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A Lenda das Rosas

Danilo era um homem sábio para a sua idade. Fora um dos mais jovens a ser ordenado sacerdote, não em pequena parte devido ao conhecimento que adquiriu em extensas viagens pelas partes mais ou menos civilizadas de Eléssia. O seu mestre, um diplomata, viajara desde a Torre, no extremo mais nortenho do mundo conhecido, até às florestas tropicais das ilhas perdidas do Sul, onde viviam guerreiros que veneravam as árvores e tinham a pele negra como a noite.

Mas o seu mestre não era, realmente, um diplomata. A sua missão sagrada era a de caçar o sobrenatural, os monstros que tinham sobrado como relíquias de um tempo em que a magia ainda governava o mundo, antes de se ter extinto há eras atrás.

A magia estava extinta, mas alguns ecos sobraram, e, em virtude das suas viagens e da tutela do seu mestre, Danilo era uma das poucas pessoas em Eléssia que via tais coisas como mais do que contos para criança.

Quando o seu mestre viajou por Lohander, Danilo estudou com algum interesse o panteão do Deus-Sol, e o papel da família imperial. As filhas da família imperial, sem excepção, estavam fadadas a ser sacerdotisas, e uma delas, uma vez na sua vida, tinha o destino de ser abençoada pelo Deus-Sol: de fazer um milagre. Este milagre era o sinal de que seria ela a próxima imperatriz, e a pessoa responsável por escolher o próximo imperador.

Isto, diziam os homens de Lohan, era a prova de que o seu Deus era o Verdadeiro Deus. Pois que argumentos poderia haver contra uma divindade que permitia, a cada geração, um milagre palpável?

Mas para Danilo, isto provava mais do que a existência de um ser divino. Isto provava a existência do sobrenatural. Se uma escolhida poderia ter acesso a tais poderes, então não seria de dar ouvidos a outros contos improváveis?

E um desses contos improváveis, sussurrado por quase todo o povo de Lohan, mas nunca em frente a estrangeiros, dizia respeito às Rosas.

As Rosas. Havia sempre três. Três mulheres, criadas em extremos opostos do Reino Sagrado, treinadas rigorosamente em mosteiros até as suas predecessoras falecerem, e lhes ser passado o manto de Rosa. Três campeãs do Deus-Sol, abençoadas com o seu poder, abençoadas com o poder de unir o mundo do real com o mundo dos sonhos, de abrir uma pequena janela para o que poderia ter sido, ou poderia vir a ser, e transportá-lo para o agora.

O povo de Lohan, como já fora dito, evitava falar disto perto de estrangeiros, e cedo outras preocupações tomaram conta da atenção do jovem Danilo.

O seu interesse na lenda das Rosas foi-se, e a história ficou esquecida nos recantos da vasta biblioteca que se estava a formar na sua mente.

Até agora.


O meu primeiro livro de ficção fantástica está disponível na Bertrand, na Wook e em formato digital através da Amazon. Mais de duas mil pessoas já o leram. Espero que sejas o próximo(a).

Fotografia por: chiaralily Flickr via Compfight cc

O Som do Silêncio

Custa-me trabalhar com audio, porque é preciso silêncio. Quando estou à procura de diferenças de volume entre faixas, ou de artefactos para cortar, não me posso dar ao luxo de estar a ouvir música, ou o som da chuva.

Antes do trabalho como Podcaster me forçar a silenciar os barulhos de fundo, não me tinha apercebido de como eles me eram essenciais. Sempre me julguei um amante do silêncio – é completamente impossível trabalhar com pessoas a falar, mesmo que não estejam a falar comigo. 

Não é que o silêncio me perturbe. Mas também não inspira. Já sons ambientes (chuva, pássaros) ou musica (especialmente instrumental) ajudam a lubrificar a mente. Acho que comecei a colocar auscultadores ou música alta como uma forma de “fechar a porta”, de não ter que ouvir os outros. Mas a certo ponto, o som tornou-se parte do processo.

Todos mudamos. Mas raramente mudamos de acordo com um plano. Mudamos, isso sim, como consequência das nossas acções – e muitas vezes, sem nos apercebermos da mudança.

Fotografia: Visavis.. Flickr via Compfight cc

Dezasseis anos de ene3

A ene3 foi um projecto fundado em 2002 pelo DJ_MiND, numa era em que a internet ainda era movida a telefone e os modems faziam barulhos diabólicos sempre que se ligavam. Juntando um punhado de amigos dos fóruns do Sapo, o DJ criou um site dedicado à divulgação dos jogos e consolas da Nintendo, em Portugal – e pouco depois, expandiu-o para abranger todas as plataformas.

A data altura da vida do site, encontrei-me como custódio do mesmo. Nem sempre fiz o melhor trabalho, e tentei, algumas vezes, com diferentes níveis de sucesso, passá-lo a pessoas com maior capacidade do que eu. Mas acaba sempre por voltar às minhas mãos.

Hoje a ene3 ( www.ene3.net ) faz 16 anos. Não foram 16 anos de actividade, porque às vezes a vida mete-se no caminho. 

Não sei ao certo o que fazer com ela, admito. A minha relação com os videojogos não é aquela que já foi; cada vez os acho menos dignos de qualquer tipo de análise para além da mais superfícial. Todas as semanas luto com essa ideia, tento aprender um pouco mais sobre videojogos, sobre o que representam, sobre o seu valor como forma de expressão artística, para criadores e para jogadores. 

Onde está a linha entre a arte que merece – que carece – de alguém que discurse sobre ela, e a mera monetização do desperdício de tempo, a alienação e zombificação de mentes suscetíveis sem qualquer contrapartida para a valorização individual?

Não sei. Sei que não se escreve quase nada de valor sobre videojogos. Não se fala quase nada de valor sobre videojogos. É lixo sobre lixo, e quem lê isto a pensar que é excepção, desengane-se. A lei das probabilidades coloca-te nos 99.9%, não nos 0.1%. Mas eu também não sei fazer melhor. Somos todos formigas a sonhar que são gigantes – e somos assim por ignorância, por arrogância, porque não conhecemos os gigantes. Porque não conhecemos suficiente filosofia, música, cinema, literatura. Porque nos foi vendido um sonho de consumismo e luxúria como arte.

E é por isso que a ene3, no seu 16º aniversário, não está a funcionar.

Porque não vale a pena fazer algo quando não se o vai fazer bem. Não vale a pena ser mais um a berrar num mundo de ruído. 

Foram 16 anos de ene3. Não sei dizer ao certo quantas das coisas boas na minha vida surgiram da ene3, mas acredito que tenha sido a maior parte. Não sei se teria o trabalho que tenho hoje sem os conhecimentos que adquiri na ene3. Não sei se seria escritor, não tivesse sido o acesso a essa plataforma, que me permitiu praticar e levou a minha escrita aos jornais, à televisão, à rádio – aos leitores.

Muito obrigado a todos os que apoiaram, como colaboradores ou leitores ou ouvintes, pontualmente ou consistentemente, a ene3 nestes últimos 16 anos. Se alguma vez a ene3 regressar ao activo, será pela inspiração, pelo respeito, e pelo sentido de responsabilidade que sinto para convosco.