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Brechas – 4 – Dor

Frio.

Era esta a palavra? O corpo, este corpo-que-era-dela-mas-que-não-era, este corpo que treme, lembrava-se da palavra.

“F-f-frio.” Disse Sirja por entre dentes que batiam. “Frio” não existia no seu mundo.

Dor.

Uma das suas presas brancas cravou-se na carne suave do lábio, e o sangue começou a fluir pelo seu peito nu abaixo, o calor do líquido negro a fazer-se sentir na pele gelada.

Dor. Dor era-lhe familiar. O seu mundo era dor. A dor dela, a dor dos outros, a dor do próprio mundo. 

Deliciosa dor.

Um assobio cortou a noite escura. Sirja voltou-se para a sua origem. Lá ao longe, na outra ponta da estranha extensão de pedra lisa, um vulto, um homem, observava o seu… o corpo-nu-que-era-dela-mas-não-era.. com olhos predatórios. O estranho estava à beira da luz projectada por um daqueles pequenos fogos presos em gaiolas de vidro e metal, como se tivesse medo de se expor.

Tão fácil. 

Sirja encheu o peito de ar gelado, serpenteou o seu perfil ao desconhecido, acenou com a cabeça daquele corpo-que-era-o-dela-mas-não-realmente. E depois, atravessou o portal para dentro daquele sítio que tinha ouvido transeuntes chamar uma “casa de banho.”

Aqui havia mais luz. Sirja olhou para o seu reflexo na parede de cristal. O corpo que misturava as suas formas com os da… outra criatura… Era belo, curvilíneo, o isco perfeito. Que bem que este lugar a tratava, sim. 

Mas todo o sangue, o sangue da sua presa anterior, o sangue que a cobria quase toda… Não, não podia ser, ia espantar aquele cujos passos ecoavam cada vez mais próximos.

Sirja espetou uma das unhas-que-eram-dela-mas-não-eram, uma unha cortante e ponteaguda, no seu peito direito, mesmo abaixo da clavicula. 

Dor.

Começou a sair sangue negro, e cada vez mais, à medida que ela remexia o dedo, abria mais a ferida, cravava um buraco no corpo meio-emprestado.

Dor. Dor. DOR!

E a luz das lâmpadas da casa-de-banho foi chupada como um líquido por uma palhinha, para dentro do buraco negro que era a sua ferida auto infligida. 

O homem entrou dentro da casa-de-banho negra como o breu.

A predadora sorriu.

Fotografia: Georgie Pauwels Flickr via Compfight cc

A Chegada

Aurora esticou os braços sobre a cabeça e espreguiçou-se, saboreando a sombra da arcada de pedra. A construção estendia-se pelos céus acima e bloqueava o sol intenso das planícies áridas de Jahaara. A sacerdotisa desapertou o turbante cinzento que lhe cobria a cabeça e a face, e sacudiu o suor dos cabelos castanhos encaracolados. Devo parecer tal e qual o meu companheiro, quando se sacode depois de sair da água. Pensou ela.

Aurora nunca tinha visto o homem-tigre da forma como via agora. Em frente ao portão da sua terra natal, Jamaal era uma criatura diferente, mais recta, mais poderosa – nem ela imaginara que 200 quilos de tigre podiam parecer mais poderosos do que o habitual. 

O felino estava de costas direitas, com os seus braços listrados de preto e laranja cruzados sobre o peito que ostentava o mesmo padrão. Ele que normalmente caminhava com uma ligeira curvatura, quando não mesmo sobre as quatro patas, e cuja face raramente traia alguma emoção que o ser humano conseguisse entender. Aqui e agora, sorria um sorriso de mil presas afiadas, com os bigodes empinados.

A sacerdotisa estava prestes a perguntar-lhe se ninguém lhes vinha abrir a porta, se ninguém lhes ia ao menos perguntar quem eram, quando o rugido da pedra se fez ouvir. Devagar, o colossal portão de pedra começou-se a abrir. 

Do outro lado, esperavam três homens-tigre, também eles de braços cruzados. Nada tinham vestido para além de tangas cinzentas, e cintos onde tinham embainhadas as espadas curvas características de Sala’hadan. Não era a primeira vez que Aurora tinha notado influências do povo do deserto na cultura dos felinos.

Mantiveram-se imóveis, mimetizando a posição de Jamaal. Aurora sorriu e acenou.

De trás deles surgiu um homem de meia-idade – baixinho, bochechudo como um bebé. Claro que quase todos os homens pareciam baixos perto dos homems-tigre, mas a cabeça deste, mesmo com o turbante verde, dava pelo queixo de Aurora.

O homem meio andou, meio rebolou na direcção dela. Chegou a dois passos, parou, e tirou um monóculo sujo de uma algibeira da sua túnica verde-terra, que prontamente limpou a uma manga, antes de o meter entre o seu olho e o sorriso da sacerdotisa.

“Não estava à espera de ver um homem de Garm por aqui. Estás longe de casa, meu amigo!” Disse Aurora.

