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A Arte Sem Nome

Sou uma anomalia no que diz respeito à musica. A maior parte das músicas não deixa registo na minha memória. Estamos a ouvir o que está a tocar no rádio do carro ou de um bar, eu mais amigos ou família, e eles vão dizendo os nomes das musicas e identificando as bandas que as tocam. Eu raramente o consigo fazer.

Acontece o mesmo com filmes. Claro, tenho uma lista de filmes favoritos, sei quais são, mas nem por sombras lhes consigo associar mais do que um punhado de nomes de actores e realizadores. Parece que tenho um bloqueio subconsciente que me leva a ignorar selectivamente os nomes das pessoas associadas à arte.

Não sinto que isso tenha diminuído a minha capacidade de apreciar cada obra. É verdade, por vezes sinto-me um bocado culpado, como se estivesse de alguma forma a desrespeitar o esforço, o empenho do artista. Mas não deixo de gostar do trabalho, e sou menos propenso a avaliar novas produções em função do nome a elas associadas.

Isso parece-me bem.

Fotografia por Porapak Apichodilok, via Pexels

 

É Importante Montar O Prato

“Porque é que andas sempre a montar os rabanetes assim no prato? A comida não está já pronta?” Perguntou Frida.

“Ouve, não demora assim tanto tempo. É um instante! Não te tinha dito para ires enchendo os cops de vinho?” Respondeu Silas. O rapaz abriu os braços e encolheu os ombros ao voltar-se para Frida, respingando vinagre no chão da cozinha.

“Só me queres embebedar!” Respondeu a ruiva. “Ao menos podias vir beber comigo.”

“Eu só te quero é fora da minha cozinha, mulher!”

“As pessoas normais COMEM na cozinha! Que raio és tu, um duque?!”

Silas fechou os olhos. Lá estava ela a fazer o mesmo. Ele não ia morder o isco, não ia responder à provocação. Desta vez, não. Inspirou fundo, e respondeu:

“Ouve, enerva-me muito ter-te à minha beira enquanto cozinho.”

“Porquê?!”

“Por causa de perguntas como essa!”

“Estás-me a expulsar da cozinha porque te perguntei porque estavas montar os rabanetes no prato?!”

“Sim!” 

“Pelos deuses, és sensível!” Disse Frida, voltando-se em direcção à sala, com as mãos levantadas acima da cabeça, viradas para o tecto.

“Espera.” Chamou Silas.

Frida parou à porta, ainda de costas para o seu companheiro entroncado, de cabelos negros e barba mal-feita.

“É que… Importa. É importante montar o prato. Quer dizer, se estiveres esfomeada, se estiveres a passar fome, claro que não, não vais ligar a estas coisas. Mas não estamos a navegar, não estamos em nenhuma expedição! Estamos só… A viver tranquilamente. Pelo menos… Por enquanto. A beleza importa. O aspecto da comida tem influência no gosto. Não… Não me perguntes porquê, ou, ou como. Mas tem influência. Tu sabes que tem, se parares para pensar. Toda a gente repara. Só que depois… Esquecem-se, sei lá.”

Frida voltou-se novamente para o seu companheiro. Os seus caracóis encarnados esvoaçaram, tão repentino foi o movimento, antes de repousar sobre os ombros do seu vestido simples, beje. “Foi assim tão difícil?!”

“Entendeste?”

“O que é que isso interessa? Não me parece que tu próprio entendas aquilo que dizes, pelo menos não completamente. Mas ao menos agora sei porque tu o fazes. Acho eu.”

“E isso basta?”

Frida voltou a encolher os ombros. “Vou servir o vinho.”

A Língua é um Membro Fantasma

Custou-me a decidir se havia de escrever em Português ou Inglês.

O inglês é a obvia lingua franca da internet, e é na internet que publico a maior parte do meu trabalho. Há maior competição por atenção, mas a audiência é muito maior.

Acabei por decidir que iria escrever em ambas as línguas. Sempre que possível, iria escrever a mesma coisa em ambas as línguas. Decidi assim porque escrever é o mesmo que pensar, e escrever as mesmas ideias em línguas diferentes força-me a pensar melhor, dá-me uma perspectiva diferente do mesmo objecto intelectual.

O video jogo “The Phantom Pain” foi o último jogo Metal Gear por Hideo Kojima, e embora não ache que tenha sido o melhor, foi o que mais impacto teve em mim. Foi este jogo que me expôs pela primeira vez à idea de que a língua modela a cultura e o pensamento à sua imagem. A língua Inglesa é mais do que um modo de expressão, é um veiculo de assimilação.

Reforcei ainda mais esta ideia ao ler traduções de autores da Europa do Leste, como Bulgakov e Dostoyevsky. As palavras estão em Português mas a maneira de expor o pensamento é quase alienígena, e digo isto no melhor sentido da palavra. Ponderar estas obras forçou-me a reorganizar a minha forma de pensar, a estrutura do meu pensamento.

Tenho muito respeito pela cultura Anglo-Saxônica, e portanto não me incomoda um bocadinho de assimilação. Mas o jogo de Kojima deixou-me a pensar que devia encarar a minha língua materna com a mesma seriedade com que encarava o Inglês. Não é tão prática ou lucrativa. Mas decidi concentrar-me nela como uma forma de preservar a minha cultura, e, mais importante ainda, afinar a minha forma de pensar.

Porque se toda a gente pensar na mesma língua, é muito menos provável que se produzam ideias interessantes.