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Perdido no Correio

Havia uma loja de informática de que eu gostava muito. Tinham bons produtos a bons preços, e ofereciam serviços de montagem e garantias que faziam sentido. Claro, as coisas nem sempre corriam bem. As transportadoras com quem eles trabalhavam não eram as mais profissionais. Mas o apoio ao cliente resolvia sempre o que podia resolver. 

Nem sempre é preciso resolver o problema para o cliente ficar satisfeito. Às vezes basta ser educado, e mostrar que se fez um esforço, que se teve atenção pela pessoa. O serviço é independente do resultado.

A semana passada enviei-lhes um email acerca do tempo de entrega estimado de um produto. Era Sábado, dentro do horário de funcionamento. Na Segunda-Feira ainda não havia resposta. Liguei. Não havia ninguém para atender. Quarta-Feira. A mesma coisa. 

No Sábado, exactamente uma semana depois, chega a resposta, com um pedido de desculpas mas sem justificação. Dizem-me a estimativa de tempo de entrega, como eu tinha pedido. 

Mas quem é que confia numa estimativa de tempo de entrega de alguém que demora uma semana a responder a um email?

A confiança é um bem frágil. Há que manusear com cuidado.

Marketing Ético

A senhora da padaria ofereceu-me um pão-de-forma.

Não foi parte de nenhuma promoção. Ela não me cobrou, porque era pão de ontem. Disse que não podia vender pão de ontem. Mas como sabia que eu gostava daquele tipo específico de pão para fazer torradas, perguntou-me se eu não o queria levar, de graça.

A partir de agora, vou àquela padaria sempre que puder. 

Não porque recebi uma “borla”. Foi uma situação pontual e não há garantias de que volte a acontecer.

Vou, porque sei que não me vão tentar aldrabar, a vender pão de ontem.

As tuas acções comunicam a qualidade do teu produto, do teu trabalho, muito mais do que as tuas palavras.

Fotografia: Animus Mirabilis Flickr via Compfight cc

Sexta-Feira Negra

Não sendo contra o capitalismo, quem me conhece sabe que a minha opinião é que compramos mais coisas do que devíamos. Seria de esperar que escrevesse algo a criticar a “Sexta-Feira Negra”, esse ritual consumista que os Estados Unidos exportaram para o resto do mundo.

Mas até gosto bastante da Sexta-Feira Negra!

Claro, é mais uma forma que as companhias têm de fazer uma lavagem cerebral ao consumidor, de convencer as pessoas a comprar coisas que não precisam, que não vão usar, e que muitas vezes as tentam a gastar dinheiro que não têm.

Mas há um jogo que eu gosto de jogar ao longo do ano. Sempre que vejo algo caro, algo que tenho vontade de ter, penso para mim mesmo: “Só um idiota é que compraria isto agora. Em Novembro ou Dezembro vai estar a metade do preço ou menos!”

E assim, acontece que acabo por comprar muito menos coisas ao longo do ano, porque sei por experiência que é factuamente verdade – quase tudo baixa de preço no final do ano.

Isto acontece muito no caso do meu hobby, os video jogos. A industria dos video jogos inflaciona brutalmente os seus produtos, porque têm uma espantosa máquina de marketing que se concentra em fazer as pessoas pensar que a melhor altura para desfrutar de um jogo é no mês em que ele é lançado. Cria nas pessoas o desejo de fazer parte da comunidade, da “conversa” em torno do jogo.

É claro, há muito poucos jogos sobre os quais vale a pena conversar. Mas não interessa, é essa a idea que é vendida, e com muito sucesso. É uma venda baseada no medo – no medo de perder a “onda” de entusiasmo colectiva. No medo de “não estar a par.”

Eu não tenho esse medo. Gosto de coisas velhas, gosto de descobrir filmes e livros e bandas de antes de eu ter nascido. Portanto, espero, em vez de comprar imediatamente. E o que acontece é impressionante: quando chega a Sexta-Feira Negra (ou evento promocional equivalente), não só compro as coisas que queria a metade do preço (que é o que considero o valor real e justo) como acabo por comprar menos coisas. 

Como a minha psicologia não está afectada pelo desejo de gratificação imediata, sei decidir melhor quais são as coisas de que realmente vou gostar, e quais meramente me “hipnotizaram” na altura em que as encontrei pela primeira vez.

O marketing têm muitos truques para violar a nossa psicologia. (É possível fazer marketing ético mas isso eram mais uns milhares de palavras.) O medo de perder “a onda” é o truque favorito da industria dos video jogos, mas a “Sexta-Feira Negra” é outro, mais geral. Mas agora, conhecendo os truques, já podes evitá-los… Ou ainda melhor, usá-los em teu favor!