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A Prenda Mais Importante Que Podem Oferecer Hoje

Às vezes, vale a pena fazer as coisas que gostamos.

Quando descobri que o Felipe Pepe estava a recrutar voluntários para o ajudar a criar um compêndio da história dos RPGs de computador ( odeio a tradução directa, portanto, para os menos familiares, adianto apenas que a sigla significa “Role-Playing Games”, e fiquemo-nos por aí) soube imediatamente que queria participar.

Nunca imaginei que um dia, esse meu trabalho visse a ser parte de um livro em papel, e muito menos um livro cujos lucros do autor fossem 100% concedidos à caridade – neste caso, à instituição Vocação, que dá formação e encontra emprego para os jovens nas áreas mais desfavorecidas do Brasil. 

Mas assim aconteceu. Podem encomendá-lo aqui, e façam-no sabendo que uma vez feita a primeira impressão, acabou-se. É uma tiragem única e limitada.

Só posso agradecer ao Filipe em triplicado:

Obrigado por ter engendrado um projecto tão apaixonante.

Obrigado por ter suportado os meus atrasos e editado as minhas palavras para melhor.

Obrigado por ter encontrado e tomado a oportunidade de usar esse trabalho para melhorar o mundo.

Nem sempre os video jogos são um desperdício de tempo.

Brechas – 4 – Dor

Frio.

Era esta a palavra? O corpo, este corpo-que-era-dela-mas-que-não-era, este corpo que treme, lembrava-se da palavra.

“F-f-frio.” Disse Sirja por entre dentes que batiam. “Frio” não existia no seu mundo.

Dor.

Uma das suas presas brancas cravou-se na carne suave do lábio, e o sangue começou a fluir pelo seu peito nu abaixo, o calor do líquido negro a fazer-se sentir na pele gelada.

Dor. Dor era-lhe familiar. O seu mundo era dor. A dor dela, a dor dos outros, a dor do próprio mundo. 

Deliciosa dor.

Um assobio cortou a noite escura. Sirja voltou-se para a sua origem. Lá ao longe, na outra ponta da estranha extensão de pedra lisa, um vulto, um homem, observava o seu… o corpo-nu-que-era-dela-mas-não-era.. com olhos predatórios. O estranho estava à beira da luz projectada por um daqueles pequenos fogos presos em gaiolas de vidro e metal, como se tivesse medo de se expor.

Tão fácil. 

Sirja encheu o peito de ar gelado, serpenteou o seu perfil ao desconhecido, acenou com a cabeça daquele corpo-que-era-o-dela-mas-não-realmente. E depois, atravessou o portal para dentro daquele sítio que tinha ouvido transeuntes chamar uma “casa de banho.”

Aqui havia mais luz. Sirja olhou para o seu reflexo na parede de cristal. O corpo que misturava as suas formas com os da… outra criatura… Era belo, curvilíneo, o isco perfeito. Que bem que este lugar a tratava, sim. 

Mas todo o sangue, o sangue da sua presa anterior, o sangue que a cobria quase toda… Não, não podia ser, ia espantar aquele cujos passos ecoavam cada vez mais próximos.

Sirja espetou uma das unhas-que-eram-dela-mas-não-eram, uma unha cortante e ponteaguda, no seu peito direito, mesmo abaixo da clavicula. 

Dor.

Começou a sair sangue negro, e cada vez mais, à medida que ela remexia o dedo, abria mais a ferida, cravava um buraco no corpo meio-emprestado.

Dor. Dor. DOR!

E a luz das lâmpadas da casa-de-banho foi chupada como um líquido por uma palhinha, para dentro do buraco negro que era a sua ferida auto infligida. 

O homem entrou dentro da casa-de-banho negra como o breu.

A predadora sorriu.

Fotografia: Georgie Pauwels Flickr via Compfight cc

Diários

Revisitar diários de há 10, 7 ou até 5 anos é fascinante. 

É motivante ver os objectivos que não só foram cumpridos, mas superados em muito até ao tempo presente. Hoje, há coisas na minha vida que ultrapassam os meus maiores sonhos de há meia década.

E também é uma injecção de humildade, ver o oposto – aqueles objectivos em que não ouve movimento, que escrevo no diário de hoje de forma quase idêntica.

Mas da divergência vêem as perguntas! “O que fiz de diferente que me deu tanto sucesso numas áreas, e tão pouco noutras?”

Há sempre a resposta base: foi uma questão de sorte. A Senhora Fortuna goza dos nossos esforços. Mas também não podemos deitar tudo aos seus pés. Há que encontrar um equilíbrio.

O diário é uma forma de dialogar com a pessoa que fomos há 10, 7, há 5 anos.

Se começares um este ano, podes estar a ter uma conversa importante daqui a cinco.

Passam num instante.