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O Sonho

As patas de Aurora sentiam-se suaves contra o chão de pedra rija. Ela estava a correr, nariz rente ao chão. Com a lua sobre si, ora saltava sobre um muro, ora trepava sobre um parapeito. Era estranho, mas, ao mesmo tempo, era familiar. 

Por vezes a lua desaparecia por detrás de um dos edifícios mais altos, ou obscurecida por uma das muitas pontes que os ligavam entre si, mas a escuridão não lhe retirava o embalo. Ela sentia o espaço à sua volta, à sua frente, e não parava de correr. Continua a ser correr quando não é sobre duas pernas? 

E porquê? Ela… Ela lembrava-se de ter duas pernas. Isto não parecia… Era estranho? Mas ao mesmo tempo, era ela… Era…

Aurora piscou os olhos. A sacerdotisa estava na rua, frente a frente com um gato preto. Um gato que a fitava com um único olho âmbar brilhante: o outro estava coberto por uma cicatriz. Na noite escura, olho quase-dourado brilhava de forma intensa.

“Miaaau.” Disse o gato, e sumiu por entre edifícios. 

Aurora pestanejou, e olhou para as suas mãos. Estavam sujas, mas eram mãos, não patas. Sentia os joelhos doridos, e a luz ténue do luar não a deixava perceber bem, mas imaginava que o seu vestido de dormir estivesse esfarrapado.

Porque é que ela aqui estava? Não se lembrava de nada para além de se ter deitado quando o sol se pôs…

Reparou então que à sua frente estava um edifício invulgar. A maioria dos edifícios de Jahaara eram cúbicos e rectangulares, sempre com terraços em vez de telhados, para que os seus ocupantes se pudessem estender ao sol e ao luar. Eram relativamente rasteiros, nunca tinham mais de três andares. Já este, à frente dela, era formado por três torres geminadas, cada uma mais alta e mais fina que a outra, cada uma coroada com uma abóbada redonda.

A sacerdotisa sentiu um arrepio, e cruzou os braços em frente ao peito.

Fotografia: Little Sadie Flickr via Compfight cc

Practicar por Diversão

É bom estar sempre a praticar, praticar todos os dias, mas que não seja sempre trabalho. O artesão mantém suas ferramentas afiadas, divertindo-se. 

Leva isto em conta na tua própria arte – volta a divertir-te com ela, em vez de o fazeres constantemente por responsabilidade e em prol de grandes projetos. 

A tua arte pode ser séria e divertida ao mesmo tempo, e de facto deve ser, se ambicionas atingir qualquer nível significativo de habilidade.

“Brincar” é uma forma de conhecer melhor e ganhar prática com as ferramentas do ofício.

A Filha do Mar

Há uma certa qualidade que só o tempo nos traz. Quem conta histórias há tempo suficiente, com consistência e sem ordenhar os seus mundos e personagens de forma predatória, consegue erguer uma grande obra, bem alicerçada. 

A maioria dos produtores de videojogos cria décadas de história para um só produto. Uma canção pode referir-se a eventos de há 10 anos atrás no mundo de jogo, mas é uma medida de tempo artificial – o jogador sente que a génese da canção e da história que lhe deu origem é a mesma. 

A produtora de videojogos Bioware sofre disso: sempre a pular de universo em universo em função das modas, da criatividade volátil, quase infantil dos seus artistas, e das exigências dos seus investidores, nunca consegue que os seus mundos criem um passado histórico de forma orgânica. Tem que ser tudo pensado de uma assentada, ou ao longo de uma única geração de consolas.

No extremo oposto, e mais raro: a produtora Blizzard cultiva os mesmos universos há mais de vinte anos. Pode-se discutir o quão manchada a sua arte se foi tornando, em virtude de crescente pressão corporativa. Mas não se pode negar a consistência narrativa. O resultado é que em 2018 podem lançar uma obra musical baseada em factos “históricos” com 15 anos de existência, não em tempo no universo de jogo, mas no nosso tempo.

Há aqui mais do que um orçamento colossal e talento artístico impecável. Há uma vivência, uma história que refinou com o passar dos anos. Aposto que várias pessoas que trabalharam nisto estavam há quinze anos a viver os eventos que são hoje retratados em canção.

A maioria dos produtores de videojogos parece pensar que dinheiro faz arte. O dinheiro ajuda. Mas o que faz arte são os anos.