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Sim Por Defeito

Quando alguém me pede para participar num projecto, a resposta é quase sempre “sim.” Com um asterisco: quem me pediu tem que arrancar. Eu entro depois, como suporte.

A maioria dos projetos nunca vão a lado nenhum. Toda a gente tem uma ideia para um livro, um podcast, um filme, um negócio. Mas quase ninguém tem a capacidade de arrancar, de gerar força suficiente para vencer a entropia e dar os primeiros passos. 

Nesse caso, fui o tipo que disse que “sim.” Uma palavra que não me custou mais do que uns centímetros cúbicos de ar , criou uma ligação de confiança entre mim e outra pessoa, ajudou a construir uma reputação de generosidade. Não tive que fazer mais nada.

E se a pessoa conseguir arrancar? E se o projeto for para a frente?

Então, estou a trabalhar com uma pessoa que sabe fazer coisas arrancar.

Não é uma má posição.

A Colaboração Mata a Criatividade

O trabalho é sempre melhor quando alguém o faz sozinho. Mesmo que seja mau. 

O mundo está cheio de coisas feitas por comité. É porque é eficiente. Vejo isso quando coordeno equipas – de jogadores, de escritores, ou de marketing. 

Quando toda a gente dá a sua opinião num projecto, o projecto é concluído. Funciona, é seguro. E raramente é interessante. Nunca é fantástico.

Mas quando dou a alguém autonomia para desaparecer durante um par de dias e voltar com alguma coisa vomitada da sua alma? 

Pode ser um fracasso, pode não funcionar. Pode ser que ninguém goste. Mas sabe a uma coisa autêntica. É arte. Nasceu da canção cantada pela alma de uma pessoa, sem interferência de outros.E quando é bom, quando funciona? É transformativo.

Mesmo que a interferência venha de alguém que saiba mais, que tenha melhor gosto, que seja mais experientes e tenha mais capacidade técnica – não interessa. Perde o cunho individual, passa a haver compromisso.

Há muitas empresas que se dizem “amigas do fracasso.” Mas desaproveitam essa idea, pois ao mesmo tempo que proclamam que não há problema em falhar, fazem com que todo o trabalho passe por uma peneira de consenso, para assegurar qualidade.

Há uma altura certa para a opinião do grupo de pares, para as sugestões dos mestres, para o controlo de qualidade por parte do chefe. Essa altura é depois de ter um protótipo construído, um primeiro rascunho feito, um projecto testado. 

O grupo ajuda a decidir se é bom, se é mau. Se tem salvação, ou se está condenado. Se é perfeito, ou onde se pode melhorar.

Mas a génese, o acto de criação, a ideia – essa tem que pertencer ao indivíduo.

Porque mostrar a nossa idea é mil vezes mais preciso do que explicá-la.

Gratidão

Parte da graça de escrever estas notas diárias é encontrar a imagem para acompanhar a publicação. 

Num mundo de posts de Facebook e Twitter e Instagram, de canais de notícias 24 horas, é fácil esquecer que com uma simples pesquisa online, podemos ver centenas de pinturas clássicas. 

Há 30 anos, estas obras só eram acessíveis a uma mão-cheia de conhecedores com os meios para viajar em redor do mundo e visitar as galerias (por vezes, privadas) que as alojavam. Um livro com réplicas de uma fração destas obras seria muito caro – caro demais para um apreciador casual.

Hoje, somos afogados pela enchente de nova informação, de novas obras, de novos produtos. É, afinal de contas, o novo que vende. É muito difícil ter lucro mantendo uma galeria de arte gratuita online com milhares de obras. Não dá tantos “gostos” manter uma página de Facebook dedicada à beleza da arte clássica

Mas ainda assim, essas duas coisas existem, e muitas mais como elas.

Uma vida mais preenchida de beleza está ao alcance de qualquer pessoa com uma ligação à internet.

Vale a pena dar graças por isso.

Pintura: Minerva e as Nove Musas, por Hendrick van Balen.