Arquivo da Categoria: Videojogos

A Prenda Mais Importante Que Podem Oferecer Hoje

Às vezes, vale a pena fazer as coisas que gostamos.

Quando descobri que o Felipe Pepe estava a recrutar voluntários para o ajudar a criar um compêndio da história dos RPGs de computador ( odeio a tradução directa, portanto, para os menos familiares, adianto apenas que a sigla significa “Role-Playing Games”, e fiquemo-nos por aí) soube imediatamente que queria participar.

Nunca imaginei que um dia, esse meu trabalho visse a ser parte de um livro em papel, e muito menos um livro cujos lucros do autor fossem 100% concedidos à caridade – neste caso, à instituição Vocação, que dá formação e encontra emprego para os jovens nas áreas mais desfavorecidas do Brasil. 

Mas assim aconteceu. Podem encomendá-lo aqui, e façam-no sabendo que uma vez feita a primeira impressão, acabou-se. É uma tiragem única e limitada.

Só posso agradecer ao Filipe em triplicado:

Obrigado por ter engendrado um projecto tão apaixonante.

Obrigado por ter suportado os meus atrasos e editado as minhas palavras para melhor.

Obrigado por ter encontrado e tomado a oportunidade de usar esse trabalho para melhorar o mundo.

Nem sempre os video jogos são um desperdício de tempo.

Melhor Com Amigos

Há coisas que são enfadonhas – ou até mesmo de fraca qualidade – a solo, mas que ganham brilho acrescentando amigos. A qualidade é situacional, contextual.

Quando tinha um programa sobre videojogos, debatia-me com o meu co-anfitrião Daniel Costa em relação ao jogo Mario Kart para Switch.

Para mim, o jogo representa o pior exemplo daquilo que um jogo de corridas deve ser. As pistas estão cheias de confusão visual, não é claro o efeito das características das várias peças na performance dos carros, e – o pior pecado dentro do género – às vezes é difícil perceber se o carro está a acelerar ou não. Como jogo de corridas, é uma nódoa.

Mas mesmo assim, é o meu jogo mais jogado na Switch. E porquê? Porque é o jogo que vai para a consola sempre que há visitas. Porque quando estamos a jogar com uns amigos, não interessa tanto se o jogo é bem elaborado – interessa que seja visualmente estimulante, e que dê para nos arreliarmos uns aos outros. 

O mais recente Mario Kart é um péssimo jogo de corridas, mas um excelente jogo para festas.

O contexto é mais importante que a qualidade.

Os Mortos Que Andam

Hoje fiz uma coisa nova, uma coisa que nunca pensei vir a fazer. Uma coisa que nunca entendi porque é que as pessoas fazem.

Hoje vi alguém jogar um videojogo do principio ao fim, no YouTube. Foi o famoso Pewdiepie, a jogar o mais recente episódio do “The Walking Dead.”

Finalmente percebi porque é que as pessoas o fazem. É que é uma maneira de dar graça a um jogo terrível. Ver o Pewdiepie jogar não me deu vontade nenhuma de jogar o jogo; mais, convenceu-me que se o jogasse, seria um desperdício de tempo, um aborrecimento. 

O “jogo” quase não tem jogo, o enredo é patético, e o diálogo é péssimo. Salvo alguns momentos de tensão (que seriam muito mais potentes num filme), a única coisa de valor foi mesmo o comentário. Ter o YouTuber a comentar os ridículos daquilo que se assume como uma história dramática tem, realmente, piada.

Mas não escrevo isto para dizer que me converti ao culto do gamer sueco. É mesmo para constatar como a fraca qualidade, a falta de exigência, tomou conta do mundo dos videojogos.

Pouco antes do Natal, a imprensa de videojogos uniu-se em solidariedade, noticiando a “terrível” perda que foi o fecho dos estúdios da Telltale Games, responsáveis pela série “The Walking Dead” em formato videojogo. 

(O episódio que o Pewdiepie jogou foi completado e lançado depois, por um outro estúdio que se incumbiu de terminar o trabalho do primeiro.)

Não sei como engolir isto. Por um lado, num nível pessoal e humano, sofro pelas pessoas que perderam o emprego e o sustento (e logo em vésperas de Natal). Por outro lado, não posso deixar de pensar que não precisamos de estúdios como a Telltale, que produzem este tipo de lixo. 

Porque isto é lixo. Em primeiro lugar, é um mau videojogo, pois quase não apresenta interactividade. Mas se fosse um filme, seria também um mau filme, pois as personagens não são interessantes, e a narrativa também não.   Há videojogos que padecem do mal de fraca interactividade, de não terem mecânicas interessantes, mas compensam com história, ou com espectáculo audiovisual.

Este jogo, está série, não tem nada disso. É um mero regurgitar do primeiro grande sucesso da Telltale, um jogo que nunca primou pela interactividade, mas que, pelo menos, na altura em que foi lançado, tinha qualidade audiovisual e era algo invulgar, fresco. E tinha personagens interessantes, e entre essas personagens geravam-se verdadeiros conflitos e tensões. 

Podia não ser um jogo fantástico, mas sabia a diferente, e brilhava noutros aspectos.

Mas desde então, a Telltale anda a ressuscitar o cadáver desse jogo, a fazê-lo arrastar-se pelo mercado todos os anos. E todos os anos tem um bocado menos de carne nos ossos, todos os anos cheira mais a podre, todos os anos tem um um olhar mais vazio nos olhos.

Como é que podemos justificar a existência de um estúdio que vive disto, de produzir – já nem digo arte – mas produto, entretenimento mediocre? Deve o público comprar estes jogos por pena, para justificar os empregos das pessoas que lá trabalham?

Pergunto-me como farão no mundo do cinema, quando um filme falha bombasticamente? Sou muito ignorante em relação a essa indústria, mas não me recordo de ouvir falar de grandes fechos de estúdios, de largas perdas de emprego. Será esse um modelo a replicar?

Não tenho resposta para esse drama humano. Só posso dizer que não choro a perda da Telltale como uma empresa, como um estúdio. 

Pode ser que agora, finalmente, os mortos tenham o merecido repouso.