Category Archives: Filosofia

O Som do Silêncio

Custa-me trabalhar com audio, porque é preciso silêncio. Quando estou à procura de diferenças de volume entre faixas, ou de artefactos para cortar, não me posso dar ao luxo de estar a ouvir música, ou o som da chuva.

Antes do trabalho como Podcaster me forçar a silenciar os barulhos de fundo, não me tinha apercebido de como eles me eram essenciais. Sempre me julguei um amante do silêncio – é completamente impossível trabalhar com pessoas a falar, mesmo que não estejam a falar comigo. 

Não é que o silêncio me perturbe. Mas também não inspira. Já sons ambientes (chuva, pássaros) ou musica (especialmente instrumental) ajudam a lubrificar a mente. Acho que comecei a colocar auscultadores ou música alta como uma forma de “fechar a porta”, de não ter que ouvir os outros. Mas a certo ponto, o som tornou-se parte do processo.

Todos mudamos. Mas raramente mudamos de acordo com um plano. Mudamos, isso sim, como consequência das nossas acções – e muitas vezes, sem nos apercebermos da mudança.

Fotografia: Visavis.. Flickr via Compfight cc

Fartos de Ler Sobre Steve Jobs? Falemos de Camisolas de Gola Alta

A história conta-se assim: que um famoso inventor tinha o roupeiro cheio de camisolas pretas de gola alta. A razão para isto? Era menos uma decisão a tomar no início do dia, não tinha que ocupar o seu cérebro com a perene pergunta que assombra o comum mortal todas as manhãs: “O que irei vestir hoje?”

O objectivo, pensa a maioria, era que assim, esta pessoa inteligente teria a cabeça livre para ponderar a miríade de ideias que lhe surgiam.

Mas não é esse o caso. O objectivo de tal exercício não é criar espaço para pensar noutras coisas, mas meramente criar espaço. Alguém sem rotina acorda e vê a sua cabeça imediatamente preenchida por decisões que têm que ser tomadas: “O que vou comer, o que vou vestir, o que vou fazer?” O cérebro começa a mil ao levantar e assim continua até deitar.

Nenhum engenho, por eficiente e resistente que seja, sobrevive a tal utilização. E no entanto, é esse o nível que utilização que lhe damos ao longo da maior parte das nossas vidas.

Praticar meditação ajuda. É esse o propósito da prática. Não é sentar sem pensar durante um período pre-determinado, mas praticar estar presente, para que se possa aplicar essa experiência ao longo do dia.

Criar um conjunto de escolhas pre-determinadas, como o tal tipo fez, é uma forma de criar espaço mental para isto. Uma forma simples de começar: tenta tomar o mesmo pequeno-almoço (de preferência, saudável) durante um mês. Vê qual o impacto que isso tem na tua manhã.

Podes não inventar o próximo iPhone, mas provavelmente terás um dia mais agradável.

Fotografia: ijpatter1 Flickr via Compfight cc

Salvar a Filosofia

A filosofia saiu da minha vida depois de terminados os últimos exames no secundário. Não havia razão para continuar. Foi-me ensinada como uma versão mais aborrecida de história: esta pessoa pensava isto, a outra pessoa defendia aquilo, etc. Não havia qualquer propósito por detrás do conhecimento – agora percebo que o que me foi ensinado não foi filosofia, mas sim história da filosofia.

Não havia razão para a aprender para além de ter melhores notas e parecer culto. E esta última estava longe de ser prioridade para um miúdo de 17 anos.

Avançando pela vida adulta, estava tão pouco preparado como qualquer um para enfrentar os seus desafios: perda, adversidade, terror existencial, confrontação com estruturas tirânicas, resistir a tentações, medos e ansiedades, e todos os primos e parentes destes conceitos.

Morreu a mãe de um amigo meu há um par de meses. É uma experiência pela qual, é garantido, a maioria de nós vai passar. É um evento completamente previsível no decurso de uma vida normal. E no entanto, o meu amigo não estava minimamente preparado – tal como a maior parte de nós não está.

Porque é que não nos ensinam a lidar com estas coisas na escola?

Depois de um longo percurso pela industria do desenvolvimento pessoal (ou, como eles não gostam de ser chamados, da “auto-ajuda”) , dei por mim a voltar à filosofia, pelas palavras de Marco Aurélio e outros Estóicos. Foi então que percebi: há um espaço dedicado a ensinar-nos como lidar com os desafios da vida. Era para isso que deviam servir as aulas de filosofia.

Alguém pôs a pata na poça quando determinou como a filosofia seria ensinada nas escolas.

Parte do que estou a tentar fazer aqui, com estes escritos, é corrigir isso. Estou a tentar reconquistar a filosofia, salvá-la das salas de aula e trazê-la para o lugar onde pertence: o nosso dia-a-dia, as nossas vidas.

Fotografia: Free Public Domain Illustrations por rawpixel Flickr via Compfight cc