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Fartos de Ler Sobre Steve Jobs? Falemos de Camisolas de Gola Alta

A história conta-se assim: que um famoso inventor tinha o roupeiro cheio de camisolas pretas de gola alta. A razão para isto? Era menos uma decisão a tomar no início do dia, não tinha que ocupar o seu cérebro com a perene pergunta que assombra o comum mortal todas as manhãs: “O que irei vestir hoje?”

O objectivo, pensa a maioria, era que assim, esta pessoa inteligente teria a cabeça livre para ponderar a miríade de ideias que lhe surgiam.

Mas não é esse o caso. O objectivo de tal exercício não é criar espaço para pensar noutras coisas, mas meramente criar espaço. Alguém sem rotina acorda e vê a sua cabeça imediatamente preenchida por decisões que têm que ser tomadas: “O que vou comer, o que vou vestir, o que vou fazer?” O cérebro começa a mil ao levantar e assim continua até deitar.

Nenhum engenho, por eficiente e resistente que seja, sobrevive a tal utilização. E no entanto, é esse o nível que utilização que lhe damos ao longo da maior parte das nossas vidas.

Praticar meditação ajuda. É esse o propósito da prática. Não é sentar sem pensar durante um período pre-determinado, mas praticar estar presente, para que se possa aplicar essa experiência ao longo do dia.

Criar um conjunto de escolhas pre-determinadas, como o tal tipo fez, é uma forma de criar espaço mental para isto. Uma forma simples de começar: tenta tomar o mesmo pequeno-almoço (de preferência, saudável) durante um mês. Vê qual o impacto que isso tem na tua manhã.

Podes não inventar o próximo iPhone, mas provavelmente terás um dia mais agradável.

Fotografia: ijpatter1 Flickr via Compfight cc

Salvar a Filosofia

A filosofia saiu da minha vida depois de terminados os últimos exames no secundário. Não havia razão para continuar. Foi-me ensinada como uma versão mais aborrecida de história: esta pessoa pensava isto, a outra pessoa defendia aquilo, etc. Não havia qualquer propósito por detrás do conhecimento – agora percebo que o que me foi ensinado não foi filosofia, mas sim história da filosofia.

Não havia razão para a aprender para além de ter melhores notas e parecer culto. E esta última estava longe de ser prioridade para um miúdo de 17 anos.

Avançando pela vida adulta, estava tão pouco preparado como qualquer um para enfrentar os seus desafios: perda, adversidade, terror existencial, confrontação com estruturas tirânicas, resistir a tentações, medos e ansiedades, e todos os primos e parentes destes conceitos.

Morreu a mãe de um amigo meu há um par de meses. É uma experiência pela qual, é garantido, a maioria de nós vai passar. É um evento completamente previsível no decurso de uma vida normal. E no entanto, o meu amigo não estava minimamente preparado – tal como a maior parte de nós não está.

Porque é que não nos ensinam a lidar com estas coisas na escola?

Depois de um longo percurso pela industria do desenvolvimento pessoal (ou, como eles não gostam de ser chamados, da “auto-ajuda”) , dei por mim a voltar à filosofia, pelas palavras de Marco Aurélio e outros Estóicos. Foi então que percebi: há um espaço dedicado a ensinar-nos como lidar com os desafios da vida. Era para isso que deviam servir as aulas de filosofia.

Alguém pôs a pata na poça quando determinou como a filosofia seria ensinada nas escolas.

Parte do que estou a tentar fazer aqui, com estes escritos, é corrigir isso. Estou a tentar reconquistar a filosofia, salvá-la das salas de aula e trazê-la para o lugar onde pertence: o nosso dia-a-dia, as nossas vidas.

Fotografia: Free Public Domain Illustrations por rawpixel Flickr via Compfight cc

O Mundo Quebra-Nos A Todos

“O mundo quebra-nos a todos, e depois, muitos ficam mais fortes nos sítios quebrados. Mas aqueles que não quebra, mata.”, escreveu Hemingway. 

(Tradução minha, não oficial. Gosto do verbo “quebrar” mais do que “partir,” ou outras palavras mais apropriadas para o Português, mas menos tácteis.)

Vi muitas pessoas “quebradas” nos últimos anos. E sim, a maioria fica mais forte nos sítios quebrados. Não digo que o fortalecimento compensa o que se perdeu, isso é demasiado optimista e ingénuo. O saldo nem sempre é positivo. Mas não é completamente negativo.

Mais interessante para mim é a diferença entre as que se fortalecem, e as que não se fortalecem.

As que se fortalecem atribuem-no a uma decisão. A determinado ponto, decidiram que iam continuar com a sua vida, independentemente das coisas horríveis que lhes tivessem acontecido. 

Não decidiram que não ia doer, ou que ia deixar de fazer falta. Isso está fora do nosso alcance. Decidiram que iam avançar, na mesma, com a dor e a mágoa e a dificuldade que tivessem que levar com eles.

Os que não se fortalecem não o atribuem a uma decisão. Atribuem-no a uma característica. Dizem que gostariam, mas que não têm a força, a inteligência, ou os genes para o fazer.

Não sou uma pessoa optimista, por natureza. A minha educação é científica, e a ciência é determinista. Há, realmente, um nível base de talento, de inteligência, de capacidade com que cada um nasce. 

(Ninguém gosta de ouvir isto, muito menos os cientistas que o provaram e continuam a provar vezes sem conta, mas ainda assim, é isso que descobrimos.)

Mas a verdade é que a base é a base, e há sempre espaço de manobra. Uns podem ter mais espaço de manobra do que outros, mas no final de contas, os que vi ficarem mais fortes foram os que tomaram a decisão de seguir em frente com o que tinham – por quebrados que estivessem.

O mundo vai quebrar-te. Quebra-nos a todos. Vais ser o tipo de pessoa que toma uma decisão, ou que se desculpa com uma característica?