Arquivo da Categoria: Filosofia

Sem Modo “Fácil”

Nos últimos dias, tive que ler um livro que estava muito acima da minha capacidade. Era um livro que presumia muito conhecimento anterior da minha parte. Tive que parar várias vezes para pesquisar o significado de palavras que desconhecia, e para consultar livros referidos na bibliografia.

Na nossa sociedade facilitista, seria fácil dizer que o livro era pobre, que era muito exigente, que não era didático.

Mas não é razoável exigir que todos os livros sejam escritos para leigos. Como é que é possível alcançar profundidade de conhecimento, se perdemos tanto tempo a fazer o reconhecimento da superfície? Não; uma obra que queira contribuir de forma significante para o todo, tem que assumir que o leitor já passou pelas bases.

Acabei por fazer a entrevista, e acho que não fiz má figura. Domino o material? Não, nem um pouco. Consegui reter algumas ideias, alguns princípios, consigo ter uma discussão inteligente sobre o livro e o material que lá está, mas precisaria de mais algumas (muitas!) luas para saber implementar o material.

Mas o simples projecto, o esforço destes ultimos dias, obrigaram-me a ser um leitor mais focado, mais rigoroso, obrigaram-me a fazer notas e a construir muito bem as minhas questões. É um “subir de nível” que só foi possível porque me atrevi a atirar-me a um livro mais forte do que eu.

Atreve-te também.

Pintura: “A Forja de Vulcano” por Francesco Bassano

Um Dia de Descanso

Não é trabalho que nos cansa, é estar ocupado.

É a multitude de tarefas a competir pela nossa atenção, são as prioridades para equilibrar, são as outras pessoas, colegas e patrões, que precisam de um pouco do nosso tempo. 

E num dia de descanso, mudam as prioridades, mudam os objectos de atenção, mudam as pessoas que precisam (e merecem) do nosso tempo. São os nossos hobbies, os nossos prazeres, os nossos amigos e familiares.

Um dia de trabalho, um dia de trabalho a sério, um dia passado com foco numa única tarefa – esse sim é um dia de descanso.

O Cavaleiro, a Sombra da Árvore, e o Mundo

O segredo de viajar não é para onde se vai; é o que se deixa para trás. 

O viajante nunca escapa de si próprio; para onde quer que vá, lá está. Mas já o sair de onde está, isso ajuda-o a habitar-se à ideia da impermanência das coisas.

Como o cavaleiro que para à sombra de uma árvore, goza da frescura, mas depois segue caminho; é assim que devemos encarrar o mundo.

As coisas que temos, entendamos que são passageiras; desfrutemos delas como o cavaleiro desfruta da sombra. Fará sentido guardar uma sombra como um dragão guarda um tesouro? Não – e tudo nesta vida é passageiro como uma sombra. 

Quando vais a um sítio, quando aprecias um livro, quando gozas de um momento de paixão: desfruta, enquanto essas coisas duram.

E depois, segue a viajem.

Pintura: “Paisagem ao Crespúsculo” por Aert van der Neer