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Uma Lua Prateada

Normalmente não uso este espaço para promover o conteúdo da metade inglesa do blog,  mas hoje é um dia especial: acabei de publicar o meu primeiro livro em inglês, “A Silvery Moon,” uma aventura passada no mesmo mundo d’ “A Filha do Gelo.”

Podem descobrir mais aqui.

(Por enquanto apenas disponível em formato e-book; aguardo a prova da edição em papel para a semana.)

A Máscara da Lua Eterna – 1 – A Senhora e o Mercenário

Sahal pousou a pena amarelada no tinteiro que estava à sua frente, e levantou o seu olhar do contracto que estava a rever. Os seus olhos negros dirigiram-se à fonte do barulho que lhe tinha chamado a atenção, a abertura das portas de madeira que conduziam aos seus aposentos.

A mulher tinha a pele branca, pálida como a lua, e o seu vestido negro como a noite escorria em cascata até ao chão. No centro deste contraste, o lenço vermelho-vivo que trazia enrolado ao pescoço brilhava como o maior farol do maior porto de Eléssia.

Os guardas estavam mortos, claro, pensou o comandante do maior exército mercenário a leste do Reino Sagrado. Nunca teria alguém chegado até ele sem ser anunciada, não fosse esse o caso.

Sem dizer palavra, a mulher deu um passo em frente, flanqueada pelo corredor de prateleiras onde estavam depositados troféus e espólios de dezenas de campanhas – armas de príncipes e reis, obras de arte vindas dos mais belos palácios, livros raros provenientes das mais ricas bibliotecas reais. O caminho até Sahal era longo, mas ela não parecia ter pressa.

Sahal deixou-se repousar, encostando-se às costas do seu cadeirão. A maioria dos homens teria começado a termer ao ver que, sempre que o passo lento da mulher a fazia passar por um dos castiçais presos às prateleiras, as velas apagavam-se. Quanto mais ela se aproximava, mais escura ficava a sala. Mas Sahal não era como a maioria dos homens, e em vez disso, esboçou um sorriso branco na sua cara bronzeada pelos raios de dezenas de sóis. Ele sabia com quem estava a lidar.

Memphalarissala. Uma criatura de lenda, talvez a última vampira superior em todo o mundo. Vampiros eram bestas mitológicas, claro, quase esquecidos no folclore de Eléssia. Todos tinham sido exterminados ou para sempre selados, há muitas gerações. Mas quando os exércitos da Filha do Gelo surgiram das planícies geladas para conquistar as cidades-estado do norte, alguma alma incauta quebrara o selo que aprisionava Memphala no sono eterno. E agora, talvez pela primeira vez em milénios, uma vampira superior caminhava por entre os mortais.

Quase ninguém no mundo o sabia, claro. Para o comum mortal, o sobrenatural só existia em histórias. Mas para Sahal, saber aquilo que mais ninguém sabia era elemento fundamental para a sua sobrevivência. E assim, ele sorria perante o avanço da lenda, mas a sua mão direita repousava sobre o punhal de uma adaga de prata.

A vampira parou em frente à secretária onde se sentava o comandante dos Corvos das Areias. A chama da vela que nela repousava tremeu, ameaçou apagar, mas não apagou. Era agora a única luz na sala, e iluminava a irresistível silhueta da mulher de negro.

Sem dizer palavra, movendo o braço com a mesma rapidez com que ataca uma víbora, Memphala atirou um saco de pano para cima dos papeis que estavam em frente a Sahal. Ao repousar na secretária, o saco abriu-se, e dele surgiu uma maré de dobrões de ouro, que escorreram para o colo de Sahal e para o chão.

Sahal olhou para a vampira, erguendo uma sobrancelha. E o seu sorriso dobrou de tamanho.