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A Queda

Magoei uma pessoa. E não foi por maldade, mas também não foi por acidente. Foi por matemática, por optimização. Foi puramente racional.

Tenho um problema em confiar nas pessoas – assumo o pior – e isso leva-me a tentar manter em aberto Planos B no caso das pessoas me desapontarem. No caso de elas se revelarem não ser aquilo que parecem ser.

Mas quando alguém se dedica e deposita confiança em ti, descobrir que existe um Plano B – que a pessoa é, essencialmente, substituível – magoa.

Este blog existe para partilhar as coisas que vou descobrindo, na minha viagem para me tornar um homem melhor. Desta vez, estive aquém desse ideal. 

Mas não quero deixar de documentar o facto. Há demasiados relatos de sucesso na internet. Toda a gente caí, mas ninguém fala disso.

Eu estou a falar disso, porque quero o registo aqui – para me ajudar a lembrar que posso e devo ser melhor.

Pintura: Nebuchadnezzar por William Blake

Não Sou o Teu Guru

Hoje isto vai ser uma recomendação curta – o documentário “Not Your Guru,” que retrata a experiência de participar no maior evento do catálogo de desenvolvimento pessoal de Tony Robbins.

Faço esta recomendação porque sei que muitos dos meus amigos e colegas são cépticos em relação ao mundo do coaching e do desenvolvimento pessoal. E eu compreendo isso. 

A verdade é que o mundo do coaching tem um custo de entrada que é virtualmente zero, e portanto atraí muitas pessoas sem qualquer talento, preparação, zelo ou mesmo vontade de trabalhar, que sentem que o seu carisma pessoal e ego inflacionado é suficiente para ajudar pessoas com problemas a sério. 

Eu já treinei para ser coach, já fiz cursos, e vejo bem o calibre de pessoas que a área atrai. É assustador.

Mas há um par de coisas que colocam o Tony Robbins à parte:

  1. Eu leio muitas biografias e entrevistas com pessoas famosas e bem sucedidas, e uma percentagem significante destas atribuíu parte do seu sucesso aos livros / programas / eventos do Tony Robbins. Isso não pode ser coincidência.
  2. Eu mesmo experimentei (mas nunca concluí) alguns dos programas dele, e fiquei impressionado com a qualidade de alguns dos exercícios e ferramentas linguísticas.

Acho que o documentário não é perfeito. Por um lado, foca-se muito nas intervenções que Robbins faz a utilizar o seu próprio método de psicologia caseira explosiva, em detrimento dos exercícios e ferramentas que vão trazer os verdadeiros resultados à maioria das pessoas.  Acho que essas coisas seriam melhor tratadas por um terapeuta licenciado, e acho um bocado manhoso quando coaches se põem a fazê-lo.

E por outro lado – e ironicamente, tendo em conta o título – às vezes dá a impressão que as pessoas estão quase a ser parte de um culto religioso.

Mas acho que é uma boa forma para os céticos verem que há uma certa energia, um certo método no trabalho do homem, que poderá valer a pena explorar. 

Meditação e Desenvolvimento Pessoal – Inimigos Mortais?

Hoje quando estava a meditar, ocorreu-me uma coisa. Não é só o caso que a meditação me ajuda a ver o mundo em alta-definição. É que a meditação me ajuda a aceitar-me a mim mesmo, como sou.

Isto gera uma certa tensão entre a meditação e o desenvolvimento pessoal.

A meditação trata de estar satisfeito no momento. O desenvolvimento pessoal nasce da insatisfação.

A meditação é acerca de viver o momento presente. É acerca de entender que o aqui e o agora bastam, e que as projecções de passado e futuro em que a nossa mente passa a maior parte do seu dia-a-dia são, quase sempre, a causa do nosso sofrimento.

A meditação também nos dá prespectiva e claridade, e ajuda-nos a ver os nossos excessos.

Já o desenvolvimento pessoal centra-se no futuro. Desenvolvimento pessoal é acerca de visualizar um “eu” melhor como um objectivo, uma situação melhor no futuro, a que almejar, e traçar um plano nessa direcção. Um plano não é mais do que uma sucessão de micro-futuros cada vez mais próximos.

Mais, o desenvolvimento pessoal exige, muitas vezes, excessos. Sacrificios. Analisando qualquer pessoa que tenha alcançado algo de sublime, consegue-se determinar que o sucesso veio do foco num objectivo. O foco vem da capacidade de estabelecer prioridades, e de as seguir. O estabelecimento e seguimento de prioridades exige, por definição, deixar outras coisas para trás. Ou seja, sacrifícios.

É possível, é claro, alcançar alguns objectivos sem excessos. Mas raramente os grandes passos da vida surgem sem um exforço fora do normal, um esforço que deixa cicatrizes.

A verdade é que quando medito, quando consigo fazer uma sessão de meditação mais profunda, sinto-me menos interessado nos meus objectivos. Não é um desinteresse apático; é mais um “as coisas já estão bem, o objectivo não é assim tão importante.”

Isto assusta-me um bocado. Por muito que seja bom estar satisfeito com o momento presente, gosto de zelar pelo momento presente do Luís Futuro.

Somos seres feitos de dicotomias. Em nós vivem as trevas e a luz, o caos e a ordem. Esta dicotomia – entre a paz de viver no presente e a tensão necessária para um futuro melhor – é mais uma imperfeição da vida, para ser aceite.