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A Filha do Mar

Há uma certa qualidade que só o tempo nos traz. Quem conta histórias há tempo suficiente, com consistência e sem ordenhar os seus mundos e personagens de forma predatória, consegue erguer uma grande obra, bem alicerçada. 

A maioria dos produtores de videojogos cria décadas de história para um só produto. Uma canção pode referir-se a eventos de há 10 anos atrás no mundo de jogo, mas é uma medida de tempo artificial – o jogador sente que a génese da canção e da história que lhe deu origem é a mesma. 

A produtora de videojogos Bioware sofre disso: sempre a pular de universo em universo em função das modas, da criatividade volátil, quase infantil dos seus artistas, e das exigências dos seus investidores, nunca consegue que os seus mundos criem um passado histórico de forma orgânica. Tem que ser tudo pensado de uma assentada, ou ao longo de uma única geração de consolas.

No extremo oposto, e mais raro: a produtora Blizzard cultiva os mesmos universos há mais de vinte anos. Pode-se discutir o quão manchada a sua arte se foi tornando, em virtude de crescente pressão corporativa. Mas não se pode negar a consistência narrativa. O resultado é que em 2018 podem lançar uma obra musical baseada em factos “históricos” com 15 anos de existência, não em tempo no universo de jogo, mas no nosso tempo.

Há aqui mais do que um orçamento colossal e talento artístico impecável. Há uma vivência, uma história que refinou com o passar dos anos. Aposto que várias pessoas que trabalharam nisto estavam há quinze anos a viver os eventos que são hoje retratados em canção.

A maioria dos produtores de videojogos parece pensar que dinheiro faz arte. O dinheiro ajuda. Mas o que faz arte são os anos.

Cuidado com o conhecimento que não conquistaste

Ele tinha merecido o conhecimento, golpe de espada a golpe de espada, feitiço a feitiço, conquista a conquista. Não era algo que tivesse herdado, algo que visse como seu direito por nascença.

Era algo que ele entendia, e isso separava-o dos jovens príncipes Mogu que observavam o seu domínio. Como ele entendia o conceito, conseguia aplicá-lo. Sentia-o como os movimentos das marés. Já eles olhavam de cima, viam o que queriam ver, ouviam o que queriam ouvir.

— Shadows of the Horde por Michael Stackpole

É esta a diferença entre possuir algo e conquistá-lo. O que é recebido de mão-beijada raramente é valorizado, não por desrespeito, mas por ignorância.

Aqueles que conquistam as coisas conhecem a sua complexidade.

Coisas Começam a Despertar

O teu pai pouco te ensinou, criança. Tens vivido nesta ilha, ignorante ao mundo para lá do mar e ao que se passa nele. Mas há coisas a acordar para lá do Sol nascente, coisas que começaram a despertar antes mesmo de teres nascido, e que cada vez mais se rebolam, se mexem, como tu por vezes demoras a sair da cama, a largar o sono preguiçoso. 

Mas estes seres – monstros, espíritos, criaturas, deuses, o que lhes queiras chamar – estes seres dormiram durante gerações, e o seu despertar foi lento. Foi lento, mas está a chegar a vias de facto. E nós, pobres, pequenos, frágeis humanos… Nós vamos ter que aprender a viver neste mundo novo.”

— As palavras da hermita Treia no despontar do último ano do Gelo Negro, conforme registadas no diário de Helena, a primera Arqui-feiticeira.