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13, Número da Sorte

Os sistemas de protecção contra pirataria não protegem ninguém. A experiência do consumidor é degradada, e os piratas, ou arranjam uma forma de contornar a protecção, ou não consomem. Nunca nenhum pirata foi comprar um filme ou um jogo ou um livro ou um album porque não o conseguiu piratear. 

Já o contrário é verdade. Alguns piratas, depois de consumirem, podem tornar-se clientes. Podem evangelizar a arte. Vi isso acontecer com o meu primeiro livro. Quando o vi num site de pirataria, a minha atitude não foi a de ir dizer às pessoas que não o pirateassem. 

Deixei um comentário a explicar que vendas do livro contribuíam muito para a minha qualidade de vida. Pedi que, caso gostassem do livro, para considerarem a compra, ou pelo menos para recomendarem a alguém.

Fiz algumas vendas assim. Ganhei alguns fãs. Não foi nada mau.

Mas as leis de direitos de autor não são a mesma coisa que protecção contra pirataria. Os direitos de autor protegem uma idea, não um objecto. 

É um caso mais sensível, porque as ideas não têm barreiras. Nós não controlamos o que se apodera da nossa mente. Quando ouvimos uma musica, não sabemos que efeito vai ter em nós antes de a ouvir; até podemos ouvi-la sem nunca ter intenção de o fazer. Mas uma vez cá dentro, ela pode apoderar-se de nós, inspirar-nos.

Quem é que tem o direito de nos dizer o que fazer com uma coisa que foi lançada no mundo, e se agarrou à nossa cabeça como um molusco particularmente teimoso, talvez até à nossa revelia?

O reverso da medalha, é claro, é que os artistas merecem ter controlo sob as suas obras, não só sobre os objectos, físicos ou virtuais, através dos quais os fazem chegar ao consumidor. Nenhum artista gosta de ver a sua obra esventrada, prostituída, plagiada. 

É fácil ceder ao cinismo e assumir que a questão dos direitos de autor surge apenas por dinheiro, por ganância. E é bem provável que seja este o caso para muitos dos defensores desses direitos. Mas nunca para todos. Arte, a arte verdadeira, que perdura através das modas, é de parto difícil. O artista sacrifica algo ao criar, pedaço do seu ser divino que nunca irá recuperar.

Até que ponto é que é do nosso direito canibalizar isso? 

Quando empurramos uma criança para o mundo, não podemos esperar que todos a tratem como nós gostaríamos. Algumas pessoas vão aproveitar-se dos nossos filhos. Vão maltratá-los. E vão roubá-los de nós da melhor maneira possível – cativando-os, conquistando o seu amor e amizade. Temos que aceitar isso. É parte do contrato social de colocar um ser humano neste mundo.

Mas isso não quer dizer que toda a gente lá fora tenha o direito de fazer gato e sapato desse ser humano.

Acerca da Última Noite de Beethoven

Já escrevi sobre a minha relação peculiar com a música. As excepções são, normalmente, músicas que contam histórias. Não sou a pessoa certa para avaliar a qualidade musical, mas histórias são a minha vida, e portanto não me surpreende que uma música com narrativa me capture mais a atenção.

Não estou a falar necessariamente de um número musical no teatro ou no cinema. Esses sempre me pareceram muito forçados. História não significa diálogo, não significa prosa. Uma mão-cheia de boas estrofes basta. 

Um dos meus albums favoritos é o “Beethoven’s Last Night”, dos Trans-Siberian Orchestra.  É uma brilhante opera-rock que, ao longo das suas 22 faixas, conta a história da última noite do compositor. 

Mas como as melhores histórias, enquadra-a como uma batalha entre o bem e o mal. Às portas da morte, o artista desespera para terminar a sua última obra, e as forças primordiais surgem para lutar pela sua alma. O Inferno surge incarnado em Mefistófeles. Os Céus enviam uma musa, sob a forma de um antigo amor. 

A musica representa o diálogo entre estas três partes. Mefistófeles faz de tudo para convencer o compositor da futilidade dos seus esforços; a musa encoraja-o a persistir, a criar ele ultimo louvor para honrar o Divino. Ao longo do album, Beethoven vacila entre a inspiração e o desespero, sob a influência destas duas forças. É uma das metáforas mais belas que conheço para o processo artístico.

Que tudo isto é transmitido de forma tão viva, tão colorida, através de curtos versos e da potência da música, é simplesmente excepcional.

Quem ganha, afinal de contas, a alma do compositor? 

Podem descobrir ouvindo o album:

Vale a pena deixar a minha nota habitual: vivemos numa época fantástica em que temos arte belíssima à nossa disposição, completamente de graça. Quando tal arte vos captura a imaginação, quando tal arte vos inspira, então é sinal para ponderar a possibilidade de comprar aquilo que é grátis, e apoiar o artista.

A Arte Sem Nome

Sou uma anomalia no que diz respeito à musica. A maior parte das músicas não deixa registo na minha memória. Estamos a ouvir o que está a tocar no rádio do carro ou de um bar, eu mais amigos ou família, e eles vão dizendo os nomes das musicas e identificando as bandas que as tocam. Eu raramente o consigo fazer.

Acontece o mesmo com filmes. Claro, tenho uma lista de filmes favoritos, sei quais são, mas nem por sombras lhes consigo associar mais do que um punhado de nomes de actores e realizadores. Parece que tenho um bloqueio subconsciente que me leva a ignorar selectivamente os nomes das pessoas associadas à arte.

Não sinto que isso tenha diminuído a minha capacidade de apreciar cada obra. É verdade, por vezes sinto-me um bocado culpado, como se estivesse de alguma forma a desrespeitar o esforço, o empenho do artista. Mas não deixo de gostar do trabalho, e sou menos propenso a avaliar novas produções em função do nome a elas associadas.

Isso parece-me bem.

Fotografia por Porapak Apichodilok, via Pexels