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Acerca da Última Noite de Beethoven

Já escrevi sobre a minha relação peculiar com a música. As excepções são, normalmente, músicas que contam histórias. Não sou a pessoa certa para avaliar a qualidade musical, mas histórias são a minha vida, e portanto não me surpreende que uma música com narrativa me capture mais a atenção.

Não estou a falar necessariamente de um número musical no teatro ou no cinema. Esses sempre me pareceram muito forçados. História não significa diálogo, não significa prosa. Uma mão-cheia de boas estrofes basta. 

Um dos meus albums favoritos é o “Beethoven’s Last Night”, dos Trans-Siberian Orchestra.  É uma brilhante opera-rock que, ao longo das suas 22 faixas, conta a história da última noite do compositor. 

Mas como as melhores histórias, enquadra-a como uma batalha entre o bem e o mal. Às portas da morte, o artista desespera para terminar a sua última obra, e as forças primordiais surgem para lutar pela sua alma. O Inferno surge incarnado em Mefistófeles. Os Céus enviam uma musa, sob a forma de um antigo amor. 

A musica representa o diálogo entre estas três partes. Mefistófeles faz de tudo para convencer o compositor da futilidade dos seus esforços; a musa encoraja-o a persistir, a criar ele ultimo louvor para honrar o Divino. Ao longo do album, Beethoven vacila entre a inspiração e o desespero, sob a influência destas duas forças. É uma das metáforas mais belas que conheço para o processo artístico.

Que tudo isto é transmitido de forma tão viva, tão colorida, através de curtos versos e da potência da música, é simplesmente excepcional.

Quem ganha, afinal de contas, a alma do compositor? 

Podem descobrir ouvindo o album:

Vale a pena deixar a minha nota habitual: vivemos numa época fantástica em que temos arte belíssima à nossa disposição, completamente de graça. Quando tal arte vos captura a imaginação, quando tal arte vos inspira, então é sinal para ponderar a possibilidade de comprar aquilo que é grátis, e apoiar o artista.

A Arte Sem Nome

Sou uma anomalia no que diz respeito à musica. A maior parte das músicas não deixa registo na minha memória. Estamos a ouvir o que está a tocar no rádio do carro ou de um bar, eu mais amigos ou família, e eles vão dizendo os nomes das musicas e identificando as bandas que as tocam. Eu raramente o consigo fazer.

Acontece o mesmo com filmes. Claro, tenho uma lista de filmes favoritos, sei quais são, mas nem por sombras lhes consigo associar mais do que um punhado de nomes de actores e realizadores. Parece que tenho um bloqueio subconsciente que me leva a ignorar selectivamente os nomes das pessoas associadas à arte.

Não sinto que isso tenha diminuído a minha capacidade de apreciar cada obra. É verdade, por vezes sinto-me um bocado culpado, como se estivesse de alguma forma a desrespeitar o esforço, o empenho do artista. Mas não deixo de gostar do trabalho, e sou menos propenso a avaliar novas produções em função do nome a elas associadas.

Isso parece-me bem.

Fotografia por Porapak Apichodilok, via Pexels

 

É Importante Montar O Prato

“Porque é que andas sempre a montar os rabanetes assim no prato? A comida não está já pronta?” Perguntou Frida.

“Ouve, não demora assim tanto tempo. É um instante! Não te tinha dito para ires enchendo os cops de vinho?” Respondeu Silas. O rapaz abriu os braços e encolheu os ombros ao voltar-se para Frida, respingando vinagre no chão da cozinha.

“Só me queres embebedar!” Respondeu a ruiva. “Ao menos podias vir beber comigo.”

“Eu só te quero é fora da minha cozinha, mulher!”

“As pessoas normais COMEM na cozinha! Que raio és tu, um duque?!”

Silas fechou os olhos. Lá estava ela a fazer o mesmo. Ele não ia morder o isco, não ia responder à provocação. Desta vez, não. Inspirou fundo, e respondeu:

“Ouve, enerva-me muito ter-te à minha beira enquanto cozinho.”

“Porquê?!”

“Por causa de perguntas como essa!”

“Estás-me a expulsar da cozinha porque te perguntei porque estavas montar os rabanetes no prato?!”

“Sim!” 

“Pelos deuses, és sensível!” Disse Frida, voltando-se em direcção à sala, com as mãos levantadas acima da cabeça, viradas para o tecto.

“Espera.” Chamou Silas.

Frida parou à porta, ainda de costas para o seu companheiro entroncado, de cabelos negros e barba mal-feita.

“É que… Importa. É importante montar o prato. Quer dizer, se estiveres esfomeada, se estiveres a passar fome, claro que não, não vais ligar a estas coisas. Mas não estamos a navegar, não estamos em nenhuma expedição! Estamos só… A viver tranquilamente. Pelo menos… Por enquanto. A beleza importa. O aspecto da comida tem influência no gosto. Não… Não me perguntes porquê, ou, ou como. Mas tem influência. Tu sabes que tem, se parares para pensar. Toda a gente repara. Só que depois… Esquecem-se, sei lá.”

Frida voltou-se novamente para o seu companheiro. Os seus caracóis encarnados esvoaçaram, tão repentino foi o movimento, antes de repousar sobre os ombros do seu vestido simples, beje. “Foi assim tão difícil?!”

“Entendeste?”

“O que é que isso interessa? Não me parece que tu próprio entendas aquilo que dizes, pelo menos não completamente. Mas ao menos agora sei porque tu o fazes. Acho eu.”

“E isso basta?”

Frida voltou a encolher os ombros. “Vou servir o vinho.”