Arquivo da Categoria: Filosofia

Meditação e Desenvolvimento Pessoal – Inimigos Mortais?

Hoje quando estava a meditar, ocorreu-me uma coisa. Não é só o caso que a meditação me ajuda a ver o mundo em alta-definição. É que a meditação me ajuda a aceitar-me a mim mesmo, como sou.

Isto gera uma certa tensão entre a meditação e o desenvolvimento pessoal.

A meditação trata de estar satisfeito no momento. O desenvolvimento pessoal nasce da insatisfação.

A meditação é acerca de viver o momento presente. É acerca de entender que o aqui e o agora bastam, e que as projecções de passado e futuro em que a nossa mente passa a maior parte do seu dia-a-dia são, quase sempre, a causa do nosso sofrimento.

A meditação também nos dá prespectiva e claridade, e ajuda-nos a ver os nossos excessos.

Já o desenvolvimento pessoal centra-se no futuro. Desenvolvimento pessoal é acerca de visualizar um “eu” melhor como um objectivo, uma situação melhor no futuro, a que almejar, e traçar um plano nessa direcção. Um plano não é mais do que uma sucessão de micro-futuros cada vez mais próximos.

Mais, o desenvolvimento pessoal exige, muitas vezes, excessos. Sacrificios. Analisando qualquer pessoa que tenha alcançado algo de sublime, consegue-se determinar que o sucesso veio do foco num objectivo. O foco vem da capacidade de estabelecer prioridades, e de as seguir. O estabelecimento e seguimento de prioridades exige, por definição, deixar outras coisas para trás. Ou seja, sacrifícios.

É possível, é claro, alcançar alguns objectivos sem excessos. Mas raramente os grandes passos da vida surgem sem um exforço fora do normal, um esforço que deixa cicatrizes.

A verdade é que quando medito, quando consigo fazer uma sessão de meditação mais profunda, sinto-me menos interessado nos meus objectivos. Não é um desinteresse apático; é mais um “as coisas já estão bem, o objectivo não é assim tão importante.”

Isto assusta-me um bocado. Por muito que seja bom estar satisfeito com o momento presente, gosto de zelar pelo momento presente do Luís Futuro.

Somos seres feitos de dicotomias. Em nós vivem as trevas e a luz, o caos e a ordem. Esta dicotomia – entre a paz de viver no presente e a tensão necessária para um futuro melhor – é mais uma imperfeição da vida, para ser aceite.

A Inutilidade De Proferir Crença

No outro dia perguntaram-me acerca da minha crença em Deus. A minha resposta é privada, mas a pergunta levou-me a pensar na inutilidade da declaração de crença em Deus ou noutro poder superior.

Não vejo a utilidade de se separar pessoas em “crentes” e “não crentes.” Não é mais util do que, digamos, separá-los em altos e baixos, loiros e morenos.

Vejamos, é util separar as pessoas por afiliação, na medida em que a afiliação é resultado de uma decisão.

O problema é que “acreditar” não é uma decisão. A decisão pode ser, quando muito, “fingir em acreditar.” Mas o “acreditar” (ou não) é fruto de uma interacção entre a informação proporcionada pelo mundo, e o nosso mapa interno que faz a correspondência entre essa informação e a nossa concepção da realidade. Este processo é automático – não é uma decisão!

Imaginemos que eu me dirijo a vós, leitores, e vos informo: “O Céu é verde!”

A informação visual que vos é disponível vai contra a que eu acabei de dar. Face a esse conflito de informação, o vosso sistema vai até ao vosso mapa, para determinar qual é a fonte que é considerada mais fiável: o Luís ou o vosso aparato de processamento visual. Dependendo do que o vosso mapa declarar como a fonte mais fiável, vocês vão acreditar que o céu é verde, ou não. Em ponto algum fizeram uma decisão. Vocês não decidiram confiar mais nos vossos olhos do que no Luís. Não pensaram sequer nisso – foi um processo instantâneo.

Podem, no entanto, decidir que não querem magoar os frágeis sentimentos do Luís. Assim, decidem dizer que acreditam que o céu é verde. Mas não acreditam, na realidade. É uma preferência falsificada, que tomaram porque era o caminho para um resultado social desejável.

E não há nada de mal nisso! O Luís agradece que se compadeçam pelo seu ego frágil. Mas não mintam a vós próprios – vocês não decidiram acreditar. Vocês decidiram dizer que acreditam.

Portanto, quando confrontado com a pergunta “Acreditas em Deus?” Não percebo o interesse da resposta. Se eu acredito em Deus, ou não, está fora das minhas mãos. 

Posso mentir em relação a isso, para beneficio social, mas a minha crença ou não-crença não diz nada acerca do tipo de atitudes que tomo, das decisões que faço na minha vida, pois ela não é uma decisão. É um processo automático. 

Uma pessoa cujo mapa interno lhe diga que os seus olhos são uma fonte de informação muito mais fiável do que o Luís, nunca poderá realmente acreditar que o céu é verde, por muito que queira. 

Podíamos dizer a essa pessoa que, se ela ao menos acreditasse que o céu é verde, o mundo ver-se-ia magicamente livre de cancro, pobreza, e mortalidade infantil. E ainda melhor, a pessoa em questão receberia um trilião de dinheiros. Quem não quereria acreditar que o céu é verde, nestas circunstâncias?! 

Mas não dá. É impossível ir contra o nosso mapa interno, por muito vantajoso que seja para nós. O “melhor” que conseguimos fazer é mentir acerca da nossa crença, conforme necessário.

E se passássemos a julgar as pessoas pelas suas decisões, e não pelos processos automáticos que ocorrem no seu sistema nervoso?

Céptico, Mas Grato

Eu sei que ás vezes posso parecer rezingão. Não é por mal. Eu gostava muito de ser uma daquelas pessoas super-positivas e sacarinas, que vêem o copo sempre meio-cheio. Direi mesmo mais: é esse o meu estado normal. Mas opto – opto! – por não o encarnar.

É que não é preciso. Não é uma especialidade rara – o único requisito é ser-se ignorante! O mundo tem mais do que material humano suficiente para suprir as suas necessidades de positivismo.

E depois, é uma questão pratica. Se eu assumir o melhor, e defender a posição de que é tudo unicórnios e arco-íris, então quando o céu começar a desabar, vou andar de um lado para o outro como uma galinha sem cabeça – como todos os outros.

Assumindo o pior, por outro lado, ajuda-me a estar preparado. Assim, se o desastre acontecer, alguém está preparado. E se o futuro me revelar enganado, bem, é um engano que assumo com prazer. É sempre bom quando as coisas correm melhor que o esperado!

Premeditatio malorum, penso que era o que os estóicos lhe chamavam: o ensaio das piores circunstâncias, para que os revéses da fortuna não os apanhassem desprevenidos. 

Parece-me uma prática sábia, e nada contrária a uma vida feliz. Cepticismo não é ingratidão; pelo contrário, é o reconhecimento de que é tão fácil as coisas correrem mal, que o facto de elas correrem bem na maioria dos dias é um milagre digno de ser reconhecido como tal.

Foto por Johannes Plenio via Pexels