Arquivo da Categoria: Ficção

Brechas – 5 – Escravizada

Nota: Este trabalho de ficção incluí descriçoes de cenários infernais e violência fisica que podem ser impróprios para pessoas mais impressionáveis.

Avancem com a devida cautela.

O Autor

“Devo ter morrido, e ido para o inferno” era tudo o que lhe passava pela cabeça. Entre isso e preces por salvação, Alison já não sabia quanto tempo se tinha passado. Dias ou meses, ela tinha perdido a noção.

Os olhos não abriam, o corpo não mexia, não lhe obedecia. Estava paralizada, e não sabia há quanto tempo – parecia que tinha sido sempre assim.

Mas tudo o resto mexia, ela sentia tudo a mexer, a sensação de escamas viscosas a roçar na sua pele a cada segundo de cada minuto de cada hora, as coisas que ela nem queria pensar no que eram a mexer dentro dela, a entrar pela sua boca paralizada e a fazer os seus ninhos dentro do seu corpo.

A mordida ocasional era uma luz de esperança, uma vaga esperança de que pudesse morrer e acabar com isto.

Às vezes, Alison perdia a consciência, e o sono era uma benção, mas nunca durava, ou pelo menos parecia nunca durar. Logo ela acordava, com a pressão de algo a pressionar o seu esófago, ou a serpentear para dentro do seu intestino.

A rapariga tinha cada vez menos noção do que se passava, sentia-se a perder o que quer que restasse da sua humanidade, prestes a tornar-se apenas um bloco de carne na escuridão que a tinha engolido.

Mas então ouviu o grito.

O grito era apenas um, mas ela sentiu-o tanto na sua mente como nos ouvidos, e era como se esse único grito tivesse sido partilhado por um milhar de bocas.

A intensidade, a concentração de pura agonia abafou todos os seus sentidos – e depois, à medida que passava o zunido que sentia nos ouvidos, começou a recuperar a visão, e depois o tacto, e assim viu a luz e sentiu o calor na sua pele, e cheirou o fumo e – que maravilha- sentiu o chão nas suas mãos.

Uma sensação de náusea tomou conta de Alison. A rapariga vomitou para chão, e para seu horror, da sua boca saíam cobras, que aterravam na rocha negra e rastejavam para longe.

E o seu horror aumentou quando Alison se apercebeu que o que quer que estivesse dentro dela, estava agora irrequieto, estava a mexer, a lutar para se libertar do seu corpo.

A rapariga tentou levantar-se e correr, mas falharam-nas as suas pernas entorpecidas, e ela caiu de novo contra o chão.

Pelo canto do olho conseguia ver o caos que a rodeava, um incêndio no interior de uma caverna, as paredes cobertas de cobras e serpentes a deslizar em pânico, a maioria em chamas.

Mas a sua concentração estava completamente direcionada para a fuga, não importava para onde – qualquer lugar seria melhor. Ora dava umas passadas, ora caia e arrastava-se, ou gatinhava, sempre na mesma direcção, a direcção que escolhera instintivamente.

Apesar do ar nocturno ser abafado, sair da caverna foi para Alison como se tivesse renascido.

Com lágrimas nos olhos, nua, mordida e esfolada, ela ainda assim sorria à medida que meio caía, meio rebolava pela encosta para onde a boca da caverna se abrira.

Finalmente, deslizou até à base da ladeira, e os guinchos das serpentes sentiam-se mais distantes e pareciam estar a acalmar.

O simples pensar em serpentes levou-a a colocar os dedos na garganta e forçar-se a vomitar. Tinha que se livrar da imundice, do que quer que estivesse dentro dela!

Alison sentiu como se o seu corpo fosse rebentar, sentia-se inchada como um balão. Mas por mais que enfiasse os dedos para dentro, só se conseguia engasgar, não saía nada.

Mas mais uma vez, o seu corpo ficou encharcado em dor, e a rapariga caiu de joelhos. As suas mãos e atenção foram para o seu peito, para os seus seios, que pareciam prestes a rebentar. E pela primeira vez desde que o pesadelo começara, sentiu algo que não era medo, ou dor, mas simples confusão.

Aqueles não eram os seus seios, aquelas não eram as suas mãos.

As mãos, por entre feridas e arranhões, eram esguias, com dedos finos como ossos, que acabavam em unhas pontiagudas, que mais pareciam ser as garras de um gato selvagem.

Os seios eram maiores do que os seus, e a pele, a pele não era a sua pele, esta não era uma cor natural, era arroxeada. Para mais, não era a pele suave, sedosa que se reconhecia ao toque. Parecia, dava a sensação de que estava coberta por cabedal.

Mas antes que pudesse considerar melhor esta estranha sensação, Alison voltou a ver-se atordoada pela dor.

