Arquivo da Categoria: Trabalho

Os Atrasos e a Medicina

Por vezes sinto que tenho os melhores pacientes do mundo. Especialmente quando me atraso. “Não se preocupe, doutor.” “Faz parte, doutor.” é o que me dizem. Mas não deixo de me sentir mal com os atrasos

A verdade é que o atraso em medicina é inevitável, mas não devia ser aceite como a norma.

Um bom médico, ou um médico que faça o melhor que pode, vai sempre escolher passar mais uns minutos com o paciente se isso significar que lhe está a dar um tratamento de maior qualidade, mesmo que também signifique que os que estão na sala de espera vão esperar mais um pouco.

As coisas demoram o seu tempo. Há trabalhos de trinta minutos, há trabalhos de uma hora, e há trabalhos de hora e meia e mais. E muitas vezes, só depois de se começar é que se tem uma boa ideia do tempo necessário.

Nesse aspecto, o atraso até pode ser visto como um sinal de qualidade. Noutras vezes, o atraso acontece porque surge uma situação imprevisível: uma criança que não colabora, uma ferida que não pára de sangrar, um ponto que não fica no lugar. Raramente o atraso se dá porque o médico teve vontade de ir tomar café.

Por isso, fico grato pela compreensão dos meus pacientes, que realmente percebem que se fosse preciso, eu também ficaria mais tempo com eles para os atender bem.

Mesmo assim, odeio estar atrasado, e é algo que tento sempre evitar. Porque tenho a noção de que um atraso não é algo isolado – se eu atraso uma pessoa, estou a roubar tempo a todas as outras pessoas que vêm a seguir. E mais, estou a fazer com que essas pessoas se atrasem nos seus afazeres, roubando tempo também àqueles que com elas contam. Os atrasos têm um efeito dominó que atinge muito mais do que os imediatamente envolvidos.

De igual forma, sou compreensivo em relação aos atrasos dos meus pacientes. A vida nem sempre funciona como queremos, e mesmo com as melhores intenções, um acidente acontece a qualquer um. Mas quando o atraso se torna rotina, aí tenho que chamar a atenção, não só por mim mas pelos outros pacientes que são atrasados por causa desse.

No final de contas, o senso-comum e a tolerância é o que tento praticar, e que vejo que a maioria dos meus pacientes pratica. E das raras vezes que me chamam atenção, tento não o levar pessoalmente, porque nunca nos devemos esquecer que o tempo dos outros é tão valioso como o nosso.

Este artigo apareceu na sua forma original na rubrica “Os Segredos da Saúde Oral” do jornal “A Gazeta das Caldas”

O Preço de Uma Decisão Errada

Pode não ser tão grande como o preço de uma decisão por tomar.

Li isto no outro dia:

Quanto mais tempo perdes a brigar com a tua mente para decidir qual tarefa fazer, mais largura de banda mental estás a usar – largura de banda que não estará disponível mais tarde quando  for altura de começar o trabalho  “a sério”.

Sarah Aboulhosn (tradução minha)

Tudo o que temos para fazer o que queremos fazer é energia. Pode ser energia mental, energia emocional, ou energia motriz – ou uma mistura das três. Mas sem energia, a acção não é eficiente, não é rentável, pode até nem funcionar.

Então, a energia que gastamos a decidir o que fazer não é irrelevante. 

Tendo que escolher entre dois caminhos semelhantes (assumindo que não estamos a falar de uma escolha em que um dos caminhos tenha o potencial de se revelar catastrófico), não vale a pena gastar muita energia a optimizar a escolha.

Seguir por um caminho “menos bom” mas com pena reserva de energia pode ser melhor do que tomar o “melhor” caminho com o depósito a meio.

Perder tempo a decidir também é uma decisão. E não deve ser necessariamente aquela a tomar por defeito.

Foto por Josh Sorenson – Pexels

Acção e Intenção

Quando estava a preparar-me para entrevistar a Judy Rees (entrevista em inglês), deparei-me com uma bela (e útil!) citação acerca de reuniões:

”O que é que eu quero que aconteça nesta reunião, e como resultado desta reunião?”

Judy Rees

Parece um lugar-comum, mas a verdade é que somos animais de hábito, e muitas vezes organizamos reuniões só porque sim – ou porque não temos ideias sobre o que fazer, ou, pior ainda, por força de hábito.

Formalizar a intenção é um primeiro passo para que a reunião não seja um desperdício de tempo. É uma forma light de estabelecer objectivos. 

Mas eu acho que podemos ir mais além. Para além da reunião. Acho que a regra da Judy pode ser aplicada a todas as acções que tomamos no dia-a-dia. 

É uma forma de estabelecer presença. Vai obrigar-nos a afinar o nosso foco, e vamos deixar de fazer as coisas que temos para fazer em auto-piloto; vamos passar a fazê-las com clareza. E a qualidade das nossas acções só pode melhorar em virtude disso.

E muitas vezes, estabelecer um objectivo claro é o suficiente para nos inspirar uma solução. Nem sempre… 

Mas vezes suficientes que justifique criar este hábito: antes de qualquer acção, pensa na intenção, no que seria o resultado ideal.

Pergunta a ti próprio: “Como é que vou tomar esta acção em que vou empreender, e o que espero como resultado?”

Pintura: “Diana e suas Ninfas” por Domenichino