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Estações

É fácil ser-se cínico em relação ao Natal. É fácil dizer que o espírito de família, de generosidade e fraternidade nos devia acompanhar o ano todo. E argumentar que não há razão para esses valores virem ao de cima nesta data específica.

Mas pensar assim é assumir o ser humano como um ser puramente lógico. Nós não funcionamos assim. Nem se trata apenas de sermos geridos por emoção; somos seres de emoção volátil. Por muito que reconheçamos estes valores como desejados, não os conseguimos assumir de forma permanente.

É a nossa natureza; somos criaturas de estações.

Isaque

Criar algo com valor exige sacrifício. Qualquer coisa que seja admirável – dirigir um filme de sucesso, escrever um livro que mude vidas, explorar uma floresta selvagem, escalar a maior montanha do mundo, criar uma criança que seja uma boa pessoa, com talento e valores…

Todas estas coisas saem da pele de quem as executa. Por detrás de cada uma destas conquistas está uma história de sacrifício. Sacrifício de saúde, ou de fortuna, ou de relacionamentos pessoais, ou de carreira, ou de muitas outras coisas, e provavelmente de uma combinação de várias delas.

Há muitas pessoas que não estão dispostas a fazer o sacrifício. Por isso é que o mundo está cheio de arte mediocre, de desportistas amadores, de pessoas inacabadas. 

Mas tudo bem. Ninguém é obrigado a sacrificar o que não quer sacrificar. Não há a expectativa de que cada pessoa deva produzir algo de valor ímpar para o mundo.

Mas que cada um saiba se o quer fazer ou não – e que esteja consciente do preço a pagar.

O Ciclo da Vida

Há um ritmo que descreve a vida do guerreiro, um ritmo de prosperidade e declínio, de harmonia e discórdia. Há um ritmo no Caminho do mercador, de se tornar rico e de perder a fortuna, na ascensão e queda do capital. Todas as coisas envolvem ritmo crescente e decrescente.

— Miyamoto Musashi, O Livro dos Cinco Anéis (tradução minha)

A ascensão e a queda: fortuna e infortúnio, vida e morte, felicidade e miséria. Nenhum rei governa para sempre. A vida é uma sequência de ascensões e quedas, de morte e renascimento. 

Durante a tua vida, se te encontrares a aprender e crescer, vais te levantar e voltar a cair muitas vezes. Se tentares construir uma fortaleza em torno de ti, e dela não te moveres, para evitar a queda… Não crescerás. E inevitavelmente cairás, mais tarde ou mais cedo.

E quando saíres debaixo dos escombros, e vires o mundo fora da fortaleza depois de tantos anos de exílio auto-imposto… Será que o vais reconhecer?