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A Filha do Mar

Há uma certa qualidade que só o tempo nos traz. Quem conta histórias há tempo suficiente, com consistência e sem ordenhar os seus mundos e personagens de forma predatória, consegue erguer uma grande obra, bem alicerçada. 

A maioria dos produtores de videojogos cria décadas de história para um só produto. Uma canção pode referir-se a eventos de há 10 anos atrás no mundo de jogo, mas é uma medida de tempo artificial – o jogador sente que a génese da canção e da história que lhe deu origem é a mesma. 

A produtora de videojogos Bioware sofre disso: sempre a pular de universo em universo em função das modas, da criatividade volátil, quase infantil dos seus artistas, e das exigências dos seus investidores, nunca consegue que os seus mundos criem um passado histórico de forma orgânica. Tem que ser tudo pensado de uma assentada, ou ao longo de uma única geração de consolas.

No extremo oposto, e mais raro: a produtora Blizzard cultiva os mesmos universos há mais de vinte anos. Pode-se discutir o quão manchada a sua arte se foi tornando, em virtude de crescente pressão corporativa. Mas não se pode negar a consistência narrativa. O resultado é que em 2018 podem lançar uma obra musical baseada em factos “históricos” com 15 anos de existência, não em tempo no universo de jogo, mas no nosso tempo.

Há aqui mais do que um orçamento colossal e talento artístico impecável. Há uma vivência, uma história que refinou com o passar dos anos. Aposto que várias pessoas que trabalharam nisto estavam há quinze anos a viver os eventos que são hoje retratados em canção.

A maioria dos produtores de videojogos parece pensar que dinheiro faz arte. O dinheiro ajuda. Mas o que faz arte são os anos.

Perdido no Correio

Havia uma loja de informática de que eu gostava muito. Tinham bons produtos a bons preços, e ofereciam serviços de montagem e garantias que faziam sentido. Claro, as coisas nem sempre corriam bem. As transportadoras com quem eles trabalhavam não eram as mais profissionais. Mas o apoio ao cliente resolvia sempre o que podia resolver. 

Nem sempre é preciso resolver o problema para o cliente ficar satisfeito. Às vezes basta ser educado, e mostrar que se fez um esforço, que se teve atenção pela pessoa. O serviço é independente do resultado.

A semana passada enviei-lhes um email acerca do tempo de entrega estimado de um produto. Era Sábado, dentro do horário de funcionamento. Na Segunda-Feira ainda não havia resposta. Liguei. Não havia ninguém para atender. Quarta-Feira. A mesma coisa. 

No Sábado, exactamente uma semana depois, chega a resposta, com um pedido de desculpas mas sem justificação. Dizem-me a estimativa de tempo de entrega, como eu tinha pedido. 

Mas quem é que confia numa estimativa de tempo de entrega de alguém que demora uma semana a responder a um email?

A confiança é um bem frágil. Há que manusear com cuidado.

Marketing Ético

A senhora da padaria ofereceu-me um pão-de-forma.

Não foi parte de nenhuma promoção. Ela não me cobrou, porque era pão de ontem. Disse que não podia vender pão de ontem. Mas como sabia que eu gostava daquele tipo específico de pão para fazer torradas, perguntou-me se eu não o queria levar, de graça.

A partir de agora, vou àquela padaria sempre que puder. 

Não porque recebi uma “borla”. Foi uma situação pontual e não há garantias de que volte a acontecer.

Vou, porque sei que não me vão tentar aldrabar, a vender pão de ontem.

As tuas acções comunicam a qualidade do teu produto, do teu trabalho, muito mais do que as tuas palavras.

Fotografia: Animus Mirabilis Flickr via Compfight cc