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Alta Definição

Meditar não é buscar um estado mental ou físico sublime. Meditar pode conduzir a isso – especialmente na vertente de exercício de respiração – mas não é esse o propósito da meditação.

O propósito da práctica de meditação é, em primeiro lugar, notar os filtros que aplicamos à nossa vida, à nossa percepção. Filtros que cobrem toda a nossa experiência sensorial constantemente, e que são invisíveis a menos que:

  1. Aprendamos acerca da sua existência.
  2. Treinemos a concentração necessária para os detectar.

Usamos óculos para ver com mais clareza. Compramos televisores maiores para melhor apreciar a arte da cinematografia ou do desporto. Usamos auscultadores de melhor qualidade para apreciar com mais definição o som do instrumento e a voz do cantor.

Nenhuma destas experiências, por refinadas que se tornem, nos conseguem levar ao mesmo sítio que a meditação nos leva. 

Mas a meditação, uma vez chegado a determinado patamar, clareia a nossa experiência de todas estas coisas – e de tudo o resto.

Ser a Pessoa Mais Burra na Sala

Tento sempre ser a pessoa mais burra na sala. Ou na equipa. Não tenho interesse em contratar pessoas menos inteligentes que eu. Porquê?

  1. Se eu sou o melhor a fazer uma coisa, faz sentido ser eu a fazê-lo. Porque pagar a outrem para tratar dessa tarefa, se eu faço melhor?
  2. Se eu sou o mais burro, então posso aprender com todos os outros. Ninguém tem mais possibilidade de crescimento que eu. É uma excelente posição para ocupar.
  3. O verdadeiro teste de mestria é saber ensinar. Quando eu sei menos que os que trabalham sob a minha alçada, isso força-os a explicar-me as coisas, a ensinar-me. Isto pode ser ligeiramente irritante para eles numa primeira instância, mas ao ensinar-me, eles mesmos vão conseguir reparar em detalhes que antes tinham passado despercebidos. Ter que me explicar coisas força-os a reavaliar e aprimorar o seu conhecimento.

A relação entre mestre e aprendiz não funciona num único sentido; é reciproca e simbiótica.

Se és a pessoa com mais conhecimento na sala, estás na sala errada.

Pintura: “Os Jograis Divertem-se Mais” por Adriaen Pietersz van de Venne

Sossego (Quase) Forçado

Cada vez me distraio com mais facilidade. É possível que tu, também. 

Somos ciborgues imperfeitos; temos toneladas de tecnologia mal-coladas ao nosso corpo, e não temos largura de banda para absorver toda a informação ao nosso dispor a cada momento.

Pior, não temos uma boa forma de absorver informação de várias fontes ao mesmo tempo.

A mim, afectava-em especialmente a manhã. Quando acordava, o mais fácil era agarrar logo no telefone e começar a ver noticias, ou mensagens, ou emails, ou posts de Facebook e de Twitter… Enfim, tudo servia como desculpa para não me levantar e fazer as coisas que se podem classificar como realmente viver a vida.

Descobri quase por acaso (Será uma coisa nova? Não sei.) uma função chamada “Downtime” no iOS. Posso configurar um período (por exemplo, das 21:00 às 9:00 ) em que o telefone bloqueia aplicações, e só deixa receber chamadas e SMS. Não é um bloqueio muito forte – basta um toque para desbloquear uma aplicação se precisar MESMO de a usar – mas é o suficiente diminuir a disciplina necessária à manutenção do auto-controle.

Mais uma vez, prova-se que é mais eficiente reduzir opções e criar obstáculos face a comportamentos indesejados, do que confiar na disciplina e força de vontade.

Pintura: “O Sono Interrompido,” por François Boucher