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Na Vitória e na Derrota

“Se sentes sucessivamente a picada de um bico afiado, o bico não se manterá afiado por muito tempo. (…) Quando o trabalho está concluído, e ao teu nome, oferecidos louvores, o caminho do Céu está no recuar para a obscuridade.”

— Tao Te Ching, Verso 9

Se a atitude foi correcta, se o caminho percorrido foi o nobre, o resultado é secundário. O mérito ou demérito nunca é exclusivamente teu – a Fortuna tem sempre uma palavra a dizer.

Festeja a vitória com os mais próximos, com boa postura, generosidade e em moderação. A ostentação afasta os amigos e a inveja tenta os inimigos.

Suporta a derrota com dignidade. Procura apoio nos que te são mais próximos e de confiança, mas assume a tua responsabilidade – não os exponhas a amarguras, não os tornes testemunha de ressentimento. 

Nada dissolve amizades mais depressa. Qualquer pessoa de bem entende a dor e sofrimento do seu congênere. Mas ninguém gosta de pessoas revoltadas com a vida. Ninguém atura um choramingas.

Se o bico da derrota te pica tão insuportavelmente, é porque precisas de ser derrotado mais vezes, até que ele fique rombo.

O Homem Zangado

Quando estava na loja do cidadão para tratar de uns documentos, vi entrar um homem que adivinhei logo que ia ter problemas.

Não sei ao certo o que me levou a pensar assim, mas arrisco dizer que foi a expressão. O homem, de fato de treino e mochila às costas, parecia acabado de sair do ginásio mais próximo, mas estava longe de trazer consigo a boa-disposição de um treino acabado. 

Entrou com um ar enjoado e impaciente – uma má forma de entrar para uma sala de espera onde estão já umas duas dúzias de pessoas. 

Porque é que assumi que teria problemas? A experiência diz-me que coisas más acontecem a pessoas zangadas. Não me vou pôr a filosofar acerca dos mecanismos pelos quais isto acontece. 

Os espirituais dirão que é o karma, os esotéricos, que é a lei de atracção, e os mais científicos, que a sua percepção e filtração dos estímulos do mundo exterior está alterada e os expõe a infortúnios de desatenção.

Eu, por minha parte, observo-o consistentemente. E isso basta-me, pois não estou a escrever uma tese; basta-me ter uma heurística que funciona e só tem que ser reavaliada depois do dia em que deixar de funcionar.

O certo é que o senhor, depois de se ter dirigido um par de vezes ao balcão para ter a certeza que não se esqueciam da senha dele, acabou por se ausentar – talvez para ir apanhar um pouco de ar fresco – no momento em que foi chamado. E quando voltou, já a funcionaria responsável se tinha ido embora, para gozar da hora de almoço.

Claro que barafustou, e chamou nomes, e disse que nada do estado funcionava, e os habituais lugares-comuns. E até podia ter alguma razão. E mesmo que não tivesse, eu gosto sempre de dar o benefício da dúvida. 

Afinal de contas, quando uma pessoa é desagradável ao pé de nós (ou connosco) não sabemos o caminho o que ela trilhou para ali chegar. Pode ter vindo de um problema sério – da doença de um familiar, de um despedimento, de um assalto em casa. 

Mas uma coisa é certa: numa sala cheia de pessoas, a maioria das quais estava lá à espera há bem mais tempo, ninguém ficou a gostar mais dele. Decerto alguns até ficaram silenciosamente satisfeitos com o seu prejuízo. Eu cresci numa geração em que estava na moda dizer que não tínhamos que nos importar com o que os outros pensam de nós. Mas não é bem assim. A vida corre melhor quando as pessoas gostam de nós. E ninguém gosta de um tipo zangado.

E ele? Terá o seu dia ficado melhor por ter barafustado, por ter gritado e chamado nomes? Não creio. As pessoas dizem que faz bem deitar as coisas cá para fora, mas a ciência não concorda – o que deitamos cá para fora define-nos, mais do que qualquer coisa. E o que nos define, repetimos na nossa cabeça. Vezes e vezes sem conta.

E com uma pessoa zangada na cabeça o dia todo, como esperar que as coisas corram bem?

Pintura: Septimius Severus e Caracalla, por Jean-Baptiste Greuze.

Sem o Esforço

Fui aceder ao Evernote, coisa que não faço com frequência. Na verdade, só lá fui porque não sabia o que havia de escrever hoje e pensei que ver notas antigas me podia inspirar.

Não precisei de ir muito longe, porque vi o novo slogan deles: “Sente-te organizado, sem o esforço.”

Vou ignorar o facto de que alguém se sentir organizado não gera os mesmos benefícios do que efectivamente ser organizado (é um ganho a curto prazo versus a longo prazo).

“Sem o esforço.” É uma promessa matreira.

Phantasy Star é um antigo jogo de aventura. É relativamente pouco sofisticado, afinal de contas, tem quase a minha idade. Mas jogando-o hoje, cativa-me mais do que muitos jogos modernos. 

É que, ao contrário da maioria dos jogos modernos, o jogo não faz um registo do mapa quando a personagem avança. Tenho que ser eu, com uma caneta e papel quadriculado, a desenhar o mapa passo-a-passo, para não me perder.

É trabalho demais para jogar um jogo? Talvez. Depende da disposição. Mas é inegável que a experiência fica enriquecida, transcende o meio electrónico, e faz da aventura mais “minha.”

Se o objectivo é satisfação, o esforço é parte disso.