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Um Mau Cavalo

“A cavalo dado, não se olha o dente,” diz o provérbio. Mas eu acho que depende da intenção da dádiva.

Na mais recente loja de jogos em formato digital, a Epic Games Store, a loja oferece um jogo novo grátis, de duas em duas semanas.

É uma iniciativa fantástica. Não são jogos nada amadores, nem especialmente velhos – embora, no mundo dos videojogos, um jogo com dois anos possa parecer arcaico.

Mas sinto que é uma oportunidade perdida. O preço dos jogos é uma grande barreira para trazer novas pessoas ao mundo dos videojogos. Seria esta uma boa ocasião para trazer a esse público, ao público que só conhece um ou dois jogos, alguns dos clássicos dos últimos anos. Teria que ser uma selecção que fosse simultaneamente representante do que é bom nos videojogos, e acessível a pessoas menos experientes.

Em vez disso, os jogos oferecidos são jogos que são difíceis de engolir para os iniciados, e mais interessantes para os jogadores veteranos que, por uma razão ou outras, não os tenham jogado quando foram lançados.

Jogos como Super Meat Boy ou Axion Verge são excelentes para mim, um gajo que está nisto há mais de duas décadas, mas não vão despertar interesse na minha irmã mais nova. E Thimbleweed Park pode lembrar o meu pai dos antigos jogos de aventura, mas só o vai fazer chegar à conclusão que nada mudou nos últimos 25 anos.

Já o fantástico Tetris 99 na Switch foi um sucesso nesse prisma. A Nintendo está à frente de todos. Haja quem nos traga bons cavalos!

O Trono Quebrado

É uma tarefa ingrata, ser o novo jogo na série “The Witcher,” e é isso que Thronebreaker: The Witcher Tales é, por muita ginástica de título que faça. Mesmo sendo de um género diferente, vai ser sempre comparado, em termos de personagens e narrativa, a um dos jogos mais fortes de sempre nessas áreas.

Mas já lá vamos. Vale a pena dizer primeiro o que o jogo faz bem: a metáfora. Especificamente, a metáfora mecânica que traduz, através de cartas, os conceitos tácticos e estratégicos da guerra. É surpreendente a quantidade de situações que os criadores do jogo conseguem retratar através das várias habilidades características de cada carta individual, e a forma como elas modelam as simples regras básicas do tabuleiro de jogo.

Este factor, aliado à variedade crescente de cartas a que se ganha acesso para construir o baralho ao longo do jogo, abre a porta a uma quantidade impressionante de estratégias – algumas mais óbvias do que outras. É pena que, para além do modo competitivo de múltiplos jogadores, não haja nenhuma maneira de ver os baralhos que outros jogadores estão a utilizar, porque neste aspecto o jogo abre as portas à criatividade.

O problema é que a curva de dificuldade não incentiva muito à experimentação. O nível de poder do jogador já é tão alto logo no final do primeiro capitulo do jogo, que com base no simples aumentar de poder das cartas, dá para conduzir uma estratégia praticamente inalterada até ao final do jogo, cilindrando tudo e todos até chegar à batalha final, onde nos aguarda um inimigo final que subverte as regras do jogo de tal forma que aí sim, finalmente, nos obriga a pensar em como construir um baralho capaz de o defrontar.

O resultado é que, apesar da riqueza mecânica inerente às regras, quase tudo entre o primeiro capitulo e a dita batalha final é palha, um pular de batalha banal em batalha banal onde conduzirmos o nosso baralho sempre da mesma maneira, ocasionalmente pontuado por um confronto com um boss ou um quebra-cabeças em que nos é dado um baralho pré-definido e um objectivo específico a cumprir.

Resta a história para nos puxar ao longo das cerca de quarenta horas de jogo, e esta é mediocre.  Lá se ergue o espectro de Witcher 3, um jogo superficialmente acerca do confronto com um exercito invasor e um inimigo sobrenaturalmente poderoso, sim, mas na realidade, acerca de ser um pai a tentar proteger e formar o caracter da sua filha adoptiva. E, também, um jogo em que cada decisão nos saía do couro, nos levava a pensar nas consequências que dela poderiam advir.

O contraste é grande. Aqui temos uma personagem principal – a rainha Meve – que é uma mãe que se vê voltada contra o filho. No entanto, raras são as ocasiões do jogo em que isso parece ser um factor na vida interior da personagem. 

Em Witcher 3, Geralt era tinha uma personalidade bem-definida, e no entanto nela conseguimos encontrar justificação para qualquer decisão que tomássemos. Em Thronebreaker, Meve não é uma coisa nem outra; é uma unidimensional mulher de armas, uma tábua quase-rasa em que raras vezes nos é dada a oportunidade de talhar algum relevo. 

As decisões de maior impacto no jogo não são as que dizem algo acerca da personagem, mas sim as que nos levam a perder algumas cartas favoritas com base no nosso compasso moral. Isto, ao menos, é uma decisão corajosa – fazer com que as nossas escolhas tenham um impacto directo na nossa capacidade estratégica. 

É uma pena que os criadores do jogo não tenham apostado nesta vertente ao ponto de fazer com que as escolhas que afectam a moral do exército tivessem real consequência – nos mapas abundam formas fáceis de fazer subir a moral dos soldados, caso eles discordem dos nossos reais decretos.

Thronebreaker não é um mau jogo, mas também não é bom. Tem as sementes de um bom jogo, enterradas debaixo de um monte de palha e de uma vontade de apelar ao mínimo denominador comum. Falta-lhe a coragem que Meve tem em abundância: a coragem de decidir qual o curso que quer tomar e ser inflexível nesse curso, sem tentar placar os desagradados.

Porta de Entrada

É muito difícil convencer pessoas a experimentar videojogos, porque a entrada no mundo exige muito mais esforço e despesa do que outros tipos de arte/entretenimento.

É possível ganhar interesse por cinema de graça, vendo clássicos nos canais de TV habituais, antes de tomar a decisão de investir num leitor de Blu-Ray e um sistema de home cinema. É possível experimentar os clássicos de qualquer género de música na rádio por online, antes de investir numa aparelhagem de alta fidelidade ou num leitor de vinis. E literatura? Livros são baratos e convenientes.

No caso dos jogos, é muito mais complicado. Os jogos populares são sempre os recentes, que exigem computadores potentes ou consolas específicas que custam quase sempre mais de 200€. Os jogos mais velhos, equivalentes aos clássicos do cinema, são na maior parte dos casos indissociáveis de plataformas proprietárias que ou já não se fabricam, ou são tão caras como as novas, ou funcionam mal com os televisores actuais.

A melhor maneira de alguém se iniciar nos videojogos é através do meio que é olhado com desdenho pelos conhecedores – o telemóvel. Há alguma razões para isso: a maioria dos jogos de telemóvel é terrível, não tem uma réstia de qualidade. E mesmo quando um clássico é apresentado no telemóvel, é de uma forma que lhe retira muito da qualidade. 

(Imaginem se a única forma introdutória de ver O Padrinho fosse através de uma camera de telemóvel a filmar o filme a pensar no cinema.)

Ando a pensar numa forma de introduzir pessoas a este meio. Gostava de formular uma lista de 10 jogos de grande qualidade (e que fossem representativos de uma boa variedade de géneros) que estivessem disponíveis para jogar (legalmente) em condições em telemóveis de média gama e/ou computadores de baixa performance (portáteis). 

Sugestões? Deixem nos comentários.