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A Chegada

Aurora esticou os braços sobre a cabeça e espreguiçou-se, saboreando a sombra da arcada de pedra. A construção estendia-se pelos céus acima e bloqueava o sol intenso das planícies áridas de Jahaara. A sacerdotisa desapertou o turbante cinzento que lhe cobria a cabeça e a face, e sacudiu o suor dos cabelos castanhos encaracolados. Devo parecer tal e qual o meu companheiro, quando se sacode depois de sair da água. Pensou ela.

Aurora nunca tinha visto o homem-tigre da forma como via agora. Em frente ao portão da sua terra natal, Jamaal era uma criatura diferente, mais recta, mais poderosa – nem ela imaginara que 200 quilos de tigre podiam parecer mais poderosos do que o habitual. 

O felino estava de costas direitas, com os seus braços listrados de preto e laranja cruzados sobre o peito que ostentava o mesmo padrão. Ele que normalmente caminhava com uma ligeira curvatura, quando não mesmo sobre as quatro patas, e cuja face raramente traia alguma emoção que o ser humano conseguisse entender. Aqui e agora, sorria um sorriso de mil presas afiadas, com os bigodes empinados.

A sacerdotisa estava prestes a perguntar-lhe se ninguém lhes vinha abrir a porta, se ninguém lhes ia ao menos perguntar quem eram, quando o rugido da pedra se fez ouvir. Devagar, o colossal portão de pedra começou-se a abrir. 

Do outro lado, esperavam três homens-tigre, também eles de braços cruzados. Nada tinham vestido para além de tangas cinzentas, e cintos onde tinham embainhadas as espadas curvas características de Sala’hadan. Não era a primeira vez que Aurora tinha notado influências do povo do deserto na cultura dos felinos.

Mantiveram-se imóveis, mimetizando a posição de Jamaal. Aurora sorriu e acenou.

De trás deles surgiu um homem de meia-idade – baixinho, bochechudo como um bebé. Claro que quase todos os homens pareciam baixos perto dos homems-tigre, mas a cabeça deste, mesmo com o turbante verde, dava pelo queixo de Aurora.

O homem meio andou, meio rebolou na direcção dela. Chegou a dois passos, parou, e tirou um monóculo sujo de uma algibeira da sua túnica verde-terra, que prontamente limpou a uma manga, antes de o meter entre o seu olho e o sorriso da sacerdotisa.

“Não estava à espera de ver um homem de Garm por aqui. Estás longe de casa, meu amigo!” Disse Aurora.

O homem quase caiu para trás, e o monóculo só não se estilhaçou no chão porque, afinal, estava preso à algibeira por uma corrente prateada.

“Mil perdões, minha senhora.” Disse o homem de Garm. “Já cá estou há muitos anos, e com a falta de palavras, começa a sumir-me a educação.”

Ofereceu a mão a Aurora. “Oskar Hoffritz, ao seu serviço, minha senhora. Fabricante de ampulhetas.” 

A sacerdotisa ofereceu a mão. “Aurora. Encantada.”

Com o ar de quem se lembrou de algo importante, o pequeno homem endireitou-se, e retomou a sua inspecção, monóculo em riste. 

“Huummm.”

“Posso ajudá-lo, bom homem?”

“Peço perdão, menina Aurora. É mero protocolo.” E com isto, o homem voltou-se para os três guardas e fez um barulho que a Aurora parecia o som de uma pessoa com pouco fôlego a tentar apagar as velas de um bolo de anos – uma série de sopros curtos e ofegantes. “Fufufu, fufufu.”

“O que é que ele está a dizer, Jamaal?” O seu companheiro mexeu ligeiramente os bigodes, e nada mais.

Os guardas afastaram-se para os lados, visivelmente mais relaxados. Jamaal falou pela primeira vez desde que tinham chegado ao portão.

“Aurora-gh’tar, estávamos a conversar. Ganhar entrada.”

“Oh? Não ouvi grande coisa.”

“Cheiro, movimentos pequenos, ocasionais ruídos.” respondeu Oskar. “Eu estudei a parte vocal, e só isso já faz de mim uma espécie de embaixador.”

A sacerdotisa riu-se. “Então estes anos todos, esse cheiro eras tu a tentar comunicar, Jamaal?”

O homem tigre revirou os olhos, e avançou em direcção ao portão.

“Gh’tar, se conseguisses sentir o teu cheiro como eu o sinto, passavas o dia no banho.” Respondeu.

Aurora, ainda com um sorriso maroto, seguiu atrás dele, acompanhada por Oskar. Finalmente, ia conhecer a cidade escondida atrás da muralha milenária do povo felino.

Brechas – 3 – Inferno

Alison abriu os olhos, e tentou logo sentar-se, elevar-se sobre a superfície da água da banheira, mesmo antes de formular a ideia de que tinha adormecido no banho. 

Seguiu-se ainda maior pânico: por mais que tentasse, não conseguia alcançar a superfície. Era como se a banheira se tivesse tornado um poço sem fundo.

Cada vez mais aflita, a engolir cada vez mais água, a sentir-se a ficar sem ar, o instinto tomou conta dela. Sem entender como o conseguia fazer numa banheira, Alison começou a nadar em direcção à luz. 

Sentiu um alívio enorme quando quebrou a superfície, ao inalar lufadas de ar quente. Por momentos, deixou-se ficar à beira da água, com os braços apoiados na borda, tronco ainda submerso, a alternar entre cuspir água e a respirar fundo. 

Só então notou que estava apoiada não na borda da sua banheira, no seu apartamento, em pedra dura, rude, que lhe arranhava os cotovelos. Reflexivamente, a jovem afastou-se, deixou-se flutuar no lago, e os olhos viram o céu pela primeira vez. 

O céu estava a arder.

Não havia Sol. Não haviam estrelas. Apenas um laranja incandescente, pontuado por nuvens negras como carvão.

Em seu redor, as cores do por-do-sol do sol que não existia cobriam tudo o que a vista alcançava. Rocha cinzenta e preta até o horizonte, sem sinal de vegetação ou de qualquer outro tipo de vida.

Isto não pode estar a acontecer, pensou. Onde estou eu? Só pode ser um sonho. 

Mas ela estava muito longe daquele estado semi-consciente de descontrolo controlado que sentimos quando sonhamos. Não, ela sabia, em pleno, no fundo da sua alma, que estava bem acordada. E isso assuntava-a mais do que o afogamento.

Voltou a repousar os braços na borda; nua, perdida, sem nada semelhante a civilização por perto. Começou a chorar. A água do lago era quente, e o ar era abafado. Mas o seu pranto foi logo interrompido por um som sibilante. 

À sua frente estava uma serpente, a cabeça levantada ao nível da de Alison. Por momentos, cruzaram-se os olhos de réptil e humano, e Alison sentiu um calafrio a percorrer-lhe a espinha. Depois, uma dor intensa na bochecha direita. 

O mundo começou a girar. A jovem estava de costas, estava a rebolar na costa do lago quente, a gritar, a tentar frenéticamente agarrar o corpo enorme, o corpo escorregadio do animal que lhe estava cravado na cara. 

Alison sentia o sangue escorrer-lhe pelo queixo abaixo, para o pescoço e para os seios, a dor intensa na bochecha, sentia-se cada vez mais fraca e pesada, até que sucumbiu novamente à inconsciência.

Brechas – 2 – O Inspector

O inspector Virgílio não estava a ter um serão agradável. Ter que acabar de jantar à pressa para investigar um homicídio não uma coisa invulgar, mas não era uma situação que melhorasse com a familiaridade. 

E o inspector percebeu que este ia ser dos piores logo ao entrar, pois ouviu um dos agentes da polícia a vomitar na casa de banho. 

O cheiro a carniça dominava este pequeno apartamento em Entrecampos. “Apartamento” era um termo generoso; era um quarto central com uma casa de banho num canto e uma divisória a limitar uma kitchenette. O ninho de amor perfeito para as duas estudantes que aqui viveriam, de acordo com o que lhe tinha sido dito a caminho.       

Só que neste momento, a polícia nem tinha a certeza de aqui ter uma estudante inteira. Um dos agentes tinha, minutos antes de ele ter chegado, encontrado metade de uma mandíbula por cima de uma das estantes de livros. Só conseguiram descobrir que era isso porque tinha a língua agarrada. Virgílio nunca tinha visto nada assim – era como se a rapariga tivesse sido atacada por um animal selvagem.

Não… Um animal selvagem não pendurava… Tiras de pele… No candeeiro do tecto, como macabras decoracões de Natal. Virgílio colocou uma luva, e puxou de leve numa, como se a tira de pele fosse uma serpente adormecida. O pedaço de pele pálida enrolou-se na palma da sua mão, manchou a luva branca de escarlate.

E… não haviam sinais de luta, para além de um espelho partido. O quarto estava encharcado de sangue e repleto de pedaços de alguém, mas nada sugeria uma luta, não havia sinal de armas, nada mais estava partido. Nem os vizinhos tinham relatado barulho – para além da música alta demais, o habitual. Não tivesse sido o sangue a pingar por entre o soalho de má qualidade para o andar inferior, sabe Deus quanto tempo teria passado até darem com isto. 


Virgílio dirigiu-se à casa de banho, depois do agente se ter recomposto. Avançou quase em bicos de pés, para tentar não pisar em nada que parecesse ter sido parte de uma pessoa. 

O inspector soltou um suspiro ao entrar no cubículo de azulejos brancos. Mãos estampadas em sangue, aqui e ali – isto era território mais familiar. As “pegadas” conduziam à pequena janela, grande suficiente para uma pessoa magra poder utilizar para sair. Virgílio espreitou por ela.

Estava a chover com muita força, quase granizo. Não havia escada de incêndio, e estavam num quinto andar.

Fotografia: Renaud Camus Flickr via Compfight cc