Arquivo da Categoria: Filosofia

A Estranheza de Prestar Atenção

Há uma estranheza inerente ao mundo. É só olhar com atenção suficiente.

Sabemos o que é uma mão. É uma parte do nosso corpo. Sabemos o que constitui a mão – ossos, tecido nervoso, tecido muscular, cartilagem, etc. 

E no entanto, faz a experiência de olhar para a tua mão, numa circunstância relaxada, durante alguns minutos. Não tentes pensar acerca ela. Olha, apenas. Se quiseres ir um pouco mais além: usa-a para apontar directamente para a tua cara, para os teus olhos, e direciona o olhar para a ponta do dedo.

Não sabes que coisa é esta. Não sabes como funciona. Não sabes que sensação é esta, provocada por meramente testemunhar uma parte do teu corpo.

Agora tenta com um animal de estimação. É um cão. Ou um gato. Ou uma iguana. Tal como no caso da mão, a classificação é trivial.

Mas observa mais de perto. Os movimentos. O detalhe dos pelos ou pele. O molhado do nariz; o padrão que cobre a pele do nariz. A própria estranheza do facto da co-habitação deste ser, em harmonia contigo. A estranheza das acções, do “estar.”

Observado com suficiente atenção, pondo de parte as etiquetas, a classificação… Podia ser um extraterrestre que observas. É igualmente estranho.

É assim que as crianças vêem o mundo? Não sei. Mas é um plano de experiência acessívél a todos. 

Basta observar com atenção.

Qualidade I

Napoleão dizia (poderá ser um apócrifo)  que a quantidade tinha uma qualidade em si mesma.

Isto faz sentido na arte da guerra. Nem sempre o vencedor é o que tem mais carne para canhão. Mas ajuda. 

Mas não na vida, não tanto. 

A nossa vida é uma série de consumos: de emoções, de comida, de livros, de filmes, de tudo o que é arte, e prazer terreno, e estimulação intelectual.

É melhor ser a pessoa que tem todas as horas da sua via preenchidas por uma procissão interminável de experiências ensossas?  Ou aquele que disfruta, durante largos trechos de tempo, de experiências de alta qualidade?

O relógio não pára. Decide o que preferes.

O Culto Da Opinião

Outro paradoxo da sociedade moderna:

  1. Vivemos numa sociedade de comentadores
  2. A humildade é uma virtude exaltada

Todos os dias há um ou vários temas para debater. E do “cidadão respeitável,” espera-se que junte a sua voz a esta arena social, que dê o seu julgamento acerca de temas que lhe são apresentados com a nuance de um martelo pneumático.

A “humildade” passou a ser um sinal social, uma coisa que se finge, o tal beijinho que se dá à amiga dos pais só por educação.

Onde é que está a humildade de dizer “não percebo deste assunto?”

Eu percebo de:

  1. Medicina (com ênfase na cabeça e pescoço)
  2. Videojogos
  3. Escrever
  4. Investigação Científica (IE, pesquisa, estatística, e o método científico)
  5. Filosofia

Foram estas as áreas sobre as quais me debrucei, quase excluindo tudo o resto, ao longo da maior parte da minha vida. Fora isso, nos últimos anos, tenho feito um esforço para aprender:

  1. Marketing
  2. Gestão
  3. Gravação e edição de audio
  4. Entrevistar
  5. Cozinhar

Não discursaria sobre um destes temas face a um perito. Posso elucidar uma plateia leiga em alguns aspectos, mas tenho muito a aprender.

E é tudo. São cinco coisas em que me sinto à vontade, e cinco coisas em que tenho alguma confiança. Tudo o resto? Não sei. Não estudei. Não falo sobre isso. Não tenho opinião.

Quais são as tuas dez?

Fotografia: Julian Meehan Flickr via Compfight cc