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A Colaboração Mata a Criatividade

O trabalho é sempre melhor quando alguém o faz sozinho. Mesmo que seja mau. 

O mundo está cheio de coisas feitas por comité. É porque é eficiente. Vejo isso quando coordeno equipas – de jogadores, de escritores, ou de marketing. 

Quando toda a gente dá a sua opinião num projecto, o projecto é concluído. Funciona, é seguro. E raramente é interessante. Nunca é fantástico.

Mas quando dou a alguém autonomia para desaparecer durante um par de dias e voltar com alguma coisa vomitada da sua alma? 

Pode ser um fracasso, pode não funcionar. Pode ser que ninguém goste. Mas sabe a uma coisa autêntica. É arte. Nasceu da canção cantada pela alma de uma pessoa, sem interferência de outros.E quando é bom, quando funciona? É transformativo.

Mesmo que a interferência venha de alguém que saiba mais, que tenha melhor gosto, que seja mais experientes e tenha mais capacidade técnica – não interessa. Perde o cunho individual, passa a haver compromisso.

Há muitas empresas que se dizem “amigas do fracasso.” Mas desaproveitam essa idea, pois ao mesmo tempo que proclamam que não há problema em falhar, fazem com que todo o trabalho passe por uma peneira de consenso, para assegurar qualidade.

Há uma altura certa para a opinião do grupo de pares, para as sugestões dos mestres, para o controlo de qualidade por parte do chefe. Essa altura é depois de ter um protótipo construído, um primeiro rascunho feito, um projecto testado. 

O grupo ajuda a decidir se é bom, se é mau. Se tem salvação, ou se está condenado. Se é perfeito, ou onde se pode melhorar.

Mas a génese, o acto de criação, a ideia – essa tem que pertencer ao indivíduo.

Porque mostrar a nossa idea é mil vezes mais preciso do que explicá-la.

Gratidão

Parte da graça de escrever estas notas diárias é encontrar a imagem para acompanhar a publicação. 

Num mundo de posts de Facebook e Twitter e Instagram, de canais de notícias 24 horas, é fácil esquecer que com uma simples pesquisa online, podemos ver centenas de pinturas clássicas. 

Há 30 anos, estas obras só eram acessíveis a uma mão-cheia de conhecedores com os meios para viajar em redor do mundo e visitar as galerias (por vezes, privadas) que as alojavam. Um livro com réplicas de uma fração destas obras seria muito caro – caro demais para um apreciador casual.

Hoje, somos afogados pela enchente de nova informação, de novas obras, de novos produtos. É, afinal de contas, o novo que vende. É muito difícil ter lucro mantendo uma galeria de arte gratuita online com milhares de obras. Não dá tantos “gostos” manter uma página de Facebook dedicada à beleza da arte clássica

Mas ainda assim, essas duas coisas existem, e muitas mais como elas.

Uma vida mais preenchida de beleza está ao alcance de qualquer pessoa com uma ligação à internet.

Vale a pena dar graças por isso.

Pintura: Minerva e as Nove Musas, por Hendrick van Balen.

Por Servir

Nunca verão o post que era para estar aqui hoje.

Ele foi escrito. E foi traduzido para outra língua. Mas nunca vai ser publicado.

No restaurante, podem pensar que o cozinheiro está a demorar demais. Mas o que não sabem é que ele fez o prato, e provou. E depois deitou para o lixo e começou outra vez. 

O cozinheiro não vai apresentar desculpas. Ele sabe que vão ficar desagradados por esperar pela refeição, por boa que ela venha a ser. Mas antes viver com esse desagrado, do que apresentar algo com que ele próprio não se sentisse satisfeito.

Há coisas que só depois de feitas, se percebe que não funcionam. Que não são dignas do tempo dos outros. Não é uma falha fazê-las! Esse foi um caminho que teve que ser percorrido. 

Mas depois da coragem de as fazer, há que ter a coragem de não as servir.

Pintura: “Cozinheira com Comida”, por Frans Snyders