O homem quase caiu para trás, e o monóculo só não se estilhaçou no chão porque, afinal, estava preso à algibeira por uma corrente prateada.

“Mil perdões, minha senhora.” Disse o homem de Garm. “Já cá estou há muitos anos, e com a falta de palavras, começa a sumir-me a educação.”

Ofereceu a mão a Aurora. “Oskar Hoffritz, ao seu serviço, minha senhora. Fabricante de ampulhetas.” 

A sacerdotisa ofereceu a mão. “Aurora. Encantada.”

Com o ar de quem se lembrou de algo importante, o pequeno homem endireitou-se, e retomou a sua inspecção, monóculo em riste. 

“Huummm.”

“Posso ajudá-lo, bom homem?”

“Peço perdão, menina Aurora. É mero protocolo.” E com isto, o homem voltou-se para os três guardas e fez um barulho que a Aurora parecia o som de uma pessoa com pouco fôlego a tentar apagar as velas de um bolo de anos – uma série de sopros curtos e ofegantes. “Fufufu, fufufu.”

“O que é que ele está a dizer, Jamaal?” O seu companheiro mexeu ligeiramente os bigodes, e nada mais.

Os guardas afastaram-se para os lados, visivelmente mais relaxados. Jamaal falou pela primeira vez desde que tinham chegado ao portão.

“Aurora-gh’tar, estávamos a conversar. Ganhar entrada.”

“Oh? Não ouvi grande coisa.”

“Cheiro, movimentos pequenos, ocasionais ruídos.” respondeu Oskar. “Eu estudei a parte vocal, e só isso já faz de mim uma espécie de embaixador.”

A sacerdotisa riu-se. “Então estes anos todos, esse cheiro eras tu a tentar comunicar, Jamaal?”

O homem tigre revirou os olhos, e avançou em direcção ao portão.

“Gh’tar, se conseguisses sentir o teu cheiro como eu o sinto, passavas o dia no banho.” Respondeu.

Aurora, ainda com um sorriso maroto, seguiu atrás dele, acompanhada por Oskar. Finalmente, ia conhecer a cidade escondida atrás da muralha milenária do povo felino.

Brechas – 3 – Inferno

Alison abriu os olhos, e tentou logo sentar-se, elevar-se sobre a superfície da água da banheira, mesmo antes de formular a ideia de que tinha adormecido no banho. 

Seguiu-se ainda maior pânico: por mais que tentasse, não conseguia alcançar a superfície. Era como se a banheira se tivesse tornado um poço sem fundo.

Cada vez mais aflita, a engolir cada vez mais água, a sentir-se a ficar sem ar, o instinto tomou conta dela. Sem entender como o conseguia fazer numa banheira, Alison começou a nadar em direcção à luz. 

Sentiu um alívio enorme quando quebrou a superfície, ao inalar lufadas de ar quente. Por momentos, deixou-se ficar à beira da água, com os braços apoiados na borda, tronco ainda submerso, a alternar entre cuspir água e a respirar fundo. 

Só então notou que estava apoiada não na borda da sua banheira, no seu apartamento, em pedra dura, rude, que lhe arranhava os cotovelos. Reflexivamente, a jovem afastou-se, deixou-se flutuar no lago, e os olhos viram o céu pela primeira vez. 

O céu estava a arder.

Não havia Sol. Não haviam estrelas. Apenas um laranja incandescente, pontuado por nuvens negras como carvão.

Em seu redor, as cores do por-do-sol do sol que não existia cobriam tudo o que a vista alcançava. Rocha cinzenta e preta até o horizonte, sem sinal de vegetação ou de qualquer outro tipo de vida.

Isto não pode estar a acontecer, pensou. Onde estou eu? Só pode ser um sonho. 

Mas ela estava muito longe daquele estado semi-consciente de descontrolo controlado que sentimos quando sonhamos. Não, ela sabia, em pleno, no fundo da sua alma, que estava bem acordada. E isso assuntava-a mais do que o afogamento.

Voltou a repousar os braços na borda; nua, perdida, sem nada semelhante a civilização por perto. Começou a chorar. A água do lago era quente, e o ar era abafado. Mas o seu pranto foi logo interrompido por um som sibilante. 

À sua frente estava uma serpente, a cabeça levantada ao nível da de Alison. Por momentos, cruzaram-se os olhos de réptil e humano, e Alison sentiu um calafrio a percorrer-lhe a espinha. Depois, uma dor intensa na bochecha direita. 

O mundo começou a girar. A jovem estava de costas, estava a rebolar na costa do lago quente, a gritar, a tentar frenéticamente agarrar o corpo enorme, o corpo escorregadio do animal que lhe estava cravado na cara. 

Alison sentia o sangue escorrer-lhe pelo queixo abaixo, para o pescoço e para os seios, a dor intensa na bochecha, sentia-se cada vez mais fraca e pesada, até que sucumbiu novamente à inconsciência.