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Ingenuidade, ou preguiça?

Nunca tivemos tanta informação à nossa disposição. 

De forma legítima ou ilegítima, temos acesso a noticias, testemunhos, estudos científicos, manuais técnicos e muitos outros tipos de informação que há década e meia atrás só eram acessíveis a classes profissionais específicas, ou a uma elite social.

Podemos ter a necessidade ocasional de consultar um especialista para decifrar um pedaço de informação especialmente nebulosa. Mas regra geral, temos dados suficientes para ponderar e formar uma opinião informada. Basta investir um pouco de tempo, fazer um pouco de esforço.

Porque que é que, então, cada vez mais pessoas parecem contentes em aceitar a primeira coisa que ouvem quando ligam a televisão, as primeiras palavras que lêem no Facebook do amigo com quem não falam há cinco anos?

Acerca da Última Noite de Beethoven

Já escrevi sobre a minha relação peculiar com a música. As excepções são, normalmente, músicas que contam histórias. Não sou a pessoa certa para avaliar a qualidade musical, mas histórias são a minha vida, e portanto não me surpreende que uma música com narrativa me capture mais a atenção.

Não estou a falar necessariamente de um número musical no teatro ou no cinema. Esses sempre me pareceram muito forçados. História não significa diálogo, não significa prosa. Uma mão-cheia de boas estrofes basta. 

Um dos meus albums favoritos é o “Beethoven’s Last Night”, dos Trans-Siberian Orchestra.  É uma brilhante opera-rock que, ao longo das suas 22 faixas, conta a história da última noite do compositor. 

Mas como as melhores histórias, enquadra-a como uma batalha entre o bem e o mal. Às portas da morte, o artista desespera para terminar a sua última obra, e as forças primordiais surgem para lutar pela sua alma. O Inferno surge incarnado em Mefistófeles. Os Céus enviam uma musa, sob a forma de um antigo amor. 

A musica representa o diálogo entre estas três partes. Mefistófeles faz de tudo para convencer o compositor da futilidade dos seus esforços; a musa encoraja-o a persistir, a criar ele ultimo louvor para honrar o Divino. Ao longo do album, Beethoven vacila entre a inspiração e o desespero, sob a influência destas duas forças. É uma das metáforas mais belas que conheço para o processo artístico.

Que tudo isto é transmitido de forma tão viva, tão colorida, através de curtos versos e da potência da música, é simplesmente excepcional.

Quem ganha, afinal de contas, a alma do compositor? 

Podem descobrir ouvindo o album:

Vale a pena deixar a minha nota habitual: vivemos numa época fantástica em que temos arte belíssima à nossa disposição, completamente de graça. Quando tal arte vos captura a imaginação, quando tal arte vos inspira, então é sinal para ponderar a possibilidade de comprar aquilo que é grátis, e apoiar o artista.

A Arte Sem Nome

Sou uma anomalia no que diz respeito à musica. A maior parte das músicas não deixa registo na minha memória. Estamos a ouvir o que está a tocar no rádio do carro ou de um bar, eu mais amigos ou família, e eles vão dizendo os nomes das musicas e identificando as bandas que as tocam. Eu raramente o consigo fazer.

Acontece o mesmo com filmes. Claro, tenho uma lista de filmes favoritos, sei quais são, mas nem por sombras lhes consigo associar mais do que um punhado de nomes de actores e realizadores. Parece que tenho um bloqueio subconsciente que me leva a ignorar selectivamente os nomes das pessoas associadas à arte.

Não sinto que isso tenha diminuído a minha capacidade de apreciar cada obra. É verdade, por vezes sinto-me um bocado culpado, como se estivesse de alguma forma a desrespeitar o esforço, o empenho do artista. Mas não deixo de gostar do trabalho, e sou menos propenso a avaliar novas produções em função do nome a elas associadas.

Isso parece-me bem.

Fotografia por Porapak Apichodilok, via Pexels