O seu peito, os seus seios começaram a latejar como se estivessem a ser abertos ao meio, a ser rasgados por dentro. A rapariga sentiu algo – não, sentiu muitas coisas – a mexerem-se lá dentro. Nesse instante, uma nova serpente, mais pequena que as anteriores, disparou do interior do seu mamilo para o chão, num esguicho de sangue negro. A dor fez Alison cair de vez, bater com a cara no chão.

O seu corpo começou a sofrer convulsões, e Alison apercebeu-se que agora, era ela que gritava. Ela gritava à medida que sentia repteis de todos os tamanhos a atravessar por dentro dela, a fugir do seu corpo, a sair por todos os seus orifícios – pelo nariz, pelos mamilos, pelo seu sexo, pela sua boca, pelos cantos dos olhos.

A rapariga não entendia o que lhe estava a acontecer, não conseguia ver nada por entre o véu da dor e das lágrimas, sentia os próprios olhos a ser deslocados das orbitas para dar passagem aos monstros que se tinham aninhado dentro dela.

Mas por algum milagre, Alison decidiu que não podia desistir. Com renovado vigor, juntou as mãos e esmurrou o próprio estômago, mais e mais vezes, até a dor ser insuportável. Mas tinha que ser, tinha que se livrar do que estava dentro dela. Ou tinha que morrer e acabar com isto.

Mais uma vez, Alison perdeu a noção do tempo. Perdeu até noção das vezes que tinha perdido consciência.

Foram horas que esteve prostrada, a dar à luz abominações, por todos os poros do seu corpo? Ou foram anos? Alison já não sabia. Mas a dada altura, talvez depois de séculos de tortura, as serpentes pararam de sair. O seu corpo tinha-se transformado num balão furado, uma coisa vazia, inerte. Pela primeira vez numa eternidade, Alison conseguiu abrir os olhos e ver, novamente.

Conseguiu olhar para o céu.

Desde criança que Alison sonhava em visitar as estrelas, em viajar pelo espaço e descobrir novas galáxias.

Mas todas as estrelas deste céu lhe eram desconhecidas.

E então, algo novo: uma figura cobriu as estrelas. Um homem pálido, de olhos verdes e longos cabelos brancos estava a olhar para ela, a pele enrugada visível na noite eliminada pelos astros.

Os olhos de Alison fixaram-se nos do estranho, mas antes que pudesse dizer algo, uma nova onda de cansaço apoderou-se dela, e, mais uma vez, a noite caiu para a sua alma torturada.

Pintura: “Tríptico do Jardim dos Prazeres Terrenos” (detalhe) por Hieronymus Bosch

Brechas – 4 – Dor

Frio.

Era esta a palavra? O corpo, este corpo-que-era-dela-mas-que-não-era, este corpo que treme, lembrava-se da palavra.

“F-f-frio.” Disse Sirja por entre dentes que batiam. “Frio” não existia no seu mundo.

Dor.

Uma das suas presas brancas cravou-se na carne suave do lábio, e o sangue começou a fluir pelo seu peito nu abaixo, o calor do líquido negro a fazer-se sentir na pele gelada.

Dor. Dor era-lhe familiar. O seu mundo era dor. A dor dela, a dor dos outros, a dor do próprio mundo. 

Deliciosa dor.

Um assobio cortou a noite escura. Sirja voltou-se para a sua origem. Lá ao longe, na outra ponta da estranha extensão de pedra lisa, um vulto, um homem, observava o seu… o corpo-nu-que-era-dela-mas-não-era.. com olhos predatórios. O estranho estava à beira da luz projectada por um daqueles pequenos fogos presos em gaiolas de vidro e metal, como se tivesse medo de se expor.

Tão fácil. 

Sirja encheu o peito de ar gelado, serpenteou o seu perfil ao desconhecido, acenou com a cabeça daquele corpo-que-era-o-dela-mas-não-realmente. E depois, atravessou o portal para dentro daquele sítio que tinha ouvido transeuntes chamar uma “casa de banho.”

Aqui havia mais luz. Sirja olhou para o seu reflexo na parede de cristal. O corpo que misturava as suas formas com os da… outra criatura… Era belo, curvilíneo, o isco perfeito. Que bem que este lugar a tratava, sim. 

Mas todo o sangue, o sangue da sua presa anterior, o sangue que a cobria quase toda… Não, não podia ser, ia espantar aquele cujos passos ecoavam cada vez mais próximos.

Sirja espetou uma das unhas-que-eram-dela-mas-não-eram, uma unha cortante e ponteaguda, no seu peito direito, mesmo abaixo da clavicula. 

Dor.

Começou a sair sangue negro, e cada vez mais, à medida que ela remexia o dedo, abria mais a ferida, cravava um buraco no corpo meio-emprestado.

Dor. Dor. DOR!

E a luz das lâmpadas da casa-de-banho foi chupada como um líquido por uma palhinha, para dentro do buraco negro que era a sua ferida auto infligida. 

O homem entrou dentro da casa-de-banho negra como o breu.

A predadora sorriu.

Fotografia: Georgie Pauwels Flickr via Compfight cc

A Chegada

Aurora esticou os braços sobre a cabeça e espreguiçou-se, saboreando a sombra da arcada de pedra. A construção estendia-se pelos céus acima e bloqueava o sol intenso das planícies áridas de Jahaara. A sacerdotisa desapertou o turbante cinzento que lhe cobria a cabeça e a face, e sacudiu o suor dos cabelos castanhos encaracolados. Devo parecer tal e qual o meu companheiro, quando se sacode depois de sair da água. Pensou ela.

Aurora nunca tinha visto o homem-tigre da forma como via agora. Em frente ao portão da sua terra natal, Jamaal era uma criatura diferente, mais recta, mais poderosa – nem ela imaginara que 200 quilos de tigre podiam parecer mais poderosos do que o habitual. 

O felino estava de costas direitas, com os seus braços listrados de preto e laranja cruzados sobre o peito que ostentava o mesmo padrão. Ele que normalmente caminhava com uma ligeira curvatura, quando não mesmo sobre as quatro patas, e cuja face raramente traia alguma emoção que o ser humano conseguisse entender. Aqui e agora, sorria um sorriso de mil presas afiadas, com os bigodes empinados.

A sacerdotisa estava prestes a perguntar-lhe se ninguém lhes vinha abrir a porta, se ninguém lhes ia ao menos perguntar quem eram, quando o rugido da pedra se fez ouvir. Devagar, o colossal portão de pedra começou-se a abrir. 

Do outro lado, esperavam três homens-tigre, também eles de braços cruzados. Nada tinham vestido para além de tangas cinzentas, e cintos onde tinham embainhadas as espadas curvas características de Sala’hadan. Não era a primeira vez que Aurora tinha notado influências do povo do deserto na cultura dos felinos.

Mantiveram-se imóveis, mimetizando a posição de Jamaal. Aurora sorriu e acenou.

De trás deles surgiu um homem de meia-idade – baixinho, bochechudo como um bebé. Claro que quase todos os homens pareciam baixos perto dos homems-tigre, mas a cabeça deste, mesmo com o turbante verde, dava pelo queixo de Aurora.

O homem meio andou, meio rebolou na direcção dela. Chegou a dois passos, parou, e tirou um monóculo sujo de uma algibeira da sua túnica verde-terra, que prontamente limpou a uma manga, antes de o meter entre o seu olho e o sorriso da sacerdotisa.

“Não estava à espera de ver um homem de Garm por aqui. Estás longe de casa, meu amigo!” Disse Aurora.

O homem quase caiu para trás, e o monóculo só não se estilhaçou no chão porque, afinal, estava preso à algibeira por uma corrente prateada.

“Mil perdões, minha senhora.” Disse o homem de Garm. “Já cá estou há muitos anos, e com a falta de palavras, começa a sumir-me a educação.”

Ofereceu a mão a Aurora. “Oskar Hoffritz, ao seu serviço, minha senhora. Fabricante de ampulhetas.” 

A sacerdotisa ofereceu a mão. “Aurora. Encantada.”

Com o ar de quem se lembrou de algo importante, o pequeno homem endireitou-se, e retomou a sua inspecção, monóculo em riste. 

“Huummm.”

“Posso ajudá-lo, bom homem?”

“Peço perdão, menina Aurora. É mero protocolo.” E com isto, o homem voltou-se para os três guardas e fez um barulho que a Aurora parecia o som de uma pessoa com pouco fôlego a tentar apagar as velas de um bolo de anos – uma série de sopros curtos e ofegantes. “Fufufu, fufufu.”

“O que é que ele está a dizer, Jamaal?” O seu companheiro mexeu ligeiramente os bigodes, e nada mais.

Os guardas afastaram-se para os lados, visivelmente mais relaxados. Jamaal falou pela primeira vez desde que tinham chegado ao portão.

“Aurora-gh’tar, estávamos a conversar. Ganhar entrada.”

“Oh? Não ouvi grande coisa.”

“Cheiro, movimentos pequenos, ocasionais ruídos.” respondeu Oskar. “Eu estudei a parte vocal, e só isso já faz de mim uma espécie de embaixador.”

A sacerdotisa riu-se. “Então estes anos todos, esse cheiro eras tu a tentar comunicar, Jamaal?”

O homem tigre revirou os olhos, e avançou em direcção ao portão.

“Gh’tar, se conseguisses sentir o teu cheiro como eu o sinto, passavas o dia no banho.” Respondeu.

Aurora, ainda com um sorriso maroto, seguiu atrás dele, acompanhada por Oskar. Finalmente, ia conhecer a cidade escondida atrás da muralha milenária do povo felino.