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Falhar e Continuar

No outro dia estava a jantar fora e na televisão passavam os Jogos Europeus 2019 – especificamente as provas de ginástica. 

Não sigo muitos desportos mas gosto de ver quando calha, porque acho que as atitudes dos melhores desportistas profissionais são atitudes que vale a pena emular. Afinal de contas, são pessoas que trabalham arduamente meses a fio para poder provar os frutos desse trabalho apenas um par de vezes por ano. A disciplina e sangue frio necessários são qualidades que admiro.

Foi o caso numa das provas a que assisti. A rapariga estava a dançar e a fazer piruetas com um bastão, e a certa altura, atirou o bastão ao ar, deu um passo de dança, e quando tentou apanhar o bastão, este bateu-lhe na mão e caiu ao chão.

Ela ficou chocada e atrapalhada durante aproximadamente um quatro de segundo; depois, pegou no bastão e seguiu com o numero – uma conclusão, a meu ver, perfeita.

Pensem na intensidade emocional durante esse quatro de segundo: nesse momento, ela perdeu a prova. Não importa o quão bem executasse o resto, foi uma falha tão crassa que seria impossível ganhar, a menos que todas as outras concorrentes cometessem gafes similares. (E algumas já tinham actuado, e não as cometeram.) Nesse momento, meses de trabalho, de dedicação, de dias longos e privações… Evaporaram-se.

O que teria feito, caro leitor, no lugar desta pessoa?

O que fazemos nós, quando uma hora ou um dia ou duas semanas de esforço não resultam no que queremos? Quando falhamos, ou quando as coisas correm mal? 

Por quanto tempo choramos, matutamos, nos arrastamos pelos cantos, rogamos pragas ao universo? Por quanto tempo nos deixamos ficar em baixo, quanto tempo levamos a recomeçar? Quanto tempo fazemos de luto pelos nossos sonhos despedaçados, pelos nossos planos logrados?

(Uma adivinha, já agora: qual é a coisa de que tanto a Morte como a Vida se riem com igual folia? Isso mesmo: dos nossos planos.)

Um quarto de segundo, foi o que esta rapariga devotou ao luto. Depois – prosseguiu. Apesar do objectivo estar perdido. Apesar da esperança ter desaparecido. Não interessa. Ela treinou para isto. Treinou do principio ao fim. Mais tarde, terminada a prova, haveria tempo para lágrimas. Naquele momento, ela tinha começado a prova, e ia acabar.

É isso que os profissionais fazem.

Fotografia: Erin Costa Flickr via Compfight cc

A Subtil Arte de Não Aprender

Desde que me lembro, que sou uma esponja de informação. Não sei mesmo ao certo quando começou – suspeito que depois de terminar a faculdade, mas é possível que tenha sido antes.

Cada minuto do meu tempo livre, eu passo a aprender. Se vou caminhar ou fazer exercício, estou a ouvir um podcast ou audiobook. O mesmo a cozinhar ou lavar a loiça. Se estou a comer em casa, estou a ver uma palestra no YouTube. Nem vou para a casa de banho sem um livro ou artigo.

O resultado é que acumulei muito conhecimento, sem dúvida. E como faço um esforço para selecionar as coisas que consumo, até posso dizer que é informação maioritariamente útil.

Mas vou fazer a experiência de parar. Porque acho que, ao mesmo tempo que ganhei conhecimento, perdi capacidade de o aplicar. Porque, ao encher a cabeça de aprendizados, receio não lhe dar, há já muito tempo, capacidade de a digerir.

Foi essa a lição do banho de Arquimedes – a lição que nos diz que a solução para os problemas que nos atormentam surge quando paramos de a procurar. 

O meu tempo tem sido sempre passado à procura de algo.

Agora, vou dar espaço para as soluções surgirem.

Fotografia: scott1346 Flickr via Compfight cc

Citação IV

“Se estás arrependido de me ter beijado – retira o teu beijo.”

— Provérbio, “Caravan of Dreams” por Idries Shah

Todos mudamos. Se não mudássemos, era muito mau. Era sinal de que não aprendíamos nem crescíamos. 

A mudança – de gostos, de opiniões, de paixões – não é sinal de uma mente fraca. É sinal de uma mente adaptável, de um espirito que busca a compreensão e a verdade, que não se deixa prender no dogma da pessoa que era ontem.

Mas continuamos responsáveis pelas decisões e acções do nosso eu anterior, da pessoa que fomos no passado. As acções perduram, mesmo que nós já não sejamos a pessoa que éramos quando as tomámos.

As marcas que deixamos nos outros são mais difíceis de alterar do que as pessoas que somos. As nossas acções sobrevivem à morte das nossas personalidades.

Toma-as com devido respeito.