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O Cavaleiro, a Sombra da Árvore, e o Mundo

O segredo de viajar não é para onde se vai; é o que se deixa para trás. 

O viajante nunca escapa de si próprio; para onde quer que vá, lá está. Mas já o sair de onde está, isso ajuda-o a habitar-se à ideia da impermanência das coisas.

Como o cavaleiro que para à sombra de uma árvore, goza da frescura, mas depois segue caminho; é assim que devemos encarrar o mundo.

As coisas que temos, entendamos que são passageiras; desfrutemos delas como o cavaleiro desfruta da sombra. Fará sentido guardar uma sombra como um dragão guarda um tesouro? Não – e tudo nesta vida é passageiro como uma sombra. 

Quando vais a um sítio, quando aprecias um livro, quando gozas de um momento de paixão: desfruta, enquanto essas coisas duram.

E depois, segue a viajem.

Pintura: “Paisagem ao Crespúsculo” por Aert van der Neer

Citação II

Para ponderar no fim-de-semana, uma citação que sublinhei recentemente, e me tem estado na cabeça:

“Confia em Deus – mas primeiro, ata o teu camelo.”

— Ditados do Profeta,  “Caravana de Sonhos”, por Idries Shah

Não vale a pena viver uma vida de medo e ansiedade. A maioria dos infortúnios que nos atormentam – como dizia Mark Twain – nunca chegam a acontecer. Encarar a vida com confiança que tudo se resolverá pelo melhor podem nem sempre ser a atitude mais realista, mas a alternativa é sofrer por coisas que ainda não aconteceram.

E no entanto, é verdade que a sorte é algo que acontece àqueles que se colocam em posição para a receber. Nunca ninguém ganhou a lotaria sem jogar. O que parece um sucesso da noite para o dia a quem está de fora, levou na realidade uma vida de tentativas falhadas. E aqueles que dormem de porta destrancada serão assaltados mais facilmente do que os que trancam portas e janelas…

Todos nós estamos à mercê da fortuna. Mas podemos sempre escolher como jogamos as cartas que nos calharam.

Pintura: “A Caravana” por Alexandre Gabriel Decamps

Juros Compostos

Se não gostas da maneira como alguém fala, ou das opiniões dessa pessoa, ou das posições que ela toma, podes sempre protestar. Podes chamar-lhe nomes, podes explicar todas as falhas do seu raciocínio. Podes até tentar manifestar o teu desagrado aos que a rodeiam, tentar castigá-la prejudicando a sua vida.

Todas são opções válidas. Mas serão opções uteis? Mesmo que tenhas sucesso a implementar uma ou mais das estratégias acima descritas, será que vais conseguir que essa pessoa mude de ideias? Provavelmente, não. As más ideias raramente morrem. Quando confrontadas com violência, escondem-se debaixo de terra, e crescem, à procura de uma oportunidade para ressurgir.

A alternativa, é claro, é a que dá trabalho, mas funciona. Talvez consigas pôr de parte a tua revulsão perante a pessoa em questão, e ouvi-la. Ouvi-la expôr as suas ideias revoltantes, erradas e dolorosas. E talvez ouvir um pouco mais para além disso. E depois podes, humildemente, acrescentar:

“Sim, entendo porque pensas assim. E se…” 

E desse “E se…” tenta apresentar o mínimo de contrariedade possível, uma mera nota de discórdia. E resguarda a tua resposta emocional quando ela for recusada de imediato. A única coisa que isso significa é que tens que ouvir mais.

As ideias das pessoas podem mudar, sim. Mas a mudança é como a água do mar a mudar as rochas que banha.

A vantagem de cultivar tal paciência, e de suportar tanto trabalho? É que quando essa pessoa começar a ouvir o que dizes – quando já não fores um estranho(a) – ela vai mudar a sério, não vai só esconder-se debaixo da terra.

E então, vai haver mais uma pessoa no mundo pronta a ouvir os outros, e a dizer um “E se…” de quando a quando.

Pintura: “Discussão por um jogo de cartas” por Jan Steen