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Fole

Não poderá o espaço entre o céu e a terra ser comparado a um fole?

Se esvazia, e no entanto não perde o seu vigor;
Se manuseia novamente, e eis que expele ar mais uma vez.
Muita conversa, à rápida exaustão vemos levar;
Guarda o teu eu interior, e mantem-no livre.

— Fracção do Tao Te Ching, parte 5

O difícil não é escrever todos os dias. Qualquer um sabe escrever, tal como qualquer um sabe falar. O difícil é bater nas teclas (ou abrir a boca) e fazer sair algo de valor. A “escrita fiada” é onde muitos tropeçam.

O escritor tem que expôr o seu eu interior. Arrisca-se a ser mal interpretado, ou às vezes, ainda pior: a ser plenamente entendido, e julgado inadequado. Mas fazer qualquer outra coisa? É escrita fiada.

Deixando a Aldeia

Edu juntou-se ao grupo de crianças que se formara no meio da aldeia. Um par de homens que usavam casacos de pele de urso a cobrir armaduras de cabedal negro acendiam archotes e distribuíam-nas pelo grupo. Todos os rapazes eram mais velhos que Edu, mas nenhum maior do que dezasseis, e todos vestidos em tons que espelhavam os dos guerreiros. Alguns já iam à escola há muitos anos, enquanto outros tinham apenas começado o ano passado. Cada um recebia o seu archote com um ar solene.

O pai de Edu apertou-lhe o ombro. O rapaz olhou para trás viu o seu pai trocar olhares com um dos homens, dar um aceno rápido com a cabeça. O ferreiro voltou as costas para o seu filho, e voltou para dentro de casa. 

Edu começou a voltar-se para trás, queria ir atrás do pai, voltar para a mãe e para junto dos irmãos. Mas antes do rapaz terminar o movimento, chamou-o uma voz rouca, à qual o silêncio matinal conferiu a clareza de um grito:

“Aproxima-te, rapaz.”

Edu inspeccionou o homem de alto a baixo. Era mais novo que o seu pai, de olhos e barba negros, e cabelos encaracolados do mesmo tom. O rapaz sentiu um arrepio ao ver a cicatriz que lhe corria da orelha direita ao queixo, um rasgo feio e irregular. Depois o seu olhar desceu para a torre estampada sobre o seu peito direito, e seguiu para mais baixo ainda, para o machado que o guerreiro trazia preso à cintura.

“Bem!” Grunhiu o homem, ajoelhando-se para ficar mais próximo do rapaz. Os seus olhos de Edu já lhe tinham chegado às botas, e por aí se tinham deixado ficar. “Tens nome, rapaz?”

“Edu, senhor.”

“Muito bem. E sabes o que se vai passar agora? Os teus amigos mais velhos e os teus pais contaram-te o que nos espera?”

“Sim, senhor.”

“Muito bem.” O guerreiro ergueu-se e passou a mão pelos cabelos de Edu. “Temos que estar na escola ao amanhecer. Depois de teres feito o caminho algumas vezes, confia-mos-te uma tocha, mas por enquanto, concentra-te em ficar junto de nós. Aconteça o que acontecer, não te separes do grupo. Se algo surgir, usa aquilo que o teu pai te deu. Entendido?”

“Sim, senhor.”

“Certo.” O homem voltou-se para o seu par. “Boris, já está falado. Os outros, estão prontos?”

“Estão.” Disse o segundo homem, este grisalho, com uma juba que lhe cobria o casaco preto até ao peito, ocultando o símbolo da ordem quase por completo. Tinha o nariz torto e um olho meio fechado. Lembrava a Edu a imagem de um urso velho.

“Vamos, rapazes! Vamos para a escola! Em frente, em fila, dois a dois, e não se separem. Adiante!” Chamou, acenando no ar com um archote. Dois a dois, os rapazes foram avançando atrás de Boris, o urso, em direcção aos portões da vila. As botas a enterravam-se na neve a cada passo, deixando um trilho atrás das crianças.

“Tu vens comigo.” Disse o primeiro homem a Edu, ao tomar o seu lugar no fim da fila.

As Três Rosas

“Desembarquei no Reino Sagrado,

Vindo do Mar, que de rosas não faz agrado,

 

Fui para Sul, ao longo da costa,

Somente para colher uma Rosa,

E dela recebi um beijo,

Cheio de Paixão e Desejo.

 

Fui então para Leste,

Somente para colher uma Rosa,

E nas suas pétalas vi o Futuro,

Fruto do ventre, Casto e Puro.

 

Apressei-me para Norte,

Somente para colher uma Rosa,

E cedo desejei voltar à costa,

Nada encontrei, senão Guerra e Morte.”

 

— Grespo Ramirez, Bardo, “As Três Rosas”