Arquivo da Categoria: Ficção

Brechas – 2 – O Inspector

O inspector Virgílio não estava a ter um serão agradável. Ter que acabar de jantar à pressa para investigar um homicídio não uma coisa invulgar, mas não era uma situação que melhorasse com a familiaridade. 

E o inspector percebeu que este ia ser dos piores logo ao entrar, pois ouviu um dos agentes da polícia a vomitar na casa de banho. 

O cheiro a carniça dominava este pequeno apartamento em Entrecampos. “Apartamento” era um termo generoso; era um quarto central com uma casa de banho num canto e uma divisória a limitar uma kitchenette. O ninho de amor perfeito para as duas estudantes que aqui viveriam, de acordo com o que lhe tinha sido dito a caminho.       

Só que neste momento, a polícia nem tinha a certeza de aqui ter uma estudante inteira. Um dos agentes tinha, minutos antes de ele ter chegado, encontrado metade de uma mandíbula por cima de uma das estantes de livros. Só conseguiram descobrir que era isso porque tinha a língua agarrada. Virgílio nunca tinha visto nada assim – era como se a rapariga tivesse sido atacada por um animal selvagem.

Não… Um animal selvagem não pendurava… Tiras de pele… No candeeiro do tecto, como macabras decoracões de Natal. Virgílio colocou uma luva, e puxou de leve numa, como se a tira de pele fosse uma serpente adormecida. O pedaço de pele pálida enrolou-se na palma da sua mão, manchou a luva branca de escarlate.

E… não haviam sinais de luta, para além de um espelho partido. O quarto estava encharcado de sangue e repleto de pedaços de alguém, mas nada sugeria uma luta, não havia sinal de armas, nada mais estava partido. Nem os vizinhos tinham relatado barulho – para além da música alta demais, o habitual. Não tivesse sido o sangue a pingar por entre o soalho de má qualidade para o andar inferior, sabe Deus quanto tempo teria passado até darem com isto. 


Virgílio dirigiu-se à casa de banho, depois do agente se ter recomposto. Avançou quase em bicos de pés, para tentar não pisar em nada que parecesse ter sido parte de uma pessoa. 

O inspector soltou um suspiro ao entrar no cubículo de azulejos brancos. Mãos estampadas em sangue, aqui e ali – isto era território mais familiar. As “pegadas” conduziam à pequena janela, grande suficiente para uma pessoa magra poder utilizar para sair. Virgílio espreitou por ela.

Estava a chover com muita força, quase granizo. Não havia escada de incêndio, e estavam num quinto andar.

Fotografia: Renaud Camus Flickr via Compfight cc

Brechas – 1 – O Despertar de Alison

São dez da manhã. Os Rolling Stones começam a tocar. Passados quarenta e cinco segundos, uma mão envia os comprimidos que estavam na mesa de cabeceira a voar para o chão, antes de finalmente encontrar o botão de silêncio do despertador, e travar a “Paint it, Black” a meio.

Alison espreguiça-se na cama, nua sob os lençóis. A pequena morena olha de lado para a sua Carole, loira oxigenada, branca como uma boneca chinesa. A sua amante dorme em paz, indiferente ao rock matinal. Alison torce o nariz. O quarto cheira a sexo. O desconforto momentâneo fá-la suspirar, e a rapariga percebe que já não está apaixonada pela sua parceira. 

A jovem sai da cama e cambaleia em direcção à casa de banho. A caminho, pára durante um momento em frente ao espelho, para apreciar o seu corpo nú. O bronze ligeiro que complementa perfeitamente os seus cabelos e olhos negros traz-lhe um sorriso ao rosto.

O sorriso esvai-se, e Alison salta para trás, como se tivesse pisado num prego. Aqueles olhos não eram os dela. Mas eram. Agora já são, é o reflexo dela. Antes não eram… não pareciam. 

Com um calafrio fininho, segue para a casa-de-banho. 

“Tenho que me livrar do cheiro dela.”, murmura ao abrir a torneira do duche. 

Fotografia: PeterThoeny Flickr via Compfight cc

O Sonho

As patas de Aurora sentiam-se suaves contra o chão de pedra rija. Ela estava a correr, nariz rente ao chão. Com a lua sobre si, ora saltava sobre um muro, ora trepava sobre um parapeito. Era estranho, mas, ao mesmo tempo, era familiar. 

Por vezes a lua desaparecia por detrás de um dos edifícios mais altos, ou obscurecida por uma das muitas pontes que os ligavam entre si, mas a escuridão não lhe retirava o embalo. Ela sentia o espaço à sua volta, à sua frente, e não parava de correr. Continua a ser correr quando não é sobre duas pernas? 

E porquê? Ela… Ela lembrava-se de ter duas pernas. Isto não parecia… Era estranho? Mas ao mesmo tempo, era ela… Era…

Aurora piscou os olhos. A sacerdotisa estava na rua, frente a frente com um gato preto. Um gato que a fitava com um único olho âmbar brilhante: o outro estava coberto por uma cicatriz. Na noite escura, olho quase-dourado brilhava de forma intensa.

“Miaaau.” Disse o gato, e sumiu por entre edifícios. 

Aurora pestanejou, e olhou para as suas mãos. Estavam sujas, mas eram mãos, não patas. Sentia os joelhos doridos, e a luz ténue do luar não a deixava perceber bem, mas imaginava que o seu vestido de dormir estivesse esfarrapado.

Porque é que ela aqui estava? Não se lembrava de nada para além de se ter deitado quando o sol se pôs…

Reparou então que à sua frente estava um edifício invulgar. A maioria dos edifícios de Jahaara eram cúbicos e rectangulares, sempre com terraços em vez de telhados, para que os seus ocupantes se pudessem estender ao sol e ao luar. Eram relativamente rasteiros, nunca tinham mais de três andares. Já este, à frente dela, era formado por três torres geminadas, cada uma mais alta e mais fina que a outra, cada uma coroada com uma abóbada redonda.

A sacerdotisa sentiu um arrepio, e cruzou os braços em frente ao peito.

Fotografia: Little Sadie Flickr via Compfight cc