-se para o tigre com olhos dourados e presas cintilantes.

Jamaal fechou os olhos, cobriu a cara, tomou balanço, e com dois passou longos, saltou contra a parede.

Os tijolos e as cobras desfizeram-se em pedaços de cristal. Os seus pés aterraram em chão fresco, e o cheiro a queimado desapareceu do seu corpo. Uma frescura invadiu-o. Jamaal abriu os olhos.

Estava num pátio soalheiro com uma grande fonte, que cuspia das suas cinco bicas água azul, cristalina. À sua volta, passavam os transeuntes de Jahaara, ocupados com os seus afazeres, como se nada se tivesse passado. Nenhum lhe tocava, todos se desviavam, mas desviavam-se como quem é empurrado pelo vento, não pareciam vê-lo, ninguém olhava para ele.

À sua frente, deitado de barriga no parapeito da fonte, com uma pata negra descaída em descontração, estava o Gato que Via.

“O que é que um ser como tu pode possivelmente temer?” Perguntou Jamaal, na sua língua natal. “Quem te assusta tanto, que te recusas a me responder?”

Medo. Não alguém, o quê. Imagens do gato. Escuridão. Uma palavra fixou-se na cabeça de Jamaal: Nome. Mais imagens: a sala onde se deu o crime, as Três sentadas com olhos severos. As portas do armário dourado abriram-se. Vazias. Uma palavra: Nome. Uma emoção: Medo.

Jamaal ficou de boca aberta. “Mas nesse armário, é onde guardam…”

Medo. Morte. Sofrimento.

“Não o podemos deixar escapar! Ajuda-me. Ajuda-me, e trazê-mo-lo à justiça!”

Uma palavra: Nome. Uma emoção: Tristeza.

Jamaal baixou as orelhas, e franziu as suas sobrancelhas farfalhudas. “Outra vez o nome. Ele sabe o teu nome… E por isso, tu não podes ajudar? O teu nome dá-lhe poder?”

Desespero, e depois, aceitação.

Jamaal cruzou os braços. Não tinha como convencer o Gato a ajudá-lo. O ser mágico, ao que parecia, só seria controlado através do nome.

Maldição! Tinham estado tão perto. Se ao menos ele soubesse quem estava a tentar incriminar Aurora…

Uma nova imagem surgiu-lhe na mente: mais uma vez, a sala da torre.

“Quem foi, está lá?”

“Miau.”

Mais uma vez, Jamaal o queixo de Jamaal caiu, e manteve-se caído. O homem-tigre olhou o gato preto nos olhos, fez uma rápida vénia, e voltou-se, a correr disparado pela rua abaixo. Não havia tempo a perder.