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O Monge Que Vendeu A Sua Colecção de Videojogos

Costumava eu deliciar-me em ir a uma loja onde vendessem videojogos. Desde miúdo que os adoro – desde que o meu tio me sentou em frente a um ZX Spectrum e lá meteu uma cassete a fazer aqueles barulhos estridentes e riscas coloridas no ecrã, que depois por magia se transformavam num Batman baixo e gordo que tinha que escapar de um labirinto, ou numa nave espacial a disparar contra exércitos de fénix.

Mas gostava não só de os jogar mas de lhes tocar, de procurar por eles entre as prateleiras. Era quase como a experiência religiosa de ir a uma biblioteca – estar rodeado por possibilidades infinitas, pelas palavras e histórias de pessoas desfasados no tempo e no espaço. Cada jogo, como cada livro, era um universo de possibilidades.

Era um gosto especial passar os dedos por entre as caixas, à procura de alguma pérola desconhecida que pudesse estar perdida por entre os caixotes de promoção da FNAC, ou de um jogo antigo que tivesse escapado aos colecionadores que pareciam viver dentro das Cash Converters de Lisboa. 

Mas não era só uma questão de descoberta. Era giro mexer nas coisas, bolas! As caixas tinham uma personalidade, sim, mas o conteúdo também tinha. Dava a sensação de que vivia qualquer coisa lá dentro, que dentro daquele cartucho ou CD ou DVD vivia uma obra tangível, traduzida por 0s e 1s, correcto, mas de certa forma tão presente como as palavras dentro de um livro.

Fui há uns dias à FNAC e lancei-me durante alguns minutos na exploração das prateleiras de videojogos. Mas já não é a mesma coisa. Já é tudo conhecido, já nada chama a atenção. O conteúdo sente-se estéril. Em meros segundos, senti um enjoo profundo por estar a passar os dedos pelas caixas de videojogos. 

Este não interessa. Aquele é uma reedição. Tenho este em casa para jogar à anos. Quando decidir jogar este, posso comprá-lo online; escuso de gastar o dinheiro agora e arriscar-me a deixá-lo numa prateleira a ganhar pó.

O meu amigo Daniel gosta de dizer – e com razão, porque é um gajo inteligente e ao contrário da maioria das pessoas, lê os contratos de licença de utilização até ao fim, mesmo a letra miúda – que os jogos que compramos em formato digital, que pagamos e fazemos download, não nos pertencem a sério, nos podem ser retirados a qualquer momento. Ele tem toda a razão, mas é uma verdade técnica. Na prática, podemos até ser mais donos de um jogo que compramos na FNAC ou na Amazon, mas somos donos do quê? De um pedaço de plástico. 

Colecção de Videojogos
O Sonho.

Um livro é uma coisa diferente. Não preciso de tecnologia mais complexa do que um par de óculos para poder desfrutar dele. Nem se trata de uma questão de ser “dono” ou não. O que é ser dono de um livro? Sou dono das palavras que lá estão escritas? Sou dono das palavras de Jane Austen, Dostoevsky, Nietzche? Que conceito ridículo! Tenho acesso aos pensamentos, ao imaginários dessas pessoas, sou dono desse (limitado) acesso. No entanto, as palavras estão lá, posso folhear o livro, posso sentir o cheiro, posso criar marginalia. 

O que é um videojogo, em formato físico? É o mesmo que um download, que foi gravado num disco numa fábrica algures na china, guarnecido numa caixa de plástico com uma folha colorida impressa, e me é vendido sobre o pretexto de que sou “dono” dele. 

Sou dono de uma coisa incompleta, pois o jogo de hoje vai ser actualizado através da internet várias vezes ao longo da sua vida. Sou dono de uma coisa perenemente desactualizada, pois quando for lançada a nova consola, vão relançar o jogo – ou um jogo quase idêntico – com melhores efeitos visuais, som, e sistema de controlo. Sou dono de uma coisa que dentro de dez anos, entre encontrar a consola em que foi lançada, ligá-la a um televisor, ter a sorte de que funciona, ter a sorte de que não seja precisa uma actualização pela internet, que o jogo procura em servidores há muito desactivados… Esqueçam! Mais vale comprá-lo outra vez, descarregá-lo por 10 euros através da internet, e jogá-lo sem chatices.

Há videojogos que valem a pena jogar. São muito poucos, quase nenhuns, mas tudo bem, isso não é nenhuma desonra. Também a maior parte dos livros são maus, a maior parte dos filmes são péssimos, a maior parte da música é barulho. É difícil fazer arte, é difícil contar histórias. 

No caso dos videojogos, não vale a pena ser dono deles. É uma luta perdida. Mais vale a apreciar as obras en passant, de visita, como se aprecia uma pintura num museu, como se aprecia um filme no cinema, como se aprecia uma banda num concerto. Ser colecionador de livros é ter uma biblioteca. Ser colecionador de pinturas é ter uma galeria. Ser colecionador de videojogos é ter uma pilha de plástico.