Arquivo da Categoria: Videojogos

A Língua é um Membro Fantasma

Custou-me a decidir se havia de escrever em Português ou Inglês.

O inglês é a obvia lingua franca da internet, e é na internet que publico a maior parte do meu trabalho. Há maior competição por atenção, mas a audiência é muito maior.

Acabei por decidir que iria escrever em ambas as línguas. Sempre que possível, iria escrever a mesma coisa em ambas as línguas. Decidi assim porque escrever é o mesmo que pensar, e escrever as mesmas ideias em línguas diferentes força-me a pensar melhor, dá-me uma perspectiva diferente do mesmo objecto intelectual.

O video jogo “The Phantom Pain” foi o último jogo Metal Gear por Hideo Kojima, e embora não ache que tenha sido o melhor, foi o que mais impacto teve em mim. Foi este jogo que me expôs pela primeira vez à idea de que a língua modela a cultura e o pensamento à sua imagem. A língua Inglesa é mais do que um modo de expressão, é um veiculo de assimilação.

Reforcei ainda mais esta ideia ao ler traduções de autores da Europa do Leste, como Bulgakov e Dostoyevsky. As palavras estão em Português mas a maneira de expor o pensamento é quase alienígena, e digo isto no melhor sentido da palavra. Ponderar estas obras forçou-me a reorganizar a minha forma de pensar, a estrutura do meu pensamento.

Tenho muito respeito pela cultura Anglo-Saxônica, e portanto não me incomoda um bocadinho de assimilação. Mas o jogo de Kojima deixou-me a pensar que devia encarar a minha língua materna com a mesma seriedade com que encarava o Inglês. Não é tão prática ou lucrativa. Mas decidi concentrar-me nela como uma forma de preservar a minha cultura, e, mais importante ainda, afinar a minha forma de pensar.

Porque se toda a gente pensar na mesma língua, é muito menos provável que se produzam ideias interessantes.

Dezasseis anos de ene3

A ene3 foi um projecto fundado em 2002 pelo DJ_MiND, numa era em que a internet ainda era movida a telefone e os modems faziam barulhos diabólicos sempre que se ligavam. Juntando um punhado de amigos dos fóruns do Sapo, o DJ criou um site dedicado à divulgação dos jogos e consolas da Nintendo, em Portugal – e pouco depois, expandiu-o para abranger todas as plataformas.

A data altura da vida do site, encontrei-me como custódio do mesmo. Nem sempre fiz o melhor trabalho, e tentei, algumas vezes, com diferentes níveis de sucesso, passá-lo a pessoas com maior capacidade do que eu. Mas acaba sempre por voltar às minhas mãos.

Hoje a ene3 ( www.ene3.net ) faz 16 anos. Não foram 16 anos de actividade, porque às vezes a vida mete-se no caminho. 

Não sei ao certo o que fazer com ela, admito. A minha relação com os videojogos não é aquela que já foi; cada vez os acho menos dignos de qualquer tipo de análise para além da mais superfícial. Todas as semanas luto com essa ideia, tento aprender um pouco mais sobre videojogos, sobre o que representam, sobre o seu valor como forma de expressão artística, para criadores e para jogadores. 

Onde está a linha entre a arte que merece – que carece – de alguém que discurse sobre ela, e a mera monetização do desperdício de tempo, a alienação e zombificação de mentes suscetíveis sem qualquer contrapartida para a valorização individual?

Não sei. Sei que não se escreve quase nada de valor sobre videojogos. Não se fala quase nada de valor sobre videojogos. É lixo sobre lixo, e quem lê isto a pensar que é excepção, desengane-se. A lei das probabilidades coloca-te nos 99.9%, não nos 0.1%. Mas eu também não sei fazer melhor. Somos todos formigas a sonhar que são gigantes – e somos assim por ignorância, por arrogância, porque não conhecemos os gigantes. Porque não conhecemos suficiente filosofia, música, cinema, literatura. Porque nos foi vendido um sonho de consumismo e luxúria como arte.

E é por isso que a ene3, no seu 16º aniversário, não está a funcionar.

Porque não vale a pena fazer algo quando não se o vai fazer bem. Não vale a pena ser mais um a berrar num mundo de ruído. 

Foram 16 anos de ene3. Não sei dizer ao certo quantas das coisas boas na minha vida surgiram da ene3, mas acredito que tenha sido a maior parte. Não sei se teria o trabalho que tenho hoje sem os conhecimentos que adquiri na ene3. Não sei se seria escritor, não tivesse sido o acesso a essa plataforma, que me permitiu praticar e levou a minha escrita aos jornais, à televisão, à rádio – aos leitores.

Muito obrigado a todos os que apoiaram, como colaboradores ou leitores ou ouvintes, pontualmente ou consistentemente, a ene3 nestes últimos 16 anos. Se alguma vez a ene3 regressar ao activo, será pela inspiração, pelo respeito, e pelo sentido de responsabilidade que sinto para convosco.

Vida, Sorte, e Hearthstone

Os últimos escritos foram um pouco pesados, por isso hoje vamos tentar algo mais relaxante. Eis o que me tem entretido recentemente:  Hearthstone.

Para quem não conhece: Hearthstone é um jogo onde se constrói um baralho a partir de um conjunto de cartas ( o jogo dá acesso gratuito ao conjunto inicial, e permite expandir esse à medida que se joga e/ou se compram cartas), usando-o para combater contra outros jogadores online.

É um jogo estratégico onde se fazem crescer exércitos ( e se dizimam os mesmos com um feitiço bem lançado), mas o que me deixa agarrado é mesmo a aleatoriedade inerente a um jogo de cartas.

Gosto de jogos que dependam de um equilíbrio entre preparação e sorte. Gosto da maneira como espelham o que se passa na vida. De certa forma, vejo-os como treino essencial para a vida: uma forma de praticar evitar ressentimento  por coisas fora do meu controlo, e de fazer o melhor possível com aquilo que tenho.

Claro, é preferível ganhar do que perder. Mas há um certo tipo de satisfação madura em saber que fomos capazes de levar uma má mão de cartas tão longe quanto possível.

É certo: quem começar a jogar hoje, e se encontrar face-a-face com alguém que anda a colecionar (ou comprar) cartas à meses, de muito pouco a sorte ou a preparação lhe valerão.  Isso também é a vida. Há pessoas que saem do berço com tudo o que é preciso para vencer. Mas a maioria das pessoas precisa de levar o seu tempo, e de construir um plafond de recursos e talento até chegar a um nível em que tenha a possibilidade de executar algo de valor.

Chegar a Hearthstone como um novo jogador é, então, um exercício de humildade. Posto isto, o jogo nunca foi tão generoso como é actualmente: dá aos novos jogadores ampla oportunidade para ganhar cartas, e oferece vários modos de um jogador que são uma grande ajuda para praticar e aprender as regras do jogo.

O seu exterior alegre e efusivo foi claramente engendrado para apelar aos mais novos, e eu aprovo. Pode ser que ajude as novas gerações a desenvolver um bocado de “calo”, e sentir-se um pouco menos apaparicadas.

(Nota, por transparência: se aderirem ao jogo através do link que deixei acima, e jogarem até chegar a nível 20, eu ganho uma meia-dúzia de cartas